GUINÉ-BISSAU: HISTÓRIAS CONFLUENTES

 

Março de 1991. São quatro horas da tarde. A picada de terra vermelha batida, que vai de Varela para São Domingos é percorrida pelo FIAT UNO a uma velocidade moderada, deixando atrás de si uma nuvem de poeira que afecta os poucos transeuntes e os dois passageiros que, enganosamente, levam os vidros abertos.

No virar de uma curva, uma mulher agita os braços na direcção da frágil viatura adivinhando-se o pedido de boleia. Paro o carro, desço, ajudo a mulher a instalar-se e a colocar o seu cesto com nadas no assento detrás. Suada, empoeirada, de rosto cansado de tanta caminhada, mas serena pelo inopinado descanso. Imaginamos que eventual conversa pouco lhe dirá. Só quando se apercebe que os brancos são portugueses, lhe vem a vontade de falar. Fala num crioulo muito vago: tem um filho de soldado português, de terra que nem sabe o nome, de Lisboa talvez, que significa Portugal, e que amou quando era moça nova, e que lhe levou o menino, que lá sempre está melhor, e que lhe envia algum dinheiro de quando em quando. Fala pausadamente enquanto os olhos se lhe marejam de lágrimas. Nunca saberemos se a sua comoção é de saudade pelo filho, se é do amor forte que viveu fugazmente. Se de ambas as coisas...

 

Novembro de 1997. Tabanca de Nhane, perto de Nhacra. Final de tarde. O meu amigo António, funcionário superior de uma Direcção-Geral, conduziu-nos à morança de sua mãe, mulher grande, a quem pretende visitar e apresentar-nos à minha mulher e a mim próprio.

Sentamo-nos nas tropeças, banquinhos, redondos, de madeira, conversamos sobre insignificâncias – como é possível arranjar conteúdos para conversa com princípio e fim?

 Da lavoura do arroz, das festas na tabanca, das misérias e sofrimento de quem trabalha sem resultado que não seja o da subsistência milenar, da cidade onde alguns parece terem quase tudo... Fumamos um cigarro de folhas largas, sentimos o cheiro da terra quente, húmida, e sentimos o calor humano…

O tempo foge devagarinho. O sol está a desaparecer por detrás das palmeiras, as galinhas deixaram de rapar a terra, os porcos acomodaram-se, as mulheres vão entrando nas casas levando filhos e netos. Preparamo-nos para sair. Cumprimentos. Mantenhas. Um "velho", não sei se o mais velho da tabanca, oferece delicadamente, com as suas finas mãos, de esguios dedos descarnados mas suaves, um pequeno ovo à minha companheira – gesto de hospitalidade, de grande carinho, que nos causa emoção, comoção.

Paulo Salgado

10 de Junho de 1998

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