Caros compatriotas, cá estamos nós, uma vez mais, tristonhos e de olhares atónitos neste filme visto e revisto, com espectadores vários além fronteiras na sua mundividência de interesses porém, curiosos acerca da performance dos ilustres actores na cena política da nossa pátria amada. Que bela maneira de entreter um povo esta hein?!

Antes de começar a dissecar a minha modesta apreciação acerca dos argumentistas, dos realizadores, dos actores, dos figurantes e de todo o enredo e a sua tenebrosa trama nas nossas vidas e no nosso futuro, permitam-me com este parêntese arrestada sabe-se lá como e a voar atordoado nas asas da paixão que vos fale de dois animais: o cão e o gato. Adoro cães, confesso! Essa adoração pelo fiel amigo, em momento algum vai abandonar a minha pena a ponto de me permitir uma abordagem que não seja tendenciosa nem perniciosa para com o Bichano gato.

O cão é por norma fiel ao seu dono; amigo cooperante, seja na caça ou para manter a coisa protegida, muita das vezes, é a extensão física do próprio dono porque chegam a dar alertas sobre doenças que enfermam seus corpos. É um animal extraordinário o Bobi está mais do que provado!

Quanto ao Bichano gato, sem querer ser preconceituoso mas a sê-lo a toda a largura do terreno, confesso que para além de o considerar um animal mimado e pouco dado a solidariedades, não reconheço nele atributos testados que o possam levar a rivalizar-se com o fiel amigo. Pronto, não curto gatos!

Revelada esta minha preferência pelo Bobi em detrimento do Bichano, puxa-me a pena para outros fragmentos, de dor, diga-se e, no juntar de letras para formar o caco, não ao acaso, eis que surge o Amílcar e com ele o seu PAIGC. O partido; esse mesmo, como é carinhosamente tratado nas terras férteis da Guiné.

Os povos que compõem a nossa nação sofredora sempre lutaram para a sua autodeterminação desde o primeiro dia que o colonialismo pisou aquele chão sagrado até ao Setembro vitorioso. Sabemo-lo pelos livros de história, pelo conta-conta que começou nos nossos antepassados mas, sabemo-lo acima de tudo pela personalidade característica das nossas gentes. O que nos falta noutras coisas sobra-nos em bravura e coragem, facto!

Durante toda a minha infância e uma parte da adolescência, mesmo sem ter noção do embrulho que esta a ser preparado, os feitos do partido entraram-me vida adentro sem pedir licença.

As músicas dos Super Mama Djombo a enaltecer o grande comandante que eu não cansava de ouvir e ainda não me canso, as festas da JAAC e os acampamentos que o meu saudoso amigo Henrique Campos fazia sempre questão de me levar, as aulas de formação militante, tudo momentos e vivências que de mim, pessoa, marcaram profundamente. Devo ao Amílcar Cabral e aos homens e mulheres valentes que com ele sonharam e lutaram a nacionalidade que hoje carrego orgulhosamente no bilhete de identidade de cidadão guineense. O meu obrigado sem fim a todos eles!

Ora, voltando ao Bobi e ao Bichano mas continuando no partido, parece-me evidente que os repetidos conflitos a que muitos insistem em catalogar como incidentais, tem o seu p de profundo alicerçado sobretudo numa falta de valores deveras preocupante. Para quem leu Cabral, facilmente se conclui que esta manta de retalhos que nos tem desgovernado nas últimas décadas é tudo menos o partido que ele fundou. O PAIGC como organização política neste momento é um autêntico saco de gatos e o verdadeiro problema que tem obstruído grandemente o progresso da nação guineense.

As associações étnicas e de amigos mal organizadas e pessimamente dirigidas a que chamam de partidos políticos na Guiné, nem me vou dar ao trabalho de debruçar sobre elas. Resta o PRS e, como o PRS é a extensão fragmentada do PAIGC penso que está tudo dito.

A estratégia que tem sido utilizada desde a abertura ao multipartidarismo de deixar o país órfão e sem uma alternativa válida para exercer o poder tem provado ser catastrófica e de um egoísmo doentio. Obrigam o guineense sistematicamente a escolher entre o mau e o péssimo não permitindo nunca o surgimento do bom. Ou nós ou o caos tem sido assim a nossa sina!

Reparem bem meus caros compatriotas: o país vem sendo adiado ano sim ano não por interesses inconfessos de indivíduos supostamente oriundos da mesma formação política. Falando apenas do período democrático, foi assim entre o João e o Malam, e depois entre o Malam e o Carlos, e depois entre o Carlos, o João e o Aristides, e depois entre o Carlos e o Serifo, e depois entre o Domingos e o Braima, e depois entre o Cipriano e o José, e depois ente o José, o Cipriano e o Domingos, e agora entre o José, o Domingos, o Cipriano, o Baciro, o Florentino e o Alberto. Caro compatriota, faça agora um exercício matemático simples e tente dividir essas personalidades em alas políticas divergentes num mesmo partido e facilmente perceberá a tragédia que temos em mãos.

Antes das últimas eleições, vaticinei com mais alguns companheiros para mal dos nossos pecados a inevitabilidade que estamos a viver neste momento. Não que sejamos bruxos ou gente com excepcionais capacidades na antecipação de cenários políticos; nada disso! O óbvio para nós é apenas de que tratavam-se das mesmas pessoas, da mesma escola e com os seus velhos problemas.

Numa organização onde todos se sentem no direito de mandar, onde não há respeito pelas hierarquias, onde os interesses pessoais e de grupo se sobrepõe aos interesses da nação, do meu ponto de vista, não pode em momento algum ser-lhes confiada o destino de milhares. A ideologia, os princípios e os valores fundacionais deixaram há muito de contar para a forma. Uma tristeza!

A legitimidade de exercer o poder de que goza o partido de momento não a questiono porque foi sufragado pelo povo, sim, por aquele povo desesperado de tanto sofrer e, obrigado sempre a escolher entre o mau e o péssimo. O que questiono é a moralidade ou a falta dela de se manter toda uma gente na escravidão completa, iletrada, inculta, de mãos estendidas e de cócoras à custa de meia dúzia de preguiçosos que nunca trabalharam de facto na vida.

A evidência está à vista para quem quer ver e, se se persistir no erro por achar que o problema da Guiné é outro, iremos continuar a ter no futuro, sob os mesmos moldes, uma dupla qualquer, sejam eles o M´baná e o Parbai ou o Aliu e o Finhane a obrigarem o guineense a tomar partido nos seus conflitos inúteis escolhendo entre um ou outro. Já vi tanta vez este miserável filme que vos digo, aqui do meu canto, estou apenas e só do lado da Guiné Bissau e do seu futuro.

O partido precisa sair de cena como aconteceu em Cabo Verde para se reorganizar e renovar-se, caso contrário, não adianta cão de raça com os atributos todos que ganhe ou que venha a ganhar o país no futuro próximo porque quando chegar a hora de escolher os pares para o acompanhar, dentro do saco, não encontrará nada senão os gatos do costume. Iremos continuar assim a ter gente impreparada em todos os domínios a ocuparem cargos de relevância na esfera do poder com contributos nefastos para o nosso desenvolvimento como tem acontecido até então.

A terceira via precisa-se! O guineense tem de perceber sem facciosismos e com clareza a urgência duma alternativa credível e compacta para resgatar o país do atoleiro em que nos meteram. Está na hora de gente com prestígio (porque as há!) e competência aparecerem com rosto e projecto a fim de dar corpo às ideias; e está na hora das associações étnicas e de amigos se fundirem todas numa plataforma comum para num verdadeiro movimento patriótico salvar o país. Nem PAIGC, nem PRS, a solução para o nosso resgate é a via supracitada e o mundo democrático precisa de entender exactamente isso e apoiar os patriotas nessa demanda.

Bem haja a todos e viva a Guiné Bissau!

Inácio Júnior  – 04.09.2015

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