Escrever ou falar sobre blogs implica necessariamente escrever e falar sobre sites, ainda que de forma sucinta, para uma melhor compreensão do significado quer dum quer doutro, bem como do que os distingue, tendo em conta a natureza e o conceito base que lhes é comum, ou seja, a alocação e disponibilidade de ambos no espaço Web.

Um blog é um tipo de site de natureza pessoal (ao alcance de qualquer interessado já que não requer conhecimentos técnicos para a sua construção, por ser disponibilizado com todas as ferramentas e orientações pelo fornecedor de serviço) com características e particularidades próprias que lhe permitem ser uma página dinâmica, interactiva e cujo conteúdo pode ser rapidamente e facilmente actualizado.

Um site numa perspectiva tradicional e abrangente é um conjunto de páginas alocadas no espaço Web onde existe uma página principal/inicial que se relaciona com várias outras ditas sub-páginas ou secções. Por ser mais complexo que o blog requer conhecimentos técnicos para a sua construção. Ainda que possa ser de cariz pessoal, um site pela amplitude do seu conteúdo, quiçá, pelas suas características e particularidades assume maior relevo para assumir o papel de uma plataforma de natureza institucional ou corporativa.

A evolução das tecnologias no âmbito da criação de ferramentas para construção de sites e blogs tem contribuído para uma complementaridade cada vez mais frutífera na utilização gratuita quer de blogs quer de sites e na disponibilização de mais e melhores meios/mecanismos de comunicação entre produtores e consumidores de conteúdos.

Para uma abordagem conceitual mais ampla sobre blogs e sites sugiro-vos a leitura dos seguintes links:

Blog
Site
Entrando concretamente no tema proposto “O papel dos blogs na Guiné-Bissau: ontem, hoje e amanhã” importa salientar antes de mais, e independentemente de todo e qualquer tipo de juízo contrário, a importância quer dos blogs quer dos sites na ligação dos guineenses ao mundo global, por um lado, e à própria Guiné-Bissau por outro, sobretudo a partir de 2003 aos dias de hoje.

Para esta abordagem debruçamos sobre um Projecto de Cidadania criado em 10 de Maio de 2003 designado como “Projecto Guiné-Bissau CONTRIBUTO”, idealizado e dirigido por Fernando Casimiro (Didinho) como uma estrutura virtual devidamente fundamentada tendo em conta as causas que motivaram a sua criação por um lado e, por outro, a definição de uma declaração onde estabelece uma visão, uma missão e objectivos fundamentais do Projecto.

Ainda que o Projecto CONTRIBUTO tenha sido criado em Maio de 2003 só a 26 de Maio de 2004 é que foi lançado o seu primeiro site na Internet através do portal Sapo http://didinho.no.sapo.pt

Na ausência duma plataforma própria, a forma encontrada para transmitir a mensagem, os objectivos etc. foi a de utilizar espaços públicos de opinião na Internet.

As únicas portas abertas eram os fóruns de discussão existentes nalguns sites que, no entanto, e apesar de várias solicitações nesse sentido, nunca aceitaram publicar nenhum texto de opinião do fundador do Projecto Guiné-Bissau: CONTRIBUTO nos espaços reservados à publicação de artigos de opinião.

Naquela altura (2003) havia poucos sites que abordavam assuntos da África lusófona pese embora haver desde a década de 90 umas poucas plataformas de serviço às comunidades (destaco o Notícias Lusófonas criado em 1997) que funcionavam tipo jornais digitais, disponibilizando conteúdos informativos bem como fóruns de discussão para as diversas comunidades lusófonas e, onde por exemplo, vários guineenses e amigos da Guiné-Bissau compartilharam notícias e vivências do conflito militar de 1998/9.

Em 2003 havia um jornal digital, o Africanidade, que tinha algo mais e melhor que a maioria dos espaços virtuais da lusofonia e que serviu de “montra” para a divulgação dos trabalhos do Projecto CONTRIBUTO através do seu fórum de discussão. De referir que da equipa fundadora do Africanidade faziam parte 2 jovens da Guiné-Bissau: Watna Almeida e Karan Dabó, bem como outros doutras nacionalidades/origens. Teve sucesso como órgão de comunicação social que era e acabou por ser vendido, redundando num posterior fracasso e desaparecimento.

Com o lançamento em Maio de 2004 do site do Projecto Guiné-Bissau: CONTRIBUTO lançou-se igualmente a semente que iria promover a proliferação de espaços virtuais sobre a Guiné-Bissau, para lá da visão, missão e objectivos definidos e estabelecidos estrategicamente pelo fundador do CONTRIBUTO.

Em 2003 o Google adquiriu o Blogger a maior plataforma gratuita para criação de blogs o que permitiu que milhões de usuários de contas do Google aproveitassem a onda de euforia da nova moda que eram os blogs, para criarem seus espaços pessoais para os fins a que se propunham.

Foi dessa forma também que surgiram os primeiros blogs focados na Guiné-Bissau, contudo, exceptuando os jornalistas Umaro Djau e António Aly Silva, que sabiam concretamente o que queriam com a criação dos seus blogs, a maioria que surgiu muito depois navegava na onda da euforia de que, se fulano tem um site ou um blog eu também posso ter.

O certo é que a Guiné-Bissau e os guineenses beneficiaram e de que maneira com o surgimento das plataformas virtuais, sobretudo no preenchimento de múltiplas lacunas de obrigação do Estado para com os cidadãos, por exemplo, no âmbito da informação e divulgação de assuntos de interesse público.

Basta vermos que nos dias de hoje, em finais de 2015 há blogs e sites que noticiam, informam, divulgam e promovem tudo e mais alguma coisa como se estivessem ao serviço das instituições do Estado.

O site www.didinho.org do Projecto Guiné-Bissau CONTRIBUTO foi idealizado numa perspectiva funcional de usufruir de todas as particularidades de um site mas também, das funcionalidades e características de suporte de um blog. É que apesar do Projecto CONTRIBUTO ter uma orientação pessoal, não é uma plataforma de cariz pessoal e isso é evidente na vertente comunitária das suas diversas secções temáticas e na extensa lista dos seus colaboradores.

Um site dinâmico, com actualizações frequentes, com várias ferramentas de interacção entre colunistas e leitores que manifesta a razão da criação do Projecto e declara a sua visão, a sua missão e os seus objectivos.

Os blogs e os sites ajudaram a resgatar a memória colectiva, mas também, a levar a Guiné-Bissau e as suas realidades ao Mundo através da Internet.

Através de blogs e sites guineenses foram desenvolvidos trabalhos sérios, sustentados e consistentes tendo em conta a participação cidadã na mudança necessária para acabar com as ditaduras, as guerras e as instabilidades, por um lado e, criar condições para a afirmação da democracia, da paz, da estabilidade e o desenvolvimento, por outro.

Diria através da minha experiência e vivência que os blogs e sites sobre a Guiné-Bissau (importa referir que não só cidadãos guineenses criaram essas plataformas, mas também vários amigos da Guiné-Bissau de várias nacionalidades) funcionaram bem e numa perspectiva de todos e cada qual à sua maneira, servirem a Guiné-Bissau e os guineenses, até que os “donos” do poder começaram a ver a Força que essas plataformas constituíam, tornando-se (na maneira de ver deles) numa ameaça para os seus fins de se servirem da Guiné-Bissau ao invés de a servirem.

Em 2005 com o regresso do General João Bernardo Vieira ao poder na Guiné-Bissau começou a era de ameaças de morte aos administradores e aos colunistas de blogs e sites, complementada com uma estratégia de denigração de imagem dos mesmos, com a cumplicidade de anónimos e personalidades conhecidas da praça de Bissau que aproveitavam os mesmos espaços virtuais existentes para esses fins.

Os “donos” do poder tinham dado conta que a sociedade guineense estava a despertar por via da sensibilização, da consciencialização e da participação cidadã através das plataformas virtuais.

Digamos que de 2005 a 2014 os principais blogs e sites focados na Guiné-Bissau foram encarados por diversos actores, entre políticos, governantes e militares como sendo mecanismos capazes de causar agitação social no país dada a forte vertente de intervenção social e política que os caracterizava.

Por via disso, das várias estratégias elaboradas para destruir as plataformas virtuais inconvenientes para esses actores do poder, sem resultados concretos, houve uma estratégia que conseguiu ainda assim, alguns resultados: a estratégia da intriga que dividiu e fragmentou blogs e sites e, consequentemente, aproximou editores de blogs e sites aos “donos” do poder, resultando dessa aproximação, um “contrato” de prestação de serviços com contrapartidas várias.

Foi assim que se sucederam várias disputas de protagonismo promovidas por intrigas encomendadas, para desgastar e desacreditar este ou aquele, a fim de sair de cena com a sua plataforma virtual.

Assistimos a situações de autêntica venda de consciência de proprietários de alguns blogs que ora estavam a favor deste e contra aquele e vice-versa.

Novos blogs e sites foram criados, promovidos e sustentados financeiramente, pelos “donos” do poder para a defesa dos seus interesses e como arma de arremesso contra os designados “inimigos da Guiné-Bissau”.

Mesmo chegados à reposição da normalidade constitucional com as eleições presidenciais e legislativas de 2014 continuamos a assistir a um aproveitamento dos blogs pelas instâncias do poder nas suas disputas de protagonismo.

Ei-los como forças beligerantes de um exército fraccionado. Uns e outros com fulano ou beltrano como Comandante em Chefe…

Transformaram-se naquilo que se costuma dizer “carne para canhão”.

Os blogs deixaram de ser coerentes e de estar ao serviço da Guiné-Bissau e dos guineenses, nos moldes em que “nasceram”; os seus propósitos passaram a ser apenas a satisfação dos interesses dos seus proprietários em função das solicitações que recebem deste ou daquele, para este ou aquele fim. Chegam mesmo a promover os piores cenários para a Guiné-Bissau, porque há quem lhes orienta nesse sentido a troco de contrapartidas várias.

Volvidos 12 anos da era virtual continuada de blogs e sites focados na Guiné-Bissau, os poucos sobreviventes não precisam mais de se darem a conhecer, pois o tempo encarregou-se de os identificar, definir e caracterizar.

Ainda assim, apesar das evidências do descrédito e da perda de influência dos blogs junto das comunidades guineenses, o certo é que o país continua a ter poucas estruturas de informação e comunicação capazes de disponibilizar de forma rápida notícias e todo o tipo de informações de interesse público tal como os blogs conseguem disponibilizar, ainda que de forma dúbia e muitas vezes, de forma irresponsável. Por isso e dada a estagnação generalizada do país, estou em crer que os blogs e sites vão ressuscitando ainda por largos anos na Guiné-Bissau.

As redes sociais, sobretudo a utilização do Facebook por milhares de guineenses em todo o mundo também tem contribuído imenso para a queda de popularidade e influência dos blogs e dos sites. O Facebook consegue ser mais versátil, mais acessível à edição e publicação de textos/mensagens; mais rápido na partilha de qualquer assunto do que os blogs e sites, permitindo uma maior e melhor interactividade entre os usuários.

Nos dias que correm também assistimos ao facto de blogs e jornais guineenses online passarem dias e dias sem assuntos da Guiné-Bissau para reproduzirem nos seus espaços, recorrendo frequentemente a Agências de Notícias estrangeiras para a obtenção de notícias, inclusive sobre a própria Guiné-Bissau, para partilhar.

Sendo um dos pioneiros da era dos blogs e sites focados na Guiné-Bissau, sinto orgulho por tudo de positivo que conseguimos realizar e continuaremos a realizar, em prol da Guiné-Bissau e dos guineenses ,mas também sinto tristeza pela via que alguns proprietários de blogs decidiram seguir, em prol dos seus interesses pessoais. Não quero com isto dizer que não pudessem usar suas plataformas para actividades lucrativas de âmbito empresarial/corporativo. Apenas acho que não deviam e não devem continuar a usar os seus espaços para viverem à custa da Guiné-Bissau e dos guineenses, muitas vezes, promovendo intrigas e instabilidade, pondo em causa a paz e a unidade nacional.

Didinho 03.12.2015

Este trabalho foi proposto pela Rádio Jovem

Projecto Guiné-Bissau: CONTRIBUTO – UMA RECAPITULAÇÃO NECESSÁRIA

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