O DIÁLOGO E A TRANSPARÊNCIA DA INFORMAÇÃO

O DIÁLOGO E A TRANSPARÊNCIA DA INFORMAÇÃO

Obrigado a todos os guineenses que vieram através das redes sociais dar as suas opiniões sobre a polémica que nos apanhou agachados!

O mundo da investigação é fascinante, pelos benefícios que pode trazer ao ser humano mas, infelizmente, há muitos negócios marginais associados com esse mundo.

Falo por experiência própria: nos últimos 10 anos, muitos grupos de investigação vêm tentando recrutar-me para me dedicar exclusivamente à investigação clínica (clinical research). Por curiosidade, há 2 anos, decidi ter uma reunião com um desses grupos e para minha surpresa e estupefação, quase caí de costas quando me disseram a quantidade de dinheiro envolvido (para os investigadores, para os investigados etc.).

Estamos a falar de milhões de dólares, dependendo da companhia a apoiar o estudo.

Por agora, como adoro a medicina, vivo a medicina a cada dia que passa, por isso, preferi rejeitar as ofertas e praticar só medicina!

Talvez dentro de 10-15 anos, mude de opinião, passando a dedicar-me somente à investigação.

Deep inside, acredito que as pessoas que sancionaram este estudo para ser feito na Guiné o fizeram em prol da ciência e a compensação monetária não teve nada a ver….

Ainda assim, mesmo que fosse esse o caso, RESPEITOSAMENTE DISCORDO:

1A vacina oral da poliomielite tem a possibilidade de não aumentar o sistema imune em pessoas já vacinadas.

2Como disse Rachel Roper (da universidade de East Carolina): acredito que a Vacina da pólio  vai fornecer alguma imunidade; mas numa perspetiva similar, apanhar uma gripe também vai dar a mesma imunidade.

3Um outro problema, Não Menos Grave: a administração de uma vacina viva (mesmo atenuada), pode criar competição (imunodominância), o que pode levar o nosso sistema imunitário a usar todo o seu potencial contra a vacina, deixando o caminho aberto para o Coronavirus…!

Ninguém está contra ninguém neste fórum!

Estamos só a debater para atingirmos uma plataforma em que não saia a “rifa furada” à população guineense.

A equipa do Dr. Gallo (Maryland) ainda está a tentar angariar dados antes de submeter o pedido de aprovação do mesmo estudo ao FDA.

Pode levar meses para ser aprovado (se aprovado), porque há muito ceticismo sobre esta matéria.

Respeitosamente,

Djoca

Las Vegas, USA,  19.06.2020

Joaquim Tavares “Djoca” – MD, FACP, FCCP, DABSM, FAASM, EDIC, RPSGT

Medical Director, ECMO Program at Sunrise Hospital and Sunrise Children’s Hospital

RECAPITULANDO

RECAPITULANDO

Primeira Pausa

Dois dias depois de Donald Trump vencer as eleições presidenciais nos Estados Unidos, estava no avião da British Airways com a minha esposa e a minha filha, a caminho da África do Sul.

No avião, a música que continuei a repetir vezes sem conta foi It’s a Hard Rain’s a -gonna fall pelo Bob Dylan: I saw a black branch with blood that kept dripping…

Não sabia que era uma premonição dos tempos que nos aguardavam na Terra dos “ All Men are created Equal”

Depois da chegada a Joanesburgo e 2 dias com a família da minha esposa, partimos para Gaborone, Botswana para o casamento de uma amiga nossa.

Na fronteira, um grupo de jovens estava a murmurar algo em linguagem nativa e a minha mulher traduziu: “pobre americano, tem como presidente o Trump!!!”- eu tinha vestido uma camisola com as siglas da US Army.

A eleição do Trump o que fez foi despir os Estados Unidos e mostrar as faces do racismo que está enraizado na cultura americana: não ser white, significa teres que trabalhar o dobro ou triplo para ser reconhecido; significa estar sempre em alerta quando o teu filho vai ao cinema à noite e a incerteza de não saber se vai ser parado por um polícia e maltratado; ter que comprar e instalar uma câmara (dash cam) no carro do teu filho, para o caso dele ser vítima de violência policial; significa não ter seguro de saúde e não ter dinheiro para ir a um médico ou comprar medicamentos…

Mas temos que continuar a estudar, trabalhar e triunfar. Será a única forma de mudar mentalidades e mudar a nossa sociedade.

Depois de 3 meses de inquietude, desapontamentos e alegrias, sucessos e insucessos, penso que é oportuno recapitular e compartilhar a minha experiência com conterrâneos e outros interessados nas “peripécias “ da COVID-19.

Esta experiência não se compara com nenhuma outra que já vivi nesta minha longa vida de médico, acreditem!

Isto vem de quem viveu intensamente o massacre de Las Vegas, conhecido tristemente como massacre de 1 de Outubro. No dia do festival de Country music, um indivíduo entrincheirou-se num quarto do Mandalay Bay hotel e começou a disparar, ferindo 869 pessoas e matando 59.

Nessa noite, depois de um dia de trabalho árduo no hospital, fui a casa estoirado, vi televisão por 45 minutos (das 9 às 9:45 da noite) e de passagem o apresentador mencionou um bloqueio policial no Las Vegas Strip.

Pouco sabia eu que ia ser uma noite para não esquecer.

Fui dormir, mas às 11:30 da noite, a minha esposa despertou-me porque o meu telefone não parava de tocar (de tão cansado que estava, provavelmente atingi o Slow Wave Sleep – sono profundo-imediatamente).

Quando atendi, era o CEO do hospital com o call STAT!

A caminho do hospital, estava tudo bloqueado! Tive que mostrar o meu cartão de médico para passar o bloqueio.

O hospital parecia o MASH (da guerra da Korea, Vietnam, etc.): sangue por todo o lado!

Impressionante, mas nada comparado com este Coronavirus (como o Ntin-Franklyn disse) Nudade!

O medo do desconhecido por parte dos médicos, tentar tratar os doentes com coronavírus da mesma forma que tratamos outros doentes nos cuidados intensivos levou a muitos falhanços!

Depois das experiências com tantas mortes em NY, penso que aprendemos uns com os outros!

E agora a estratégia de tratamento parece mais efectiva:

1 – Quando o doente dá sinais de precisar de mais oxigénio, tentar de início High Flow Nasal Cannula antes de entubar e usar ventiladores.

2 – Se tivermos que usar ventiladores, tentar ser muito cauteloso e ajustar o PEEP (pressão positiva no final da expiração) de acordo com a complacência pulmonar.

3 – Depois de maximizar os parâmetros do ventilador e o doente ainda tem problemas de oxigenação, instituímos a Oxigenação por membrana extra corporal (ECMO).
No início da pandemia do coronavírus, estivemos muito relutantes em usar o ECMO por causa das pesquisas iniciais vindas da China e Japão que mostraram uma taxa de sobrevivência Abismal, somente entre 10–15%.

Por isso, como director do programa de ECMO no nosso hospital, não aprovei o uso desta modalidade de tratamento por 2 meses, porém, com os últimos dados publicados, com taxa de sobrevivência de mais de 55%, começamos a usar o ECMO em doentes com coronavírus (Só em casos em que a mortalidade com o ventilador ultrapassa os 80%) e os resultados têm sido muito positivos.

Em termos leigos, o ECMO é um tipo de pulmão e coração artificial que usamos temporariamente quando o pulmão e/ou o coração falham – ver ilustração a seguir.

Para colegas familiarizados com o ECMO, aproveito para partilhar uma das minhas aulas de formação de médicos e enfermeiras que dou 3 vezes por ano. Clique no link que se segue para aceder ao documento:

INTRODUÇÃO AO ECMO

4Remdesevir

Um antivírus que os estudos na universidade de Nebraska demonstraram poder reduzir a infeção de 15 para 11 dias.

5 – Convalescent plasma – soro de doentes previamente infetados pelo coronavírus. Em colaboração com o Mayo Clinic, o nosso hospital está a conduzir experimentos com as 2 últimas modalidades

6 – Tratamentos habituais na unidade de cuidados intensivos

Para terminar, dedico este artigo às equipas de futebol que fizeram parte da minha formação como homem e como médico (com as equipas, aprendi a trabalhar arduamente para fazer parte do plantel, trabalhar em grupo para atingir um objectivo comum – a vitória, e nunca perder a esperança…).

Os Canalhas (ruas de São Tomé e Angola)
Os Onze Africanos
Pamparira
Equipa de futebol da faculdade de medicina de Lisboa

CASTLE CONNOLLY TOP DOCTORS

Las Vegas, USA,  07.06.2020

Joaquim Tavares “Djoca” – MD, FACP, FCCP, DABSM, FAASM, EDIC, RPSGT

Medical Director, ECMO Program at Sunrise Hospital and Sunrise Children’s Hospital

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL?

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL?

Desde a nossa última abordagem, as coisas pioraram, principalmente em Nova Iorque. Infelizmente, como há muito que fazer em Las Vegas, não pude ir a Nova Iorque para ajudar os meus colegas intensivistas na frente da batalha.

O número de mortos em Nova Iorque tem muitas explicações, mas há duas explicações que importa salientar:

1 – A ideia descabida dos Afro-americanos de que o Covid-19 não afecta os Afro-americanos.

Infelizmente, a cruel realidade é que está a afectar esta comunidade, e de que maneira!

2 – Devido às condições socioeconómicas, as minorias são afectadas por doenças crónicas, como a diabetes e a obesidade!

Isto explica a alta mortalidade causada pelo coronavírus no seio dos Afro-americanos e dos Índios (nativos americanos).

Em Las Vegas, ainda não saímos do túnel, mas já vemos luz no fundo…

No primeiro relatório que fiz, falei do primeiro caso com COVID-19, doente que foi entubado no hospital (tinha que ser por um originário da Guiné – como diz a lenda, até que desenterrem o navio que foi enterrado na praça do império, a má sorte vai nos acompanhar até ao fim do mundo – Só a brincar! Nunca acreditei nesta lenda. O homem é o arquitecto do seu próprio destino!).

Este paciente, volvidos 30 dias, foi finalmente extubado por mim (acreditam no destino?).

Depois da extubação, telefonei à filha dele (sobrevivente do coronavírus), que definitivamente pediu um favor: para não lhe dizer que a mãe (a esposa do paciente) falecera há 2 semanas no nosso hospital, no quarto adjacente, vítima do coronavírus.

Há 2 dias, também extubei uma nossa enfermeira, vítima do Covid-19. Ela está bem e já está caminhando com o fisioterapeuta.

Tem sido uma aventura, não sei se a posso denominar de científica, tratar pacientes com Covid-19.  Entre experimentar com cloroquina, azitromicina, corticosteroides (uma semana sim, outra semana não), mudança no modo de usar o ventilador, usar ou não usar o BiPAP etc., finalmente parece que estamos a ter resultados positivos.

Todos os dias, temos discussões internas entre os intensivistas no nosso hospital e webinars e discussões via telefone com colegas do Columbia Presbyterian em NY, New Orleães, New Jersey, Harvard, Wuhan (China), Japan, the The Alfred hospital (Melbourne),etc.
Tudo para aprender e ensinar com experiências Individuais e colectivas.

É nestes momentos de crise que o melhor da humanidade vem acima: a solidariedade entre os profissionais de saúde; solidariedade e agradecimento aos profissionais de saúde; enfermeiras, médicos, arriscando a vida todos os dias …

A minha rotina, para não pôr a minha família em perigo: quando chego a casa, telefono ao meu filho ou à minha esposa, a partir da garagem, tiro o meu uniforme, ponho tudo num saco de plástico para lavar e vou imediatamente ao duche, sem falar com ninguém e sem tocar nada ou ninguém.

Todo o cuidado é pouco!

Alguns amigos têm telefonado e enviado fotografias horríveis da situação em Las Vegas!

Não, não estamos tão mal assim!

Fiquem descansados! A maioria das pessoas está bem e vamos derrotar este vírus!

Até breve.

Joaquim Silva Tavares – Djoca

Las Vegas 13.04.2020

Zona em frente ao hospital com entrada proibida a visitantes

Saiba mais sobre o  Professor Doutor Joaquim Silva Tavares

AINDA A PROPÓSITO DO COVID-19

AINDA A PROPÓSITO DO COVID-19

Levantei-me hoje às 5:30 da manhã e depois do exercício matinal, decidi passar por Las Vegas Strip (faixa da cidade onde estão 90% dos casinos), antes de ir ao trabalho no hospital: uma cidade fantasma, ninguém nas ruas, hotéis com semelhança a túmulos num cemitério isolado: vieram-me à memória os tempos de quando tinha 8/9 anos, na Guiné, e que ao domingo à tarde entre a 1 e as 3 tinha que levar comida ao meu pai nos armazéns da ultramarina perto da Ponte Cais; as ruas desertas de Bissau, entre a zona dos correios e a ponte cais, todos a dormir a sesta ou a ouvir relatos de futebol português – silêncio e vazio, que me metiam medo. É assim, nos dias de hoje, aqui: tudo fechado agora devido ao coronavírus…

Coronavírus, são uma família de vírus, encapsulados, fita única, classificados dentro dos Nidovirales. Podem infetar mamíferos e aves, causando doenças respiratórias, entéricas, e neurológicas nos humanos.

Existem 6 espécies de coronavírus que podem causar doenças em seres humanos: coronavírus 229E, OC43, NL63 e HKU1 são comuns em todo o mundo e só causam sintomas marginais.
As outras duas espécies (a SARS-Cov) e a MERS-Cov) causam infeções mais sérias e são transmitidas de animais para humanos.
Em anos não distantes, estas duas últimas espécies causaram pandemias com mortalidades entre  19% e 37% respectivamente.
Em Dezembro de 2019 em Wuhan, Hubei, China, um novo síndroma respiratório emergiu  com sintomas clínicos semelhantes à pneumonia viral e com transmissão entre pessoas.
Através de análises sequenciais, confirmou-se a emergência de um novo coronavírus: COVID-19.
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Fig. 1 – Vírus a atacar tecidos pulmonares.
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Fig. 2 TAC
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É assustador o que se está a passar aqui, não só em Las Vegas, mas em todos os territórios que compõem os Estados Unidos (excepto, por agora, Montana e Dakota – Norte e Sul).
Elmhurst hospital, em Queens, já la vão 25 anos desde que lá estive, tornou-se agora o epicentro da pandemia aqui nos Estados Unidos.
Há colegas médicos e enfermeiros a falecer por causa de contaminação (não há máscaras suficientes para todos e tem que se improvisar). É uma calamidade que não se pode descrever.
Por agora, temos que manter a calma, usar todos os meios de higiene e proteção disponíveis, usar os nossos anos de treino e experiência para ajudar a tratar os doentes.
É importante não esquecer de:
Lavar as mãos com sabão e água por 20 segundos (mais eficaz do que gel contendo álcool);
Manter distância uns dos outros.
Aos colegas médicos:
1 – Se um doente com suspeita de estar infetado com coronavírus tem sintomas respiratórios moderados, por favor não espere: entubação/intubação, sem demora, porque da experiência que estou a ter nestas duas semanas, se esperamos/hesitamos, é a morte certa do doente;
2 – Se depois da entubação/intubação, não houver melhorias, usar as medidas de “proteção dos pulmões”, incluindo:
Óptimo PEEP (pressão positiva expiratória final);
Low tidal volume (pequeno volume corrente);
  • Pronação
  • Vasodilatadores pulmonares
  • Paralíticos
  • Se tudo falha, então ECMO
Infelizmente, em África, só há dois Centros de ECMO (África do Sul) e transportando doentes com PEEP elevado e oxigénio a 100% não é prudente.
Para qualquer intervenção, incluindo pequenas cirurgias, use PAPR (Powered Air Purifying Respirator – Respirador purificador de ar motorizado), PPE (Personal Protective Equipment – Equipamento de Proteção Pessoal), para evitar contaminação/transmissão.
Medicamentos em investigação:
Remdesivir: não aprovado; em investigação;
Hidroxicloroquina, Cloroquina: dados ainda insuficientes;
Tocilizumab: em investigação para doentes em choque;
Lopinavir/Ritonavir: investigação negativa;
Corticosteróides: podem ser perigosos
Voltando à entubação/intubação e tendo em conta a sua importância, recomendamos, absolutamente, usar a glidoscopia, em vez da entubação/intubação por laringoscopia direta (risco de contaminação para o cirurgião).
Com a glidoscopia, em vez de olhar diretamente para a boca do paciente, estamos a olhar para uma câmara.
Vejamos a seguir uma imagem de um meu assistente médico júnior, entubando/intubando um doente.

Las Vegas, USA,  27.03.2020

Joaquim Tavares “Djoca” , MD, FACP, FCCP, DABSM, FAASM, EDIC, RPSGT

Medical Director, ECMO Program at Sunrise Hospital and Sunrise Children’s Hospital