Ensaio: Política, Cidadania e Mudança na Guiné-Bissau

Introdução
Na Guiné-Bissau, a prática política tem sido historicamente confundida com a ideia de que apenas os partidos e seus militantes são agentes de mudança. Essa visão reducionista ignora que os quadros técnicos — superiores, médios ou profissionais — não são formados para serem políticos, mas sim para colocar os seus conhecimentos e competências ao serviço do país e das populações. A insistência em transformar a política num espaço exclusivo de poder partidário tem gerado distorções profundas na vida social, cultural e económica da nação.
Desenvolvimento
1. A pluralidade de agentes sociais
Professores, médicos, jornalistas, ambientalistas, empresários e trabalhadores são pilares da sociedade. Cada um, no exercício da sua função, contribui para a construção de uma cidadania ativa e para a evolução do país. A educação molda mentalidades, a saúde garante bem-estar, a informação promove consciência crítica, e a economia sustenta o Estado. Nenhum destes papéis exige filiação partidária para ser relevante na mudança social.
2. O papel da sociedade civil
As organizações da sociedade civil, mesmo sem fazer política partidária, têm capacidade de propor e realizar ações focadas no desenvolvimento humano, social, cultural e económico. São espaços de participação cidadã que ampliam a democracia e fortalecem a responsabilidade coletiva. Reduzir a mudança ao campo político é negar a força transformadora da sociedade civil.
3. A crise da política guineense
Na prática, a política na Guiné-Bissau tem sido marcada pela usurpação de recursos naturais e financeiros do Estado, pela manipulação de consciências e pela institucionalização da corrupção e da impunidade. O poder dos partidos tem frequentemente substituído o poder do Estado, fragilizando a justiça e minando a confiança dos cidadãos. Esta realidade mostra que a política, tal como tem sido exercida, não tem servido como instrumento de desenvolvimento, mas como mecanismo de apropriação privada.
4. O risco da politização total
Com quase dois milhões de habitantes, seria uma catástrofe se todos participassem na vida política ativa, acreditando que apenas por essa via se pode mudar o país. A evolução social exige diversidade funcional: técnicos competentes nos ministérios, cidadãos conscientes que votam, trabalhadores que produzem, empresários que investem, professores que educam. A mudança não depende de todos serem políticos, mas de todos serem cidadãos ativos e responsáveis.
Conclusão
A Guiné-Bissau precisa de redefinir o sentido da política. Mais do que uma carreira partidária, a política deve ser entendida como serviço público, orientado para o bem comum. A verdadeira mudança não virá da multiplicação de partidos ou da politização de todos os setores, mas da valorização da cidadania em todas as suas dimensões. Professores, médicos, jornalistas, empresários, trabalhadores e organizações da sociedade civil são agentes legítimos de transformação. O desafio é construir uma cultura democrática que reconheça e integre essa pluralidade, libertando a política da lógica de apropriação e colocando-a ao serviço da evolução e do desenvolvimento social dos guineenses.
Positiva e construtivamente.
Didinho 09.12.2022
🇫🇷 Essai : Politique, Citoyenneté et Changement en Guinée-Bissau
Introduction
En Guinée-Bissau, la pratique politique a été historiquement confondue avec l’idée que seuls les partis et leurs militants sont des agents de changement. Cette vision réductrice ignore que les cadres techniques — supérieurs, moyens ou professionnels — ne sont pas formés pour devenir des politiciens, mais pour mettre leurs connaissances et compétences au service du pays et des populations. L’insistance à transformer la politique en un espace exclusif de pouvoir partisan a engendré de profondes distorsions dans la vie sociale, culturelle et économique de la nation.
Développement
1. La pluralité des agents sociaux
Les enseignants, médecins, journalistes, environnementalistes, entrepreneurs et travailleurs sont les piliers de la société. Chacun, dans l’exercice de sa fonction, contribue à la construction d’une citoyenneté active et à l’évolution du pays. L’éducation façonne les mentalités, la santé assure le bien-être, l’information favorise la conscience critique et l’économie soutient l’État. Aucun de ces rôles n’exige une affiliation partisane pour être pertinent dans le changement social.
2. Le rôle de la société civile
Les organisations de la société civile, même sans faire de politique partisane, ont la capacité de proposer et de réaliser des actions axées sur le développement humain, social, culturel et économique. Ce sont des espaces de participation citoyenne qui élargissent la démocratie et renforcent la responsabilité collective. Réduire le changement au champ politique revient à nier la force transformatrice de la société civile.
3. La crise de la politique guinéenne
En pratique, la politique en Guinée-Bissau a été marquée par l’usurpation des ressources naturelles et financières de l’État, par la manipulation des consciences et par l’institutionnalisation de la corruption et de l’impunité. Le pouvoir des partis a souvent remplacé le pouvoir de l’État, fragilisant la justice et minant la confiance des citoyens. Cette réalité montre que la politique, telle qu’elle a été exercée, n’a pas servi d’instrument de développement, mais de mécanisme d’appropriation privée.
4. Le risque de la politisation totale
Avec près de deux millions d’habitants, ce serait une catastrophe si tous participaient activement à la vie politique, croyant que seule cette voie peut changer le pays. L’évolution sociale exige une diversité fonctionnelle : des techniciens compétents dans les ministères, des citoyens conscients qui votent, des travailleurs qui produisent, des entrepreneurs qui investissent, des enseignants qui éduquent. Le changement ne dépend pas de tous être politiciens, mais de tous être citoyens actifs et responsables.
Conclusion
La Guinée-Bissau doit redéfinir le sens de la politique. Plus qu’une carrière partisane, la politique doit être comprise comme un service public, orienté vers le bien commun. Le véritable changement ne viendra pas de la multiplication des partis ou de la politisation de tous les secteurs, mais de la valorisation de la citoyenneté dans toutes ses dimensions. Enseignants, médecins, journalistes, entrepreneurs, travailleurs et organisations de la société civile sont des agents légitimes de transformation. Le défi est de construire une culture démocratique qui reconnaisse et intègre cette pluralité, libérant la politique de la logique d’appropriation et la plaçant au service de l’évolution et du développement social des Guinéens.
Positivement et constructivement.
Didinho, 09.12.2022
🇬🇧 Essay: Politics, Citizenship and Change in Guinea-Bissau
Introduction
In Guinea-Bissau, political practice has historically been confused with the idea that only parties and their militants are agents of change. This reductionist view ignores that technical cadres — higher, middle or professional — are not trained to become politicians, but to put their knowledge and skills at the service of the country and its people. The insistence on transforming politics into an exclusive space of partisan power has generated profound distortions in the social, cultural and economic life of the nation.
Development
1. The plurality of social agents
Teachers, doctors, journalists, environmentalists, entrepreneurs and workers are the pillars of society. Each, in the exercise of their function, contributes to the construction of active citizenship and to the evolution of the country. Education shapes mentalities, health ensures well-being, information promotes critical awareness, and the economy sustains the State. None of these roles requires partisan affiliation to be relevant in social change.
2. The role of civil society
Civil society organizations, even without engaging in partisan politics, have the capacity to propose and carry out actions focused on human, social, cultural and economic development. They are spaces of citizen participation that broaden democracy and strengthen collective responsibility. Reducing change to the political field is to deny the transformative force of civil society.
3. The crisis of Guinean politics
In practice, politics in Guinea-Bissau has been marked by the usurpation of the State’s natural and financial resources, by the manipulation of consciences and by the institutionalization of corruption and impunity. The power of parties has often replaced the power of the State, weakening justice and undermining citizens’ trust. This reality shows that politics, as it has been exercised, has not served as an instrument of development, but as a mechanism of private appropriation.
4. The risk of total politicization
With nearly two million inhabitants, it would be a catastrophe if everyone actively participated in political life, believing that only this path can change the country. Social evolution requires functional diversity: competent technicians in ministries, conscious citizens who vote, workers who produce, entrepreneurs who invest, teachers who educate. Change does not depend on everyone being politicians, but on everyone being active and responsible citizens.
Conclusion
Guinea-Bissau needs to redefine the meaning of politics. More than a partisan career, politics must be understood as public service, oriented towards the common good. True change will not come from the multiplication of parties or the politicization of all sectors, but from the valorization of citizenship in all its dimensions. Teachers, doctors, journalists, entrepreneurs, workers and civil society organizations are legitimate agents of transformation. The challenge is to build a democratic culture that recognizes and integrates this plurality, freeing politics from the logic of appropriation and placing it at the service of the evolution and social development of Guineans.
Positively and constructively.
Didinho, 09.12.2022

Fernando Casimiro

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Didinho é o nome literário de Fernando Jorge Gomes da Fonseca Casimiro, nascido em Bissau, República da Guiné-Bissau em 15 de Agosto de 1961 É sócio efetivo nº 1441 da Associação Portuguesa de Escritores desde 23 de maio de 2017 Livros do autor: Novembro de 2025 – GUINÉ-BISSAU: SEM VIGILÂNCIA DEMOCRÁTICA E RESPONSABILIDADE COLETIVA, A HISTÓRIA PODE REPETIR-SE – Euedito Depósito Legal: 556659/25 ISBN: 978-989-9263-30-7 ________________________ 03.01.2022 – GUINÉ-BISSAU CRISE POLÍTICA 2015-2016 – Análise política e contributos afins – Euedito Depósito Legal: 493726/22 ISBN: 978-989-9072-38-1 ________________________ 09.05.2018 – MINHA TERRA, MEU UMBIGO – Euedito Depósito Legal: 441102/18 ISBN:978-989-8856-92-0 ________________________ 16.08.2016 – O MEU PARTIDO É A GUINÉ-BISSAU - COLECTÂNEA DE TEXTOS EDITORIAIS - VOL. I - 16.08.2016 – Euedito Depósito Legal: 413977/16 ISBN:978-989-99670-1-4 ________________________ 22.08.2016 – O MEU PARTIDO É A GUINÉ-BISSAU - COLECTÂNEA DE TEXTOS EDITORIAIS - VOL. II – Euedito Depósito Legal: 413977/16 ISBN: 978-989-99670-3-8 ________________________ 08.10.2016 – O MEU PARTIDO É A GUINÉ-BISSAU - COLECTÂNEA DE TEXTOS EDITORIAIS - VOL. III – Euedito Depósito Legal: 413977/16 ISBN: 978-989-99670-8-3 Contatos: Email: didinhocasimiro@gmail.com Telemóvel: +351 962454392 WhatsApp – Fernando Casimiro +351 962454392 https://www.euedito.com/Didinho https://www.didinho.org