DA EMBRIOLOGIA NACIONALISTA
À GUERRA DE LIBERTAÇÃO NA GUINÉ-BISSAU
Leopoldo Amado
Historiador guineense

Na Guiné “portuguesa”, a vaga de nacionalismo guineense data da década de “50”, influenciada sobretudo pela independência do Gana em 1957, evolução política essa que veio a culminar com a independência da Guiné Conakry em 1958 e independência da República da do Senegal em 1959, os quais figuram como o ponto de partida para um amplo movimento para a independência e unidade da África, de luta pela liberdade e bem estar dos povos oprimidos e colonizados. Aliás, a sessão do Ressemblement Démocratique Africain da Guiné Conakry (RDAG), fez intensa propaganda no Sul da Guiné em 1956, em especial na área de Cacine, e Bedanda a favor do chamado Ressemblement Democratique Africain, tendo-se mesmo formado o que apelidaram de “clubes de trabalho”, em quase todas as povoações vizinhas.
Antes disso, sobretudo após a II Guerra Mundial, registaram-se uma série de revoltas populares na Guiné “portuguesa” contra o aparelho colonial, nomeadamente, revoltas contra as mortandades e chacinas provocados por alguns administradores de Concelhos, dos quais se destaca a grande revolta ocorrida em Dezembro de 1950 contra às práticas do Administrador António Pereira que, inclusive , foi julgado posteriormente no tempo do Governador Vaz Monteiro, em virtude da dimensão que esses protestos assumiram na altura. Data dessa época a fundação do Partido Socialista Guineense por José Ferreira de José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior de que se referiram Rafael Barbosa[1] e Elisée Turpin[2], apesar de não serem praticamente conhecidas nenhumas acções desse Partido[3]. Na esteira dessas reivindicações, registou-se alguma agitação aquando das eleições presidenciais de 1959 em que foi inequívoca o apoio dos guineenses ao candidato Humberto Delgado, tendo sido registado muitos votos a favor do então candidato, não obstante as medidas tomadas pela PIDE para que não se verificasse nenhuma votação nesse sentido.
Se por um lado os ventos da mudança afectou inquestionavelmente a consciência nacionalista dos guineeses, por outro, é indubitável de que na Guiné-Bissau, a pedra de toque das reivindicações nacionalistas está intimamente ligada ao regresso de Amílcar Cabral a Bissau em 20.9.52, no navio “Ana Mafalda”, tinha ele 34 anos[4]. Na realidade, foi ele que veio a dar forma e substância a essas reivindicações, não apenas em virtude de toda a socialização política de que foi alvo, e que se realizou em Portugal[5] ainda quando era estudante de agronomia – seja junto a Casa dos Estudantes do Império, seja junto do Centro de Estudos Africanos – mas também em virtude de acontecimentos ulteriores, sobressaindo-se nestes a forma metódica e racional com que conduziu luta de libertação e independência.
Durante a sua permanência em Bissau, segundo uma nota da Polícia de Bissau[6] datada 3.5.55, enquanto desenvolvia os trabalhos de recenseamento agrícola da Guiné que lhe conferiu o conhecimento das gentes a quem nunca deixava de mobilizar, “o Eng.º Amílcar Cabral e a sua mulher comportaram-se de maneira a levantar suspeitas de actividades contra a nossa presença nos territórios de África com exaltação de prioridade de direitos dos nativos e, como método de difundir as suas ideias por meios legalizados. o Eng.º pretendeu e chegou a requerer juntamente com outros nativos, a fundação de uma agremiação desportiva e Recreativa de Bissau, não tendo o Governo autorizado”. Cabral parte de seguida para a sua primeira tentativa de organização política ainda na década de 50, havendo inclusivamente quem lhe tenha atribuído a paternidade de criação de uma organização política denominada MING (Movimento para a Independência da Guiné) em 1952[7], não obstante ser consensual o facto de o MING ter sido pouco relevante. Embora não se sabendo ao certo se foi ou não no quadro do MIGN, o certo é que Amílcar Cabral sugeriu em 1954 a formação de um Clube de Futebol apenas reservado aos naturais da Guiné, opinando que dentro do mesmo devia existir uma biblioteca para a elevação do nível cultural dos associados. Sabe-se também que nessa altura várias reuniões foram realizadas tendo também para a arrecadação de fundos sido efectuado um baile no bairro Chão de Papel. Porém, a não admissão neste Club de caboverdianos europeus acabou por gerar dissidências deixando os propósitos do seu mentor bem à vista: lançar as bases duma organização de nativos irmanando-os na mesma fé e nos mesmos destinos.
As reuniões, presididas por Cabral[8] para esse fim realizavam-se clandestinamente na casa de João da Silva Rosa (guarda livros de uma firma francesa estabelecida na Guiné – NOSOCO). Tomaram parte nessas reuniões o Isidoro Ramos, João Rosa, Víctor Robalo (agricultor em Bigimita), Martinho Ramos (empregado da Gouveia), José Maria Dayves, Elisée Turpin (empregado ao tempo da SCOA), Godofredo Vermão de Sousa (professor primário), Crates Nunes (carpinteiro). Para essas actividades, chegaram até de organizar um baile muito frequentado no Chão de papel, tendo Estevão da Silva Alfaiate), na altura nomeado tesoureiro. Cabral elaborou então os Estatutos o Cabral que depois foram aprovados, Secundando acto, a constituição de uma Comissão que os deveriam levar a aprovação do Governador, porquanto foram inicialmente entregues e esta entidade que não o submeteu a despacho com a brevidade que os interessados então pretendiam.
Esta Comissão foi então constituída por João Rosa, Víctor Robalo e João Vaz (alfaiate) que igualmente não conseguiu aprovação do Governo, justamente porque uma das clausulas dos Estatutos aludia ao facto de que nesta agremiação que não podiam tomar parte os europeus e caboverdianos, razão pela qual passou-se a dizer que Cabral estava feito com os grumetes. Que já então houve discordância por parte da maioria dos sócios fundadores na medida em que Amílcar Cabral não queria subscrever esta lista alegando que “era funcionário e colocava-o mal”, acabando Cabral por assinar. Antes de ser remetido ao Governador, a mesma circulou com objectivos de se angariar mais aderentes, vindo a ideia a dissipar-se, pois a polícia acabou por pôr termos as reuniões..
Em Bissau, segundo uma nota[9] fornecida por José dos Santos, 1º Subchefe da PSP da Província da Guiné (na altura ainda não havia a PIDE na Guiné), datado de 20.6.1956, eram considerados como anti-situacionistas os seguintes guineenses: João Vaz, ajudante de mecânico, de 33 anos, natural de S. Tomé; Carlos António da Silva Semedo Júnior, de 21 anos, a estudar em Lisboa; Pedro Mendes Pereira, enfermeiro de 1ª classe de 52 anos, Inácio Carvalho Alvarenga, 42 anos; Julião Júlio Correia, de 50 anos de idade; Martinho Gomes Ramos, de 35 anos; Víctor Fernandes, de 30 anos; Bernardo Máximo Vieira, de 33 anos, em virtude desses mesmos indivíduos terem assinado uma petição que pugnava pela criação de um clube denominado Clube desportivo e recreativo de Bissau, destinado ao desenvolvimento de actividades nativistas, superiormente orientadas pelo engenheiro Amílcar Cabral” (sic);
A mesma nota da Polícia, datada de 20.6.1956, revelava ainda que a ténue consciência nacionalista manifestava-se ainda de forma difusa e até contraditória. Os agrupamentos espontâneos ou as organizações políticas surgidas na altura tinham um carácter incipiente, reflectindo todos eles um certo idealismo. Era o caso da “Representação[10]” que, a pedido de César Mário Fernandes e José Francisco Gomes (assinada por várias pessoas), José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior redigiu em 1955, e que foi entregue ao Presidente da República de Portugal, Américo Tomás, aquando da sua visita deste a Província da Guiné, pretendendo desde altura os subscritores da mesma que essa “Representação “condensava todas as aspirações da Guiné”, quando na verdade, mal conseguia escamotear os anseios ocultos de da multidão burocrática urbana em integrar-se na sociedade colonial.
Cabral teve pois que lidar com este género de reivindicações, num ambiente em que muitos dos nacionalistas ainda não tinham propriamente interiorizado o propósito de que. O que estava verdadeiramente em causa, era criar as condições para erradicar completamente o sistema colonial. Aliás, disso é demonstrativo a nota da PIDE que, a certo passo, referia que “(...) nas eleições para membros do Conselho do Governo da Província, que haviam tido lugar pouco tempo antes, esses elementos fizeram parte do grupo de eleitores favoráveis aos candidatos da “oposição”, constituídos por Benjamim Correia, Armando António Pereira (de 54 anos, Advogado, natural de Bolama), João da Silva Rosa e Carlos de Medeiros Barbosa.; Que o Dr. Armando António Pereira, tido como o cabecilha do grupo, candidatou-se a membro do Conselho do Governo da Província, proposto pelo grupo de Benjamim Correia e nestas eleições redigiu um protesto apresentado por Benjamim Correia. A nota assinala ainda o facto de no grupo de Benjamim Correia haver um branco de nome Luís Mata-Mouros Resende Costa, de 36 anos de idade, natural de Bissau, que era encarregado de tratar de vários assuntos relativos ao grupo Benjamim Correia, disfarçados em um grupo associativo com uma comissão directiva, tendo justamente como Secretário o Luís Mata-Mouros Resende Costa. Outro grande colaborador de Benjamim Correia era o Gastão Seguy Júnior, oficial de diligências do Juízo de Direito da Comarca, natural de Bolama, 36 anos, instigando nomeadamente grande propaganda quando se trata de assuntos indígenas que sobem ao poder judicial, observando-se este facto com maior clareza aquando do julgamento do administrador aposentado António Pereira Cardoso, acusado de ter praticado carnificina junto as populações indígenas(...)[11]”.
Apesar das dificuldades próprias que implicavam uma actuação em ambiente urbano como Bissau, Cabral ia conseguindo aos poucos, aqui e ali, transmitir a pequenos núcleos de guineenses a mensagem segundo a qual era necessário optar-se decididamente pela luta pela libertação e independência, contra o a opressão e contra o sistema colonial. É nessas circunstâncias que 19 de Setembro de 1956 ele funda em Bissau o PAI num circulo restrito com alguns outros companheiros, nomeadamente, Aristides Pereira, Luís Cabral, Fernando Fortes, Elisée Turpin e Júlio de Almeida. Foi, por exemplo, o efeito multiplicador deste tipo de actuação que estive por detrás, por exemplo, da primeira greve-revolta do marinheiros que teve lugar em 1957 no caís de Pindjiguiti em Bissau, greve esse de resto bem sucedida, na medida em que os marinheiros viram satisfeitos grande parte das reivindicações que apresentavam, a ponto de a mesma vir a potenciar, pelo precedente aberto, mas igualmente por acção de elementos do MLG, a grande greve que ocorreu em 1959 no mesmo local a 3 de Agosto de 1959, na qual foram mortos cerca de 50 marinheiros, tendo ficando gravemente feridos cerca de uma centena[12].Há. várias versões sobre a natureza das ocorrências e sobre a amplitude da repressão das autoridades portuguesas no incidente de Pindjiguiti de 1959, embora exista unanimidade quanto ao essencial: os trabalhadores do porto de Bissau reuniram-se para reclamar melhores condições salariais e de trabalho; a reunião foi considerada ilegal; e, face ao volume dos reclamantes e ao calor das reclamações, foi decidido fazer intervir a policia, mais tarde reforçada com tropas.
Após a fundação do PAI, logo o mesmo se estrutura em células criadas em Bissau, Bolama e Bafatá em que é uma facção da pequena burguesia adere num primeiro momento, pois aos poucos estavam a tomar a consciência de que deviam deixar de procurar melhoria no quadro colonial para lutar, se ainda não pela independência, pelo menos pela autonomia. A estes juntaram-se outros guineenses pertencentes à pequena burguesia, sendo de reparar a participação de cabo-verdianos e de portugueses que na altura eram claramente anti-situacionistas. Este grupo, que não escondia igualmente as suas pretensões de ascensão na sociedade colonial, dava também, paradoxalmente, o seu inequívoco apoio ao emergente nacionalismo guineense. Os notáveis desse grupo que se destacaram, tendo por isso merecido um registo das suas actividades pela PIDE, foram Eugênio Rosado Peralta (industrial de pesca), Manuel Spencer «Tuboca» (comerciante) e Fernando Lima (comerciante). Estes membros da pequena burguesia foram acusados de fomentarem a rebeldia entre os guineenses considerados indígenas, chegando mesmo alguns deles mais tarde a aderir aos ideais de libertação, embora sem nela tomarem parte activa[13]. Assim, populariza-se rapidamente a ideia de uma luta comum dos povos da Guiné e Cabo Verde contra o colonialismo português, apostando inicialmente o PAI em pequenas reivindicações, como a já referida greve de 1957 e de 1959, ambas ocorridas no caís de Bissau ou ainda, por exemplo, a tentativa de eleger os seus membros no sindicato dos trabalhadores, apercebendo-se posteriormente da necessidade de rapidamente estender a luta a classes sociais menos favorecidas, nomeadamente os assalariados.
Porém, de 1956 aos princípios de 1958, não se registaram acções de vulto por parte do PAI, muito provavelmente devido a forte vigilância de que era alvo o seu fundador e restantes membros mais influentes. Tanto é assim que na segunda metade de 1958, quando outros nacionalistas se reagruparam em torno do MLG (Movimento de Libertação da Guiné – fundado em Agosto de 1959 por um grupo de nacionalistas, a saber, João Rosa, Epifânio Souto Amado[14], Rafael Barbosa[15], José Pereira de José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior de Bolama, Ladislau Justado (Badara Turé), Hipólito Fernandes, César Mário Fernandes, Paulo Fernandes[16], Ladislau Justado, José Francisco Gomes, Tomás Policarpo Cabral de Almada. Animados da ideia de uma iminente independência da Guiné, os elementos do MLG desenvolvem, por isso, algumas acções meramente conspirativas[17], apesar de termos de reconhecer que tanto os elementos do PAI como os do MLG partilhavam da mesmo espaço e praxe políticas, aliás, facto esse que não era alheio à circunstância, muito comum na altura, de elementos do PAI pertencerem simultaneamente ao MLG ou vice-versa.
Em Agosto de 1958, segundo Epifânio Souto Amado (Amadú Jaló) foi fundado o MLG (Movimento de Libertação da Guiné), numa reunião onde tomou parte José Francisco Gomes e Rafael Barbosa (Zain Lopes, Namgunbé, Coxo), Tomé Barbosa, César Mário Fernandes, Tomás Cabral de Almada, Alfredo Meneses d`Alva[18], na casa de Ladislau Justado Lopes em Varela. Que nessa reunião, José Francisco Gomes teria chamado a si as funções de Presidente e distribuído tarefas aos restantes, como se segue: César Mário Fernandes como Secretário; ele, Epifânio Souto Amado, como Tesoureiro e Rafael Barbosa como responsável de dar seguimento a correspondência. Que ficou ainda assente o pagamento de uma quota de vinte escudos por mês cuja cobrança ficou a cargo de Alfredo Meneses d`Alva[19]. Este grupo tinha ligações com o José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior em Bolama através de correspondências que o César Mário Fernandes levava e trazia e que o Rafael Barbosa fazia despachar a quem consideravam seu patriarca.
César Mário Fernandes e José Francisco Gomes (““Maneta””) convocam Rafael Barbosa para uma primeira reunião do MLG na casa do enfermeiro Ladislau Lopes Justado em Varela, em meados de Setembro. A reunião teve lugar e Rafael Barbosa encontrou ali, para além dos que o convidaram e do Ladislau, o Tomás Policarpo Cabral de Almada, Epifânio Souto Amado e um primo de José Francisco Gomes. José Francisco Gomes disse que o objectivo da reunião era para todos fazerem um esforço no sentido de elaboração de um relatório para enviar para o Alfredo da Silva, gente de Empada que se encontrava em Conakry, para Paulo Dias, enfermeiro, Laudelino Fernando Gomes, ex-fiscal do Sindicato de Bissau e Belarmino Gomes, de origem manjaco-papel e ex-empregado de balcão da firma Parente e Companhia que se encontravam todos em Conakry onde depois de serem recebidos e terem passado pelo Ministério da Informação daquele país, serviram de motivo para a propaganda que é lançada a partir daquele país através da emissora Conakry. Passado quinze dias, fizeram ainda mais duas reuniões com as mesmas pessoas, sendo estas duas últimas destinadas à elaboração de programas de actividades a levar a cabo na Guiné.
Em princípios de Dezembro de 1960, Fernando Fortes, Rafael Barbosa e Inácio Semedo (Cabral tinha sido o seu padrinho de casamento em Bambadinca), na casa deste último, escreveram uma carta ao Sékou Touré, no sentido deste auxiliar Cabral na sua luta em Conakry.. Nesta carta, os três mencionaram as desinteligências já então existentes e se lhe pedia para dar ordens na fronteira para não deixar entrar ninguém sem um documento de apresentação da organização de Amílcar Cabral na qualidade de dirigente no estrangeiro. Ainda fizeram uma outra carta com o mesmo assunto e era endereçada ao Presidente da Assembleia Nacional do mesmo país e outra ainda dirigida a Cabral e continha o relato das outras duas e a informação do desaparecimento da máquina de escrever que o Rafael Barbosa trouxera de Dakar[20]. As referidas cartas foram feitas com base em rascunhos ditados por Rafael Barbosa.
Aliás, o longo processo de gestação do MLG, propiciou esta amalgama de espaços políticos partilhados entre elementos do MLG e do PAI, tanto mais que Apesar de existirem, entre os diversos movimentos de libertação, e designadamente entre os que desempenharam um papel central nas lutas pela independência, diferenças significativas da mais variada natureza, é-lhes possível, em certos passos, coordenar acções, principalmente no âmbito das campanhas desenvolvidas junto das instâncias internacionais, pois muito cedo, os dois movimentos valorizaram desde os primórdios, a compreensão da importância da conquista das opiniões públicas. Saliente-se também o facto dessa partilha de espaços ter sido facilitado e mesmo catalisado pelo carácter incipiente das suas acções e actuações.
Atentemos, a titulo de exemplo, na forma como era dado o “toque” de mobilização e na forma como se faziam divulgar mensagens em surdina, num ambiente em que a vigilância era omnipresente e sobretudo hostil. Assim, pelos vários documentos que compulsamos, sobretudo os atinentes aos arquivos da PIDE/DGS, pudemos constatar que César Mário Fernandes apresentou o José Ferreira de José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior ao Rafael Barbosa, dizendo-o que este residia em Bolama, tendo o José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior dito que já sabia através do César Mário Fernandes e do “Maneta”da existência do “Movimento” em Bissau e que logo que regressasse de Lisboa, para onde estava em vésperas de seguir, estaria pronto a dar a sua colaboração. Soubemos que César Mário Fernandes e “Maneta”convocam Rafael Barbosa para uma primeira reunião do MLG na casa do enfermeiro Ladislau Lopes Justado em Varela, em meados de Setembro. A reunião teve lugar e Rafael Barbosa encontrou ali, para além dos que o convidaram e do Ladislau, o Tomás Policarpo Cabral de Almada, Epifânio Souto Amado e um primo de José Francisco Gomes. José Francisco Gomes disse que o objectivo da reunião era para todos fazerem um esforço no sentido de elaboração de um relatório para enviar para o Alfredo da Silva, de Empada, que se encontrava em Conakry e para Paulo Dias[21], enfermeiro, Laudelino Fernando Gomes, ex-fiscal do Sindicato de Bissau e Belarmino Gomes, de origem manjaco-papel e ex-empregado de balcão da firma Parente e Companhia que se encontravam todos em Conakry onde depois de serem recebidos e terem passado pelo Ministério da Informação daquele país, serviram de motivo para a propaganda que é lançada a partir daquele país através da emissora Conakry. Passado quinze dias, já no mês de Agosto de 1959, fizeram ainda mais duas reuniões com as mesmas pessoas, sendo estas duas últimas destinadas à elaboração de programas de actividades a levar a cabo na Guiné, aliás, razão pela qual se considera o mês de Agosto como sendo o da fundação do MLG.
Apesar do comummente o mês de Agosto de 1959 ser assinalado como o mês em que foi fundado o MLG, o certo é que as movimentações que conduziram a sua fundação remontam aos princípios de Janeiro do mesmo ano, quando alguns nacionalistas, sob influência de Sofia Pomba Guerra, na altura, proprietária de uma farmácia em Bissau onde trabalhava o Epifânio Souto Amado e Osvaldo Vieira. Efectivamente, Isidoro Ramos lembra-se[22] de em princípios de 1958 ter visto um grupo de indivíduos tais como Ladislau Justado (enfermeiro), Epifânio Souto Amado (empregado de farmácia), César Mário Fernandes (empregado do trafego do cais de Pindjiguiti, Rafael Barbosa (Coxo, “Patrício”, oleiro da construção civil), José de Barros (guarda fios dos CTT) em frente a Farmácia Lisboa e que “(...)uns dias mais tarde Ladislau Justado Lopes informou-o de que ali estavam para formarem o Movimento de Libertação da Guiné e Ilhas de Cabo Verde e que estavam a ver que pessoas que podiam ser admitidas, tendo o Ladislau lhe o convite para integrar que aceitou, não sem antes de este último o ter dito que ele era diferente do irmão, Martinho Ramos, a quem já por duas vezes a Rádio Conakry [23] aludia ser suspeito de ser informador das autoridades portuguesas(...)”.
Isidoro Ramos, no seu auto de interrogatório, é quem dá a medida exacta da dimensão da intersecção dos espaços políticos dos primeiros movimentos da Guiné. Lembra, com efeito Isidoro Ramos que “(...) nessa altura, o Ladislau Lopes Justado referiu-lhe de que o Fernando Fortes[24] fazia parte desse grupo, facto esse confirmado pelo próprio que o disse ainda de que Aristides (telegrafista dos CTT) também era do grupo. Que foi Aristides Pereira quem mobilizou o Fernando Ferreira Fernando Fortes quando ocupavam a mesma residência, e igualmente quem lhe disse que a sua principal missão seria a de trabalhar no sentido de obstar a que deixassem de existir desentendimentos entre os guineenses. Que esteve numa reunião com o Aristides Pereira e Fernando Fortes juntamente com Ladislau Lopes Justado na casa dos dois primeiros, onde Fernando Fortes insistiu na necessidade de intensificar as actividades, dizendo inclusive que ia escrever uma carta a Cabo Verde para o Abílio Duarte, a fim de que as actividades se alastrassem ao território de Cabo Verde. O Fernando Fortes ainda explicou-lhe que o MLGC[25] era ainda constituído por Elmer de Brito (ex-empregado da Gouveia), Luiz Cabral (guarda livros da Gouveia) e outros “elementos fixes” do Banco Nacional Ultramarino, entre os quais António da Luz Cabral ( Toi Cabral), irmão de Amílcar Cabral. O Fernando Fortes confirmou-lhe ainda que César Mário Fernandes, José Francisco, Tomás Cabral (telegrafista), Rafael Barbosa, José de Barros e Epifânio também faziam parte do movimento. Foi Isidoro Ramos que apresentou o João Rosa ao Fernando Fortes.. Ladislau Lopes Justado informou-lhe uma vez que José Francisco Gomes encarregou-se de intervir junto aos manjacos para angariar fundos para o Movimento. Que César Fernandes iria até Pecixe fazer propaganda e que Rafael Barbosa iria também fazer umas viagens com o mesmo fim. Em 1958 realizaram-se várias reuniões em que ficou decidido que cada um dos elementos deveria ir para o interior mobilizar pessoas, apesar de se colocar o problema de fundos. Nesse sentido, Fernando Fortes é que era a ligação com Aristides Pereira Cabral e Amílcar Cabral, através de cartas. Ficou decidido nessa altura que José Francisco Gomes iria angariar fundos através dos manjacos e que César Mário Fernandes iria a Pecixe fazer propaganda, que Rafael Barbosa deveria ir a Farim (Paulo Lomba e José de Barros dos CTT) mas não tinha dinheiro, pelo que teve ser o Fernando Fortes a dar-lhe um relógio de pulso e uma camisa para vender. Que Aristides Pereira contribuiu com 300 escudos para a vigem. Que nessa altura Rafael Barbosa visitou Domingos de Pina Araújo[26] (empregado comercial em Koldá) por sua sugestão. Que o José Francisco Gomes se deslocaria a Jole e a Bafatá para fazer propaganda. Que o Fernando Fortes disse-o que tinha escrito uma carta a Cabral a dar notícias dessas movimentações, devendo este chegar em Setembro para ultimarem os preparativos, pois ele iria estabelecer-se em Conakry a partir do qual toda a luta seria dirigida[27]. Fernando Fortes informou-lhe ainda que já escrevera ao Abílio Duarte a encarregar-lhe de iniciar a propaganda em Cabo Verde, tendo este respondido que as coisas nesse sentido iam muito bem[28].
Fernando Forte, por exemplo, relatando a forma como era interpelado por Rafael Barbosa para as deslocações ao interior da Guiné em acções de mobilização, disse: “(...)Rafael Barbosa mandou alguém dizer-lhe que se preparasse para uma viagem a Bissorã no fim de semana, dizendo que tinha de estar pronto quando um carro o for buscar a casa e que, se ali não se encontrasse, que assumiria as consequências. Que apareceu um indivíduo que o foi buscar a mando de Rafael Barbosa, estando já este no táxi. Que o Rafael Barbosa alertou-o depois que iam a Farim ter com o Paulo Lomba por causa das desinteligências e que regressariam no mesmo dia. Que o carro avariou-se uma série de vezes, pelo que chegaram a Farim de madrugada do 3.12.1960, numa hora em que jangada não dava passagem aos carros, atravessaram num bote e a pé foram conduzidos pelo Rafael Barbosa a casa de Paulo Lomba, com quem realizaram de imediato uma reunião, onde se tratou das questões das desinteligências do exterior e das susceptibilidades de as mesmas virem a influenciar o interior. Que nessa manhã foram tomar o pequeno almoço a ponta de Paulo Lomba onde o Rafael Barbosa e o Paulo Lomba fizeram uma alocução aos trabalhadores. Porém, só com a ida de Víctor Paula Teixeira (pessoa em quem o Rafael Barbosa começo a apostar) a Farim é que as acções nessa qualidade viriam a tomar forma significativa, pois Paulo Lomba, apesar de ser o responsável local, tinha mais ligações com o núcleo de Bissorã, localidades vizinhas e o exterior. No dia seguinte, por ordem do Rafael Barbosa, seguiram para Bissorã onde estava marcada uma concentração num ex-acampamento americano onde se encontravam cerca de três dezenas de pessoas, a maior parte mandingas e Oincas organizadas e enquadradas por Estevão Tavares e Nosoline, voltando Rafael Barbosa a referir-se as desinteligências. Que dias depois, apareceu-lhe o motorista do táxi a cobrar frete e ele disse-lhe que nada tinha a ver com o facto. Que quase no fim de ano, chegando ao trabalho, viu na sua secretária um envelope fechado e a si endereçado, contendo a quantia de em notas de 750 escudos, no qual se dizia: “para pagamento do frete do carro”. Que no dia seguinte o motorista foi procura-lo com o pretexto de que ele já tinha o dinheiro para o pagar e então pagou-lhe.
Cabral, porém, foi obrigado pelas autoridades a abandonar Bissau, na condição de apenas ali poder regressar uma vez por ano em férias, mas tanto o MLG como o PAI reivindicaram legitimamente para si a organização da greve do cais de Pindjiguiti, pois independentemente da maior ou menor influência que um e outro tiveram na congeminação da mesma, todos colheram lições que o seu trágico desfecho proporcionou às perspectivas subsequentes do desenvolvimento da luta anti-colonial pela independência da Guiné. Para além do Massacre de Pindjiguiti ser considerado como o apogeu dum período em que o período da agitação atinge o seu ponto máximo, as circunstâncias repressivas que caracterizaram o seu desfecho permitiu aos nacionalistas em geral, tanto do PAI como do MLG, ganharem a consciência de que era necessário optar por outras formas de luta para responder com violência à violência colonial, de resto, característica peculiar de todas as colonizações ao longo da História. Foi também o Massacre de Pindjiguiti que permitiu que pouco depois - em Janeiro de 1960 -, Amílcar Cabral, que acabara de criar com Agostinho dos Santos, e Mário de Andrade, em Tunes, no decurso da Conferencia dos Povos Pan-Africanos, a FRAIN, redigisse em Londres, com o apoio da Fabian Society, a brochura que apresentará o PAIGC nos países de língua inglesa: Facts About Portugal's African Colonies, documento esse traduzido posteriormente em português e que denotava a determinação do PAI e de Amílcar Cabral em prosseguir os esforços da mobilização dos camponeses com vista à luta armada.
É assim que, aquando da Ha Conferencia dos Povos Pan-Africanos (15) em Tunes, em Janeiro de 1960, Amílcar Cabral, Mário de Andrade e Marcelino cios Santos resolveram dissolver o MAC (Movimento Anti-Colonialista), criando em seu lugar a FRAIN (Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colónias Portuguesas). E, em 18 de Abril de 1961, delegações do MPLA, do PAIGC e da FRELIMO reuniram-se em Casablanca para criar a CGNCP (Conferencia das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas). A CONCP (Conferência das Organizações nacionalistas das Colónias Portuguesas), organização essa que mais tarde viria a ter um rápido sucesso nas Nações Unidas, onde o grupo afro-asiático, em eco junto com os países de Leste, detinha uma maioria na Assembleia Geral, Como era esperado, as Nações Unidas aprovaram uma série de resoluções condenando Portugal e instando-o a conceder independência as colónias.
Cabral desloca-se seguidamente à Suíça em Julho de 1960. Foi a partir da Suíça que seguiu para China, no âmbito da luta de libertação, passando sua esposa, Maria Vilhena a residir não n.º 5 da Rua Flatters, na casa de Mário de Andrade, que já se tinha deslocado a Conakry com a sua esposa, Sarah Ducados, ficando o Marcelino dos Santos com a incumbência de levantar o Correio de Cabral no Hotel da Paz. Aliás, como forma de se manterem em comunicação. Aliás, já por essas alturas, Cabral tinha já conseguido enviar 25 elementos para formação ideológica-militar a Tchescoslováquia e 30 para China e 5 para a Rússia, na perspectiva de rapidamente poder dar início à luta de libertação.
Amílcar Cabral lançou a palavra da ordem da mobilização desde os princípios de 1960, altura em que se instalou em Conakry e num caracterizado por um verdadeiro frenesim, desenvolve um trabalho ciclópico. Com a sua instalação em Conakry o movimento de libertação passa a ter dois núcleos de acção no exterior Conakry e Dakar – para onde fogem os guineenses. A acção passa-se clandestinamente no interior e abertamente no exterior., salientando-se as emissões dominicais na Rádio de Conakry que fazia apelos para que os guineenses e caboverdianos lutassem para a independência... Das emissões passam a propaganda escrita e é de Conakry e Dakar que saem os primeiros panfletos que foram espalhados tanto na Guiné como em Cabo Verde.
A 14 de Julho de 1960, datado de África, Cabral redige o panfleto “ o que quer o nosso Partido, o qual iria ser a antecâmara dos Estatutos e do Programa do PAI. Documento surpreendente (ver digitalizações).
Dos principais panfletos lançados na Guiné, que eram recepcionados por Rafael Barbosa e Ladislau Justado Lopes e que por sua vez recrutavam rapazes para os lançarem, assinalam-se os seguintes:
· Na madrugada de 28 de Maio de 1960, foram lançados panfletos, colados nas paredes e metidos debaixo das portas, em envelopes.
· Na madrugada de 26 de Julho de 1960, em Bissau foram distribuídos pelos CTT de Cantchungo, em carta, dois tipos de panfletos, um cicloesticado e outro impresso.
· Na madrugada de 26 de Julho de 1960, em Bissau foram distribuídos pelos CTT de Cantchungo, em carta, dois tipos de panfletos, um cicloesticado e outro impresso.
· Nos dia 17 e 18 de Agosto de 1960, em Bissau, foram distribuídos pelos CTT panfletos da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde – PAI intitulados “O que quer o nosso Partido (PAI).
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· Nos dia 17 e 18 de Agosto de 1960, em Bissau, foram distribuídos pelos CTT panfletos da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde – PAI intitulados “O que quer o nosso Partido (PAI).
· Em Setembro de 1960, foram colados nas portas dos estabelecimentos comerciais da localidade de Pitche e de Gabú panfletos assinados por Arnaldo Araújo.
· No dia 1 e 7 de Outubro de 1960, na caixa dos CTT de Bissau, foram introduzidos panfletos subordinados ao título: “Comunicado do Movimento de Libertação da Guiné, endereçados às diversas autoridades e Entidades
· No dia 24 de Outubro de 1960 foram colados nas montras dos estabelecimentos e postes de iluminação de Bissau, panfletos do Movimento de Libertação da Guiné
· Datado de 15 de Novembro de 1960, Cabral redige e envia o Memorandum ao Governo Português onde propõe uma série de medidas, “para a liquidação pacifica da dominação colonial[29]”; Em 13 de Outubro de 1961, redige uma “Nota Aberta ao Governo Português” em que reitera o teor do Memorandum de Novembro de 1960, em jeito de “’uktima tentativa “para a liquidação pacifica da dominação colonial[30]”;
· A 1 de Dezembro de 1960, no bairro de Varela, foram lançados panfletos da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde – PAI com diversos títulos tais como “Aos militares Guineenses e Caboverdianos (soldados, oficiais e sargentos) obrigados a servir no Exército português; “Aos Funcionários Públicos e empregados comerciais guineenses e caboverdianos e “Aos colonos portugueses da Guiné e Cabo Verde; “Ao povo da Guiné e Cabo Verde, datado de 1 de Novembro de 1960, etc.
· A 2 de Dezembro de 1960, tais panfletos foram lançados junto à casa dos oficiais portugueses, na rua atrás da sede do Benfica
· No dia 4 de Dezembro de 1960 os mesmos panfletos foram espalhados pelas ruas.
· No dia 1 e 7 de Outubro de 1960, na caixa dos CTT de Bissau, foram introduzidos panfletos subordinados ao título: “Comunicado do Movimento de Libertação da Guiné, endereçados às diversas autoridades e Entidades
· No dia 24 de Outubro de 1960 foram colados nas montras dos estabelecimentos e postes de iluminação de Bissau, panfletos do Movimento de Libertação da Guiné
· A 7 de Novembro de 1960 foram enviados pelos CTT de Bissau postais panfletos a estudantes.
· A 8 DE Dezembro de 1960 Epifânio pôs a sua disposição uma viatura na qual se deslocaram a ponta Víctor Robalo onde ele, o Fernando Fortes, Simão Mendes, na altura enfermeiro em Safim,
· A 22 de Dezembro de 1960 em Gabú foram metidos nos jornais da Metrópole e no Arauto que seguiam pelos correios;
· A 1 de Dezembro de 1960, no bairro de Varela, foram lançados panfletos da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde – PAI com diversos títulos tais como “Aos militares Guineenses e Caboverdianos (soldados, oficiais e sargentos) obrigados a servir no Exército português; “Aos Funcionários Públicos e empregados comerciais guineenses e caboverdianos e “Aos colonos portugueses da Guiné e Cabo Verde; “Ao povo da Guiné e Cabo Verde, datado de 1 de Novembro de 1960, etc.
· A 2 de Dezembro de 1960, tais panfletos foram lançados junto à casa dos oficiais portugueses, na rua atrás da sede do Benfica;
· No dia 4 de Dezembro de 1960 os mesmos panfletos foram espalhados pelas ruas.
· A 8 DE Dezembro de 1960 Epifânio pôs a sua disposição uma viatura na qual se deslocaram a ponta Víctor Robalo onde ele, o Fernando Fortes, Simão Mendes, na altura enfermeiro em Safim,
· Em Outubro de 1960, lançam igualmente a Mensagem “Aos Funcionários e empregados comerciais guineenses e caboverdianos”; Mensagem “aos Colonos Portugueses da Guiné e Cabo Verde”, distribuído em forma de panfletos.
Em Outubro de 1960, Cabral e nacionalistas guineenses que se puseram do lado dele fundaram a Frente de libertação da Guiné e Cabo Verde – PAI, Ass., por Amílcar Cabral (Abel Djassi), Seydy Camara (Fernando Fortes), Zain Lopes (Rafael Barbosa), Badará Turé (Ladislau Lopes Justado), Amadú Djaló (Epifâni Souto Amado) e Walter Barreto (Nicandro Barreto) (Ver digitalização). Os panfletos seguintes já aparecem assinados pelos mesmos nomes “aos”, aparecendo outros com os de Bubacar Nanqe, Nbana Tcham, João Cá, Alex Juve, Tchoda Nbali e Mamadú Cá. Em Novembro de 1960, Cabral redige uma mensagem ao povo da Guiné Em 1 de Novembro, numa tentativa de acalmar os ímpetos dos elementos que em Conakry e no Senegal actuavam contra o PAI, Amílcar Cabral, Armando Ramos, Adriano Araújo, Richard Turpin e Inácio Silva, emitem uma proclamação em que dão conta da fundação de uma frente de luta denominada MLGC Este MLGC, que teve existência efémera, é indicada nesta proclamação como sendo uma secção da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde, “organização de unidade criada no interior dos nossos países e dirigida pelo PAI.
No dia 8 de Fevereiro de 1960, o MLG enviou pelo correio a todas as repartições públicas o seu Comunicado de Movimento de Libertação, o qual é de resto semelhante a “Representação” que o José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior enviou, a pedido de César Mário Fernandes e José Francisco Gomes (assinada por várias pessoas) aquando da visita do Presidente da República de Portugal em 1955 onde se condensava todas as aspirações da Guiné No dia 12 de Março teve uma reunião Conakry do MLG, a qual assistiu José Francisco Gomes, reunião essa que acabou com uma recomendação no sentido da realização de uma mesa redonda com o PAI no sentido com o fim de obter a constituição de uma frente unida de luta (FUL), na medida em que o PAIGC chamou a si alguns elementos tal como o Balbino da Costa (Conakry) e Maurício Dias e Malam N’ Ddiaye (Senegal) que assistiu em Casablanca com o PAI a fim de assistir entre 18 a 20 de Abril a uma conferencia de nacionalistas das colónias portuguesas que agrupou uma dezena de formações políticas das colónias portuguesas, o qual, porém, não foi assistido por nenhum elemento do MLG. Apesar da recomendação da constituição da FUL. PAI foi apadrinhado pelo PDG enquanto que o MLG por Senegal,, que não ignora os projectos expansionistas de Sékou Touré sobre Casamança, região etnicamente e geograficamente semelhante à Guiné, visando neutralizar Sékou Touré.
Cabral participou em Abril de 1961 a uma conferência em Casablanca, Conferencia da CONCP, conferencia essa que se realizou no contexto geral das conferencias Pan-africanas e Afro-asiáticas que tinham por objectivo a coordenação de uma política de acção contra o colonialismo português, conferencia essa que reagrupou vários lideres dos movimentos de libertação, tais como Dr. Oundlik Gaitonde, Presidente do Congresso National de Goa, João Cabral, Secretário Geral da GOA LIAGUE, Miguel Trovoada, do Comité de Libertação de São Tomé e Príncipe, Viriato da Cruz, Secretário Geral do MPLA, Adriano Araújo, do PAIGC, Maria Vilhena Ataíde Cabral, (funcionária no Instituto de Pesquisa Agronómica de Rabat) e Amílcar Cabral.
A 16 de Março de 1961 efectuou-se uma reunião sob a iniciativa de Francisco Gomes (enviado especial dos nativista da Guiné Portuguesa junto das secções do exterior, junto dos Chefes do Governo, e das organizações políticas e sindicais dos Estados independentes da África e dos responsáveis e dos representantes dos países amigos nesses Estados). Ordem do dia era (1ª) Precisar os pontos de vista do MLGC, porta-voz dos nativistas da Guiné no interior e exterior e que tem por fim a luta contra o colonialismo, e neocolonialismo e o governo fantoche que o Governo Português impôs na Guiné; (2º) Acabar, duma vez para sempre, com as divergências existentes entre o MLG e o PAIGC; (3º) Questões diversas. O presidente de honra foi a todos apresentado, era o José Francisco Gomes, o Paulo Dias, Secretário e o Luiz da Silva e Momo Turé[31] (Secretário Geral duma secção do PDG que afirmou que os guineenses deviam unir todos num mesmo combate. Francisco Gomes aludiu a “corrupção e manobras” e disse que o povo da Guiné espera que o povo da Guiné Conakry o apoio total, tanto moral como material na sua luta contra o colonialismo português. (Falou da fundação do MLG em 1958, após a independência da Guiné dita francesa. Falou das pretensões do PAI, “que toda a gente conhece e deplora.”, acrescentando que a nossa luta da Guiné deve ser trabalho nosso e jamais deveremos aceitar que ela seja dirigida por outros”. Ironizou a proposta de Amílcar Cabral que enviou ao Governo português no qual propunha para a futura Assembleia Nacional um representante para 10.000 caboverdianos e um representante para 30.000 guineenses, segundo ele, proposta que demonstra o desprezo dos caboverdianos pelo povo da Guiné. A seguir, Angelo Araújo, disse que a presença de José Francisco Gomes iria ajudar a eliminar aquele que quer ser considerado (alusão ao Cabral) como enviado acreditado do movimento do interior para dirigir a secção do exterior. António Correia[32] exorta a todos a terem confiança em si próprios e cita o exemplo de Mafone Bangourá que apesar de iletrado chegou era alta personalidade na Guiné Conakry. António Lopes referiu a sua desconfiança desde que contactou com Cabral, por este não possuir documentos que justifiquem ser elemento do MLG do interior. Condenou Armando Ramos a quem considerou que cultiva e desenvolve a separação entre os emigrantes na zona da fronteira. Luiz da Silva toma novamente a palavra para apresentar três indivíduos: Maximiano Gomes, José Mendonça e acrescentou: Esta reunião dos autênticos filhos da nossa querida Guiné, tratando eles próprios os seus problemas, renova-me a confiança e afirmo-vos que não sou da opinião de Amílcar Cabral e nem de Adriano Araújo, que arvora hoje em defensor dos interesses da Guiné. Atacaram Cabral ainda o Adriano Correia e Víctor Mendes.
A 3 de Junho de 1960, uma nota da PIDE informava que “Amílcar Cabral que se considera oriundo da Guiné Portuguesa é um engenheiro agrónomo que declara residir em Lisboa e que tem sido muito activo em várias actividades anti-portugueses respeitantes a África. Segundo a mesma nota, ele é referenciado como ocupando o segundo lugar no Mouvement Anti-Colonialiste African e fundador de um Partido na Guiné Portuguesa – o PAI, considerado um ramo pró-comunista de Mali. Nesta nota, Amílcar Cabral é ainda responsabilizado como estando por detrás da greve e pelas violências ocorridas em Bissau em Agosto de 1959, estando actualmente em contacto com a FRAIN.
A 3 de Julho de 1960, o MPLA (Mário de Andrade) e o PAI (Amílcar Cabral) decidiram, na sequência das decisões da Conferencia dos Povos Africanos organizar uma Jornada de Solidariedade com os patriotas das colónias portuguesas. A 14 de Julho de 1960, datado de África, Cabral redige o panfleto “ o que quer o nosso Partido, o qual iria ser a antecâmara dos Estatutos e do Programa do PAI. Documento surpreendente (ver digitalizações).
Datado de 1.12.1960, Cabral redige e envia o Memorandum ao Governo Português datado de Conakry e igualmente remetido via CTT por várias entidades. A 1 de Dezembro de 1960, no bairro de Varela, foram lançados panfletos da Frente de Libertação da Guiné e Cabo Verde – PAI com diversos títulos tais como “Aos militares Guineenses e Caboverdianos (soldados, oficiais e sargentos) obrigados a servir no exército português; “Aos Funcionários Públicos e empregados comerciais guineenses e caboverdianos e “Aos colonos portugueses da Guiné e Cabo Verde; “Ao povo da Guiné e Cabo Verde, datado de 1 de Novembro de 1960, etc. A 2 de Dezembro de 1960, tais panfletos foram lançados junto à casa dos oficiais portugueses, na rua atrás da sede do Benfica. No dia 4 de Dezembro de 1960 os mesmos panfletos foram espalhados pelas ruas.
Porém, antes da fixação de Cabral em Conakry, como veremos adiante, muitos guineeses o tinham já feito na qualidade de foragidos da PIDE/DGS ou de emigrantes económicos. É o caso de Ernestina da Silva foi para Conakry em 1955 e lá permaneceu até 1959, indo e voltando durante esse período, antes de novamente fixar-se em Bissau em 1959 até 1962, período em que partiu novamente para Conakry. Segundo conversas tidas com Gonzaga Ferreira em 1962, cônsul de Portugal em Dakar, “(..)aderiu inicialmente ao PAI[33] de Amílcar Cabral mas, conhecendo-lhe a pouco os métodos, a discriminação que ia fazendo entre caboverdianos e guineenses destinando os segundos a tarefas de guerra, enquanto aos primeiros os mandava estudar, preparando-os assim para ocupar os lugares importantes quando conseguissem a independência(..)”. Por tudo isto, ainda segundo Ernestina da Silva, (...) resolveu com outros guineenses separar-se e constituir um movimento independente –o MLG(..)”. Que a sua repulsa por Cabral acentuou-se quando teve conhecimento dos projectos para o primeiro Governo de uma Guiné independente em que o mesmo seria o Presidente da República e o comerciante Mário Lima o Presidente do Conselho, sendo que outros lugares já estavam destinados a caboverdianos.
Sobretudo após o massacre de Pindjiguiti, vagas consideráveis de emigrantes guineenses que se juntaram ao núcleo inicial de guineenses juntaram-se nos países vizinhos, procurando rapidamente os mesmos obter apoios para a suas acções políticas através das autoridades locais. É sabido, por exemplo que Djalibacar Koiaté que na República da Guiné-Conakry era Director dos Caminhos de Ferro servia de intermediário entre MLG de Conakry e o Presidente Sékou Touré. Mesmo outros movimentos de Libertação que não da Guiné “portuguesa”, encontraram na nova República da Guiné o apoio logístico mínimo de que precisavam para desenvolver acções de luta pela independência, na medida em que nos seus respectivos países recrudesceram as acções de repressão por parte da PIDE-DGS, não oferecendo assim as condições de luta alternativas seguras senão as baseadas no exterior. Foi o caso do MPLA e do Movimento pela independência das colónias portuguesa.
A partir de 1959, ano da independência da vizinha Guiné-Conakry, muitos guineenses começam a emigrar-se para aquele novo país, seja por motivos económicos ou políticos ou ainda motivados pelos dois factores conjugados, na medida em que a maior parte dos mesmo estavam já de alguma forma politizados e enquadrados politicamente, sobretudo no MLG (movimento de libertação da Guiné, fundado no mesmo ano. Foram os casos, por exemplo, dos enfermeiros Fernando Laudelino Gomes[34], Paulo Dias[35] e João Fernandes[36] que naquele país encontravam-se desde 1959 a trabalhar no Hospital Ballay. Esteve também na Guiné-Conakry o enfermeiro Inácio Silva que era enfermeiro, vindo posteriormente a viver em Dakar, a partir de 1970.
Nessa época, os elementos presentes em Conakry formaram desde cedo uma delegação que devia avistar-se com o Presidente Sékou Touré, delegação essa composta por Paulo Dias, Fernando Laudelino Gomes, Armando Ramos e Djalibacar Koiaté, cidadão da Guiné Conakry que serviu de interprete. Nesse encontro, pediram apoios diversos ao Presidente Sékou Touré no sentido de organização de um movimento de resistência e formação de quadros. O Presidente prometeu-lhes ajuda e passou o caso a Sayfoulaye Diallo, na altura, a segunda figura do Estado da Guiné Conakry. Em função disso, passaram a mobilizar os compatriotas que estavam em Conakry mas que não estavam ainda mobilizados, tal como o Belarmino Gomes, apesar de ter saído para a Répblica da Guiné Conakry em fins de 1960 e trabalhar como locutor Rádio de Conakry, na qual apenas falava da política ingena desse país.
Estavam ainda em Conakry outros guineenses que vieram a integrar as lides políticas como o Paulo Gomes I, o Paulo Gomes II (Néné)[37], Marcos Souto Amado, Honório da Costa, Abel[38], Víctor Mendes e Belarmino, que era o chefe presumido. Armando Ramos também estava a mobilizar gente. Depois chegaram João Fernandes, Maximiano Gama, Inácio Silva e Adriano Correia, pelo que deidiram criar uma Direcção, após terem feito duas ou três reuniões em casa de Marcos Souto Amado. Na última Assembleia, criaram o Movimento de Libertação dos Territórios sob a dominação portuguesa (MLTDCP). Luís da Silva foi nomeado Secretário Geral. Era em 1959. O NLSTSDP participou no segundo conferencia afro-asiática que teve lugar em Conakry. Os delegados a essa conferencia foram Luís da Silva, João Fernandes e Honório da Costa. Nessa reunião, o MLTDCP contactou várias delegações no sentido de solicitar ajuda para a luta anti-colonial, quais sejam a da URSS, e sobretudo o Vietnam. Em termos de ajudas, só chegaram de receber da RDA 6 relógios e uma máquina fotográfica. A FDGB Juventude do Partido Comunista da Alemanha de Leste) convidou uma delegação da MLTDCP para visitar a Alemanha. Foi enviado só o Belarmino. Regressou um mês depois e partiu novamente para a Alemanha com uma bolsa. A Alemanha ofereceu-nos na altura 8 bolsas de estudo. Duas foram aproveitadas: João Fernandes Dias e Belarmino.
Nos finais de 1959, Mouvement des Territoires sous la domination portugaise r.. Luís da Silva[39] foi nomeado Secretário Geral. Era em 1959. O MLTDCP participou na 2ª segundo Conferencia Afro-asiática que teve lugar em Conakry, enquanto matinham ligações com os responsáveis do interior, nomeadamente alguma correspondência de Rafael Barbosa que os informava do desenrolar das acções clandestinas do MLG. Mantiveram ainda contactos com João Rosa, Epifânio Souto Amado (da farmácia), José Francisco Gomes e José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior (o velho José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior), nomes que lhes foram sugeridos por Rafael Barbosa. O MLTDCP contactou uma delegação sindical da RDA que foi a Conakry na ocasião do V Congresso do PDG em 1959, na sequência do qual Belarmino foi indicado para ir à RDA, donde voltou em Setembro de 1960 com seis relógios de pulso.(...)[40]”
Da secção da Guiné «portuguesa» do O MLTDCP faziam parte Paulo Dias, Adriano Araújo, Marcelo de Almeida, João Monteiro, Joseph Turpin, António Correia, Antoine Lourence (que chegou até a ser o Presidente da Juventude Mundial) e contava com a seguinte composição: Ernestina da Silva (presidente), Luís da Silva (Secretárío-geral), Marcelo de Almeida (vice-presidente), Belarmino Gomes (Vice-Presidente), Marcos Souto Amado (tesoureiro), Armando Ramos (secretário da organização), Carlos Correia (secretário de imprensa), Juan Fernandes(comissário das contas), Gabriel da Costa (secretário da propaganda), Vitorina Tavares (secretária do sector feminino) e Paulo Dias (responsável político).
A 31 de Agosto de 1959, Hugo Azancot de Menezes, em nome do MAC, escrevia uma carta ao Bereau político do PDG em que solicitava que o mesmo autorizasse os membros do MAC radicados na Europa a irem estabelecer-se em Conakry a fim de desenvolverem a luta contra o colonialismo português. Nesta carta, o MAC, por intermédio de Hugo de Menezes, solicitava também devida autorização para a instalação de um escritório do MAC em Conakry; Asilo político aos membros do MAC; passaporte para os membros do MAC; A permissão para a utilização da Rádio Conakry para as acções de informação e propaganda do MAC ; um empréstimo a ser pago após a libertação, Que seja o controle dos cidadãos das colónias portuguesas residentes na RG; medidas urgentes no sentido da responsabilização do Governo Português pelo massacre de africanos no Porto de Bissau ocorrido em 3 de Agosto de1959[41].
Enquanto circunstâncias de ordem burocrática impediam a ida a Conakry dos elementos ligados ao MAC e mais tarde FRAIN, propiciou-se todo um terreno favorável a rivalidades entre os nacionalistas de vários territórios, em especial os oriundos da Guiné “portuguesa” que até a data encontravam-se maioritariamente filiados no MLG. Em Fevereiro de 1960, as autoridades da RG nada tinham ainda decidido sobre os apoios concretos ao MAC[42], o que levou a FRAIN, ex-MAC, novamente por intermédio de Hugo de Menezes, a endereçar uma carta ao BP do PDG a pedir que os elementos mais influentes do MAC, a saber, Amílcar Cabral, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos e Mário Pinto de Andrade possam estabelecer-se em Conakry[43]. É nesse contexto que em Fevereiro de1959, o MLG do Senegal referia-se a uma possível nomeação do Dr. Pinto Bull ao cargo do Governador da Guiné, num Estado federal semelhante a dos estados brasileiros em que o poder executivo seria exercido por um governador e o poder legislativo por uma Assembleia Legislativa independente do Governo. As despesas com as forças armadas (excluindo a política e a guarda fiscal) seriam custeados pelo orçamento da República Portuguesa. O MLG abandonou mais tarde a ideia de uma federação e passou a exigir a independência total, publicando posteriormente várias cartas em que junto do Governo da Guiné e de Lisboa reclamava “a participação dos nativos na administração pública, enquanto vinham acusando os “cabralistas” de quererem dominar os guineenses.
Tal situação, aliás, tinha a ver com o facto de o MLG estar completamente desarticulado e não trabalhar sob direcção única, uma vez que, por um lado, a sua estrutura residual em Bissau foi obrigada a entrar em profunda clandestinidade e com o recrusdecimento das acções repressivas da PIDE quase desapareceu[44], estando, por outro, as secções de Conakry a actuarem sem a necessária coordenação. Ilustrativo disso é o facto do MLG de Bissau passar entretanto a MLGC num dado momento, para logo depois, após ao acicatamento das rivalidades, voltar a sua matriz inicial, ou seja ao MLG, isto é, sem a componente cabo-verdiana. É neste ambiente que A 14 de Fevereiro de 1959, Cabral entrou na Guiné alegando vir visitar a família, demorando-se apenas sete dias. Foi o suficiente para insuflar entre os seus amigos, entre os seus companheiros das reuniões para a formação do já citado Clube a ideia da luta pela emancipação da Guiné. Rafael Barbosa e Cabral encontraram-se nas zonas do Aeroporto, provavelmente onde viria a ser a Sede clandestina do PAIGC em Bissau depois que Rafael Barbosa entrou para a clandestinidade. Quando Cabral esteve em Bissau, deixou ao Rafael Barbosa com a incumbência de mandar para Conakry “200 alunos” para mandar para estudos universitários e para academias militares em Pequim. Congeminou igualmente com Rafael Barbosa[45] e Fernando Fortes a integração no PAI dos muitos nacionalistas que militavam no MLG.
No entanto, com o seu regresso de José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior, seguido do regresso de Cabral, as coisas passaram a ganhar incremento. Ladislau Justado Lopes José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior começa a entregar artigos ao Ladislau Justado Lopes, seu 2º primo, artigos esses que Rafael Barbosa enviava para Belarmino Gomes e que eram lidos na Rádio Conakry. César Mário Fernandes também pediu ao José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior novos temas, os quais enviava a Conakry. Entretanto, após uma semana da estada em Bissau de Cabral, Francisco Gomes convocou uma reunião que devia efectuar-se na casa de Bernardo Aquino Pereira que acabou por não aceder, tendo depois lugar na casa de Ladislau Lopes Justado. Na sequência dessa reunião, ventilou-se a ideia de uma nova reunião a ser presidida por Amílcar Cabral a qual se desejava que comparecesse José de José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior, chegando por isso, o Ladislau a ir a Bolama de propósito de o trazer ou pelo menos vir de lá com duas credenciais convenientemente elaborados que se destinavam, coimo aliás se destinaram a habilitar e fazer reconhecer Cabral junto a organização de Dakar e dos governos do Senegal e da República da Guiné como representante da organização da Guiné.
O José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior não conseguiu estar presente, dizendo que a sua vinda o comprometeria. Essa planeada reunião acabou por ter lugar, sem que Cabral a ela tivesse tomado lugar, comprometendo-se o Rafael Gomes Barbosa, César Mário Fernandes e o Epifânio Souto Amado a irem procurar Cabral e entregar-lhe as credenciais e trocar impressões com o mesmo. Nesse sentido, por indicação de César Mário Fernandes, Rafael Barbosa contactou com Luís Cabral no dia seguinte e daí resultou a indicação para estarem no campo de futebol a noite onde Cabral estaria. Depois de César Mário Fernandes ter mandado o irmão a dizer que tinha trabalho no cais e Epifânio ter mandado dizer que estaria de serviço, ele Rafael Barbosa resolveu ir sozinho. Que quando Cabral o viu perguntou-lhe pelos restantes companheiros e explicado a situação. Que seguidamente fez entrega das credenciais, explicando-o que uma delas devia-a utilizar junto de Vicente Có, ex-empregado da Casa Gouveia., Henry Labery, indivíduos estes que representavam a organização em Dakar, sendo outra destinada ao Ministério da Informação em Conakry com vista a sua apreciação e encaminhamento para Sékou Touré.
Efectivamente, os autos de interrogatório de Rafael Barbosa na PIDE/DGS confirmam a inabalável decisão de Cabral de instalar-se em Conakry, na medida em que, segundo o mesmo, “(...)no encontro que tive com o Engenheiro Amílcar Cabral em Setembro de 1959, ele referiu-me que no dia a seguir deixaria Bissau com destino a Dakar, donde seguiria para Conakry. Efectivamente, cerca de uma semana depois, Vicente Có, elemento do Movimento em Dakar, enviou-me uma carta confidencial destinada a organização na qual assinalava a chegada de Cabral, assim como a apresentação das credencias de que o mesmo era portador, bem como as actividades de Cabral junto de vários Ministérios do Governo do Senegal em Dakar. No entanto, seguiu-se um interregno de tempo em que não tive quaisquer notícias de Cabral enquanto ia recebendo correspondência de Conakry, de Laudelino Fernando Gomes e de Maximiano Soares da Gama, os quais davam notícias da independência de Conakry e das realizações e consequências desse acto. Que foi numa das ultimas cartas de Maximiano Soares da Gama que fui informado de que Cabral já se encontrava em Conakry. Foi também nesta última carta que Maximiano Soares da Gama me referia que tinha cortado relações com o Luís Alfredo da Silva e que não queria manter a unidade com Cabral(...)[46]”.
Amílcar referiu ao Rafael Barbosa que no dia a seguir deixaria Bissau com destino a Dakar, donde seguiria para Conakry. Que cerca de uma semana depois, Vicente Có. De Dakar, enviou ao Rafael Barbosa uma carta confidencial destinada a organização na qual assinalava a chegada de Cabral, da apresentação das credencias ao mesmo e das actividades de Cabral a vários Ministérios do Governo de Dakar. Rafael Barbosa disse que, entretanto, seguiu-se um interregno de tempo em que não teve quaisquer notícias de Cabral enquanto ia recebendo correspondência de Conakry, de Laudelino Fernando Gomes e de Maximiano Soares da Gama, os quais davam notícias da independência de Conakry e das realizações e consequências desse acto. Que foi numa das ultimas cartas de Maximiano que foi informado de que Cabral já se encontrava em Conakry. Foi também nesta última carta que Maximiano lhe referia que tinha cortado relações com o Luís Alfredo da Silva que não queria manter a unidade com Cabral. Que pouco depois recebeu através dos Correios uma carta escrita por Cabral em francês, para iludir as autoridades. Nessa carta, Cabral pedia apoio dos guineenses. Sugeriu que alguém fosse a fronteira encontrar-se com ele ou então que o encontro tivesse lugar em Dakar. Rafael Barbosa entregou esta carta ao Presidente José Francisco Gomes que a fez circular, chagando-se, inclusive a aventar-se que devia ser o José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior ir encontrar-se com Cabral, em virtude de ser a pessoa mais habilitada.
Nesse sentido, José Francisco Gomes deslocou-se a Bolama a propor-lhe a ida. Que, porém, por aquele ter manifestado indisponibilidade, decidiram mandar o Rafael Barbosa, pois José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior recusara. Foi nessa altura que Cabral despachou para Bissau os primeiros panfletos que foram trazidos para Bissau por um empregado do jornal “Afrique Nouvelle” que para tal aproveitou a vinda a Bissau a equipa de futebol de Dakar que jogou com a Associação Académica de Coimbra que se encontrava em Bissau, os que falavam de 3 de Agosto, encarnados e amarelos e cinzento claro. Esses panfletos foram lançados pelo Alfredo de Meneses e por Pedro Gomes (ajudante de mecânico em Ilhéu do Rei) e pelo carpinteiro Manuel Azevedo, empregado do construtor civil Adriano Martins Paredes, também patrão de Rafael Barbosa. Rafael Barbosa só seguiu para Dakar a 28.8. 1960, depois desses panfletos. Foi via Bissorã, Bigene, Samine. Levou nessa viagem cartas de José José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior a Cabral, cartas essas em que o José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior solicitava meios para posteriormente se deslocar a Dakar. Acabou o Rafael Barbosa por ir a Dakar. Porém, quando aí chegou ainda Amílcar Cabral não tinha chegado, ficando por isso a aguardar por uma semana a sua chegada, na casa de Luiz Cabral.
Rafael Barbosa começou a sua viagem a 10 de Setembro de 1960. Em Ziguinchor mora na casa de Lemo Djob. Contactou nessa cidade com Alfredo Luís da Silva que veio de avião de Conakry e que o informou de que Cabral estava na Europa, tendo-lhe manifestado também a sua orientação política. Aproveitou a ainda a sua estada para em Ziguinchor meter correspondência de felicitações pela independência para os Presidente do Gana, do ex-Congo Belga e do Mali, correspondência essa que lhe tinha sido confiado por José Francisco. De Ziguinchor, telegrafou ainda o Secretário do MLG(C) em Dakar, Balbino da Costa, e este não o respondeu. Telegrafou seguidamente ao Luiz Cabral e este respondeu-lhe, dando-lhe instruções no sentido de ir para Kaolack. A 13 ou 14 de Setembro, Luís Cabral foi busca-lo e levou-o para Dakar. Ficou em Dakar cerca de um mês na casa do Luiz Cabral, tentando esconder-se doutros elementos que já abertamente hostilizavam quer o Luiz Cabral, quer o Amílcar Cabral.
Porém, um dia, estando a passear em Dakar com Manuel Azevedo, dá-se o encontro casual dele com César Mário Fernandes e como este era hospede de Vicente Có, acabou por saber da sua presença em Dakar, pelo que no dia a seguir acabou por jantar com César Mário Fernandes, Manuel Azevedo e Vicente Có, na case deste último. Aí, anunciaram uma reunião na casa de Balbino da Costa, que acabou por se realizar com a participação de Vicente Có, Balbino da Costa, Rui Ramos, Luiz Cabral e César Mário Fernandes e o enfermeiro José da Costa, que já vivia em Dakar há muitos anos, Emídio da Silva, mecânico da Shell em Dakar e outras pessoas. Rafael Barbosa deu informações nessa reunião sobre a organização em Bissau. César Mário Fernandes tomou a palavra para censurar a ligação do Rafael Barbosa ao Luiz Cabral e Amílcar Cabral, ficando assim Rafael Barbosa inteirado de que, quer em Dakar como em Conakry, havia sérias divergências entre os elementos da organização.
Enquanto aguardava a chegada de Cabral[47], chegou a Dakar o Luís da Silva, pelo que depois do Rafael Barbosa informar do ambiente reinante, Cabral predispôs-se a encontrar com os nacionalistas residentes nessa cidade. Dois dias depois que Cabral chegou a Dakar, onde permaneceu oito dias, Amílcar Cabra, Aristides Pereira, Víctor Saúde Maria e Rafael Barbosa mantiveram então com Cabral sessões diárias de trabalho, no quadro da mobilização com vista à luta armada. Entretanto, ao saber da presença de Cabral em Dakar, Vicente Có apressou-se a convocar uma reunião para a qual Cabral logo preparou uma ordem de trabalhos. Porém, havia um grupo hostil a Cabral que disse que só iriam a reunião se tivessem conhecimento prévio dessa ordem dos trabalhos, pelo que acabaram por não comparecer.
A reunião com os nacionalistas guineense que viviam em Dakar acabou também por se realizar com as presenças de Balbino da Costa, Mário Andrade (cunhado de Luiz Cabral), César Mário Fernandes, José da Costa, Rui Ramos, Vicente Có, Úmaro Gano, Fernando Cabral e três outros rapazes de Cabo Verde. Nessa reunião, César Mário Fernandes acusou Cabral de não estar a inteirar a organização das actividades que ia desenvolvendo. Entretanto, Henry Labery chega e ainda conseguiu estabelecer contacto com Cabral. Rafael Barbosa aproveitou a semana com Cabral para deste receber directrizes das acções a desenvolver em Bissau, pelo que recebeu para isso uma máquina de escrever, uma caixa de papel de cópia, uma máquina fotográfica Kodak e fundos em dinheiro português, propaganda (postais impressos na Bélgica. Depois dias depois de Cabral sair para Conakry e embora tinha sido instruído por Luiz Cabral para não se juntar com aquela gente, Henry Labery convocou uma reunião em que Rafael Barbosa participou e em que igualmente estava presente o Benjamim Pinto Bull. Foi nessa reunião o Labery falou dos contactos e apoios que obtivera na Itália, Rússia e França.
De regresso a Bissau, Rafael Barbosa viajou com Manuel Azevedo e Simão Pecixe até Bignona, povoação senegalesa perto de Ziguinchor. Estes dois últimos foram para Conakry e Rafael Barbosa seguiu viagem com Martinho Có, indivíduo esse que viajou discretamente em sua companhia para, na eventualidade dele ser detido, regressar com essa informação a Dakar. Em Ziguinchor, Rafael Barbosa elaborou ainda uns comunicados as embaixadas em Conakry (com a ajuda de Caetano Cabral que fez a tradução) no sentido de não voltarem a dar bolsas de estudo e outros materiais ao Alfredo Luís da Silva e ao Balbino da Costa, em virtude de não utilizarem honestamente estes materiais em prol da luta anti-colonial.. Esta atitude de Rafael Barbosa, esboçada em Dakar, e tornada efectiva em Ziguinchor, produziu descontentamento na facção do MLG de Dakar e Conakry, tanto mais que as facilidades com que estes indivíduos cotavam junto as embaixadas estrangeiras cessaram, em virtude do teor da carta que Rafael Barbosa endereçou as embaixadas. De imediato, os elementos do MLG usaram da sua influência no Senegal junto as autoridades respectivas e conseguiram que tivesse sido detido pela Policia senegalesa em fins de Outubro de 1960 e convidado posteriormente a abandonar o Senegal, pois os seus companheiros de Dakar, por vingança, denunciaram-no por ter dito que o povo senegalês ascendeu à cidadania sem que para tal ainda se encontrasse preparado. Depois de Ziguinchor, Rafael Barbosa ainda visitou, Samine, Bigene, Farim e Bissorã, tendo somente chegado a Bissau a 15 de Novembro de 1960.
Após a sua chegada, relatou, numa reunião que se realizou em Bissorã, que Amílcar Cabral havia ficado satisfeito com os relatórios que apresentou em Dakar e de que veio munido de uma grande quantidade de material de propaganda. Rafael Barbosa regressou da sua viagem e deixou uma embalagem de panfletos que foram mais tarde distribuídos pelas ruas de Bissorã por António Bento, Biague Sumaré (ou Biaguê Saque) e Lassana Silá. Esses panfletos eram de cor amarela encimados com uma cruz que aludiam as mortes ocorridas aquando do incidente do cais de Pindjiguiti. E outros que aludiam, também amarelos que diziam: “assimilação não, autonomia não, independência total sim”. Isto aconteceu em Agosto, pouco tempo antes de Rafael Barbosa ir a Dakar para se encontrar com Cabral e outros.
De Bissorã, Rafael Barbosa expediu três cartas, uma para o Fernando Fortes Fernando Fortes, outra para o José de Barros e outra para o José Francisco Gomes, a informar em todas elas de que tinha regressado. Seguidamente, a partir de Bissorã, transferiu o dinheiro que recebera de Cabral para o tesoureiro Meneses por via de vale postal[48], o que este levantou e entregou ao Rafael Barbosa para custear as despesas da viagem dos rapazes que seguiram para Conakry. De Bissorã, Rafael Barbosa mandou o Bacar Cassamá, servente da escola local, para se inteirar em Bissau junto ao Alfredo Meneses d`Alva se a PIDE não estava alertada da sua ausência. Alfredo Meneses d`Alva acaba por aparecer em Bissorã com um camião, propriedade de Inácio Semedo, o qual este colocou propositadamente à disposição de Rafael Barbosa para em Bissorã acolher Rafael Barbosa e ainda transportar a enorme quantidade de material de propaganda com que Rafael Barbosa se fazia acompanhar.
Efectivamente, após os elementos do MLG em Bissau terem tido conhecimento de que Rafael Barbosa trabalhava igualmente para o PAI, sob o comando de Cabral, deu-se a cisão no movimento com a ala cabo-verdiana em 1961, em virtude dos elementos do MLG terem sido informados pelos seus aficcionados de Dakar de que Rafael Barbosa teria estado nessa cidade em cumprimento de uma missão de Amílcar Cabral. Numa reunião que se realizou em Gã-Biafada, na casa de Ladislau Justado Lopes, para além dos fundadores do MLG, estavam ainda presentes novos outros elementos mobilizados para o MLG, como sejam Aquino Pereira (empregado comercial da firma “Aly Suleimane”, José Luís Barbosa (Mamadú Cá)[49], Paulo Gomes Fernandes, Nicandro Barreto (Walter Barreto, Fernando Fortes (que já era concomitantemente do Bereau Político do PAI) e, obviamente, de Rafael Barbosa. José Francisco Gomes foi o elemento que nessa reunião mais se opôs a Rafael Barbosa e ao papel dos cabo-verdianos no MLG.
Fernando Fortes informou ainda de que tinha recebido uma carta de Cabral em que este recomendava que todos se mantivessem unidos e propôs que ao invés do Movimento de Libertação da Guiné e Ilhas de Cabo Verde, que fosse doravante adoptado a sigla PAI. Secundando o José Francisco Gomes, vários indivíduos opuseram-se a tal ideia, especialmente Ladislau Justado Lopes e Nicandro Barreto. Após certa acalmia, José Francisco Gomes levantou-se e perguntou ao Rafael Barbosa sobre os motivos da sua viagem ao Senegal, querendo ainda saber quem lhe ordenara a viagem, limitando-se este a dizer que realmente tinha viajado e que em resultado da viagem tinha trazido uma máquina de escrever Royal Royalité, uma máquina fotográfica e bastante correspondência que se limitara a entregar no Senegal a pessoa que o havia mandado, não dizendo quem era essa pessoa, mas acabando depois por revelar que era ao Fernando Fortes que, entretanto, desculpou-se por não ter levado para a reunião essas correspondências.
Porém, a cisão foi inevitável, na medida em que após acesas discussões Rafael Barbosa apresentou aos presentes uma lista encimado com o titulo de Movimento de Libertação da Guiné e Cabo Verde – PAI em que ele aparecia como Presidente, o Nicandro Barreto como encarregado da secção da Cultura e Propaganda, Alfredo de Meneses como Cobrador e José Francisco Gomes, também conhecido por Formoso da Silva, sem funções. Para demonstrar a sua força, Rafael Barbosa apresentou uma carta resposta ao Domingos de Pina Araújo que o acusara de ter vendido a Guiné aos cabo-verdianos por dez contos, de resto, carta essa subscrita com pseudónimos por todos os presentes.
De todos as autos de interrogatórios feitos na extinta PIDE/DGS, o de José Barbosa refere-se mais claramente a forma como se desenrolou esta contenda que levou a uma irreversível rotura entre os caboverdianos e guineense do MLG(C). Ali dizia que “(...) numa reunião do MLG em que Ladislau Justado Lopes interrogou Rafael Barbosa sobre sua deslocação ao Senegal, este alegou que quem o deveria interpelar era o José Francisco Gomes. Este tomou a palavra dizendo que ainda que censurava asperamente por este ter-se deslocado ao Senegal sem dar conhecimento ao MLG, mas que não falaria senão na presença de Fernando Fortes pois que, quando atacava, gostava de atacar de frente, mostrando-se assim que provavelmente o Fernando Fortes já sabia das actividades do Rafael Barbosa. José Francisco Gomes depois disse que Rafael Barbosa deixava de ser admitido no MLG até que apresentasse o relatório ou informações por escrito sobre o que houvera realizado[50]. José Francisco Gomes manifestou mais uma vez a sua discordância com a integração do MLG no PAI, este último, segundo o “Maneta”(José Francisco Gomes), engendrado em resultado da acção do Rafael Barbosa aquando da sua ida a Dakar. “Maneta”chegou mesmo a dizer que não queria saber do PAI para nada, notando que havia sido o MLG desde o princípio que realizou tudo. A seguir o Rafael Barbosa disse que trazia o relatório e o “Maneta”pediu-lhe o papel a partir do qual tirou umas notas, dizendo depois que precisava de levar o relatório para a sua casa e só depois é que sobre ele se pronunciaria., proposta essa, de resto, que Rafael Barbosa recusou. Nesta reunião, “Maneta” acusou ainda Rafael Barbosa de ter trazido um rádio transmissor para facilitar os contactos com Amílcar Cabral no trabalho com os cabo-verdianos. Que nas embalagens do Rafael Barbosa estava um documento com o titulo de “Pseudónimos” no qual o Paulo Gomes Fernandes tentou descobrir se os indivíduos que ali constavam eram do MLG ou do PAI, tendo o Rafael Barbosa apenas indicado dois nomes: o dele e o do Víctor Teixeira[51], argumentando o Rafael Barbosa que o Partido devia anteceder o Movimento mas que todos eram a mesma coisa, e que ele continuaria a trabalhar com Amílcar Cabral em virtude deste ser a pessoa mais indicada para desenvolver trabalhos no exterior. Por seu turno, o “Maneta”ripostou dizendo que ele havia de continuar a trabalhar para o MLG. Que foi depois desta reunião que José Francisco Gomes disse que ia a Bolama e seguidamente a Dakar com o objectivo de desmantelar tudo quanto o Rafael Barbosa lá fez, para que ficasse só o MLG. Que passados 4 dias depois dessa reunião, Rafael Barbosa disse-lhe que havia já dado uma descompostura ao “Maneta”e que estava disposto, caso ele fosse homem, a brigar com ele. Que pouco tempo antes do “Maneta”ter seguido viagem para Dakar e Conakry, aquando do seu regresso de Bolama, perguntou-o se estava tudo reconciliado, tendo este respondido de que já não haveria lugar para reconciliações, na medida em que chegaram de Dakar muitas cartas que diziam muito mal do Rafael Barbosa. E pediam aos naturais da Guiné filiados no MLG para tomarem medidas para desacreditar o Rafael Barbosa e o Abel Djassi Amílcar Cabral), que , segundo essas cartas, pretendia meter só caboverdianos (...)[52]”.
A rotura deu-se e as duas facões passaram a existir ao mesmo tempo, uma do Movimento de Libertação da Guiné e Ilhas de Cabo Verde - PAI, que, segundo a PIDE era mais forte, de que era o principal responsável no interior o Fernando Fortes, com elemento de ligação “o Coxo”, e o Movimento de Libertação da Guiné de que passou a ser o principal responsável José Ferreira de José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior. Assim, José Francisco Gomes (fervoroso defensor de que o José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior devia ser Presidente se a Guiné se tornasse independente), Tomás Policarpo Cabral de Almada, Alfredo Meneses d’ Alva, Hipólito Fernandes, José André de Barros, Norberto Indjai, José Luís Teodoro de Vasconcelos Alves Gomes Barbosa (também conhecido por Jói ou Djói), João da Silva Rosa[53], José Ferreira de José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior passaram a trabalhar juntos e deu-se então início ao trabalho de influencia de militantes entre esse grupo e o do Rafael Barbosa e Fernando Fortes. O Ladislau e o José Francisco Gomes subtraíram a máquina de escrever ao Rafael Barbosa, na medida em que o Rafael Barbosa tinha confiado estes documentos e a própria máquina a um moço manjaco de nome João dos Santos, por sinal parente de José Francisco Gomes, o qual aceitou passar aos adversários de Rafael Barbosa, para além máquina de escrever, todos os outros documentos para cuja guarda este o confiara[54]. Os documentos, segundo o novo grupo do MLG, continham informações que Rafael Barbosa expedia sem o conhecimento dos elementos do movimento em Bissau. Porém, antes da consumação da cisão, Rafael Barbosa enviava para Cabral a sua correspondência através de Domingos de Pina Araújo, acabando por depois arranjar outros emissários depois que este se declarou indisponível para trabalhar com o PAI.
Todavia, a principal acusação de que Rafael Barbosa era alvo – traição, por pretensamente se ter vendido aos cabo-verdianos –, não o demoveu no seu profundo e empenhado labor de mobilização com vista à luta armada. Aliás, a cisão ocorrida entre o PAI e o MLG e a agitação que a ela se seguiu, acabou por alertar a PIDE/DGS e propiciar uma enorme vaga de detenções realizado em Bissau pela PIDE/DGS em Abril de 1961, de resto, detenções essas que iam aumentando à medida que os detidos os novos e os anteriores detidos eram obrigados a prestar recorrentes declarações em autos de interrogatório, permitindo assim, quer a PIDE/DGS quer as autoridades em geral, a reconstituição das redes e conexões do dois movimentos de libertação, tanto do MLG como do PAI. Compreendendo justamente isso, rapidamente Rafael Barbosa refugia-se na clandestinidade, indo estabelecer-se nos arredores de Bissau, onde prosseguia com êxito considerável os trabalhos de mobilização, pelo menos até altura em que o seu esconderijo foi assaltado pela PIDE/DGS, sintomaticamente, como adiante veremos, nas instalações onde passou a funcionar a sede do clandestina do PAI em Bissau.
Convém, outrossim, procurarmos também compreender os antagonismos, ainda que breve, – reais ou fictícios – que provocaram a cisão na interacção entre o MLG e PAI, pois trata-se de procurar não somente compreender a sua génese e evolução, num processo cujas raízes remontam há séculos, mas sobretudo procurar descortinar os seus contornos com vista à compreensão, tanto quanto possível, das razões porque acabou por condicionar ou determinar, para o bem e para o mal, consoante os casos, mas no cômputo geral positivo, toda a evolução do processo ulterior da luta de libertação nacional que os guineenses e caboverdianos curiosa e paradoxalmente partilharam.
Desde logo, é forçoso a constatação de que nunca foi indiferente ao guineense o papel colaboracionista que o elemento caboverdiano desempenhou em todas as fases do processo colonial na Guiné: comércio costeiro, “pacificação”, “creoulização social, estabelecimento da administração com características repressivas, etc. Aliás, Como acertadamente observa Fausto Duarte "pode dizer-se que a Guiné deve verdadeiramente a sua origem portuguesa aos colonos do Arquipélago fronteiro à terra firme. Foram eles quem semeou pelos rios as manchas de colonização que haveriam de impedir mais tarde quaisquer pretensões dos estrangeiros sobre os seus territórios. O cabo-verdiano, desembarcando em terra para fazer comércio, iniciou a política de conquista, e ao fazer-se lançado, à semelhança do bandeirante do outro lado do mar, desobedecendo corajosamente ao alvará real que lhe impunha severas sanções, começou verdadeiramente a acção necessária para a posse efectiva da terra[55]".
Apesar do número de caboverdianos na Guiné não ser significativo na altura em que se dá a cisão entre o MLG e o PAI[56], o elemento cabo-verdiano era apreciado na altura, junto de certos sectores nos sectores coloniais portugueses, como conforme constata António de Cértima[57] como “(...) possuindo apreciáveis dotes intelectuais, activo e empreendedor, adaptando-se a vários misteres, o cabo-verdiano (...)” o cabo-verdiano ocupava, por isso mesmo privilegiadas funções na sociedade colonial, com destaque para a administração, onde a sua privilegiada situação social e económica, associadas às suas atribuições fiscais e coercivas que lhe eram normalmente acometidas, quase sempre suscitavam propriamente antipatias, veladas ou não, por parte dos guineenses. Não era pois de um dia para o outro que os caboverdianos, secularmente considerados “colaboradores” dos portugueses na sua acção colonial na Guiné conquistariam a confiança dos guineeses, não obstante ser possível a constatação de que, aqui e acolá, em muitas ocasiões, este latente antagonismo político era puramente fictício e que era abusivamente utilizado com arma de arremesso político.
Esse foi, indubitavelmente, dos problemas com que Cabral teve mais dificuldades de lidar desde génese do movimento libertador, compreendendo-se, por isso, as razões por que teria optado por transformar essa grande fraqueza numa grande força, mormente, por intermédio da teoria da unidade e luta e da unidade da Guiné e Cabo Verde, ambas por ele concebido. Não é por acaso que Amílcar Cabral, logo no acto da fundação do PAI, dizia “(...)Desde o acto da fundação do PAI, Amílcar Cabral demonstrou ter ideias claras sobre o carácter reivindicativo da luta que o PAIGC iria doravante empreender, a avaliar pelas suas palavras a 19 de Setembro de 1956, mas atmbém pel traço de originalidade que encerra a opção da criação de um Partido, contida na clara definição dos objectivos a atingir e que associa na mesma finalidade prática duas noções: independência e união. Dizia ele à propósito
que «(...) para além dessa origem comum que nos empurrava para a unidade, tínhamos o facto de continuarmos submetidos à dominação da mesma potência colonialista, tanto na Guiné como em Cabo Verde. Ou seríamos, pois, capazes de unir os nossos dois povos, ou os colonialistas acabariam por levar guineenses para se baterem contra os cabo-verdianos em Cabo Verde, e cabo-verdianos para se baterem contra os Guineenses, na Guiné. Se é real e inevitável, mesmo em relação às outras colónias portuguesas, se a luta não fosse desencadeada em todas elas, esta política de divisão e de utilização de uns contra outros seria para o Governo português muito mais viável entre a Guiné e Cabo Verde, apenas separadas por dois dias de viagem de barco. Portanto, concluiu dizendo que, com um programa integral de luta como este, não nos podíamos contentar com a criação de um movimento ou de uma frente nacional de libertação. Teríamos movimentos de libertação, teríamos talvez uma frente de libertação, mas devíamos ter também um Partido, com o seu programa mínimo e o seu programa máximo bem definidos. Cada militante tomaria, pois, o compromisso solene de dar tudo, incluindo a própria vida, para a realização integral do programa do Partido. É nesta base que vos quero propor que criemos o Partido Africano da Independência e união dos povos da Guiné Cabo Verde, cuja divisa será unidade e luta(...)[58]”
Aliás, a “sindrome do caboverdiano”, como já se referiu, para o bem o para o mal, acabou por marcar a evolução da luta anti-colonial na Guiné, como facto omnipresente. Ela explica ainda, em medida considerável, a compreensão deste facto por parte da PIDE/DGS, que o explorou até às últimas consequências, mas também afigura-se como a chave explicativa do enorme sucesso que foi a guerra de libertação nacional desenvolvida posteriormente na Guiné, como adiante veremos. Curiosamente, é também a “sindrome do caboverdiano” que explica o assassinato de Cabral e inúmeras outras depurações e dissidências que o antecederam ou o secundaram.
Segundo Paulo Gomes Fernandes[59], também detido pela PIDE/DGS na primeira vaga de prisões de nacionalistas guineenses, foram presos um total de 22 pessoas. Quando morreu o João Rosa, ficamos reduzidos a vinte e uma pessoas. O Tribunal Militar que nos julgou queria ilibar-nos a todos, razão pela qual a PIDE, para forjar provas, obrigou outros intervenientes do processo a testemunharem contra outros nacionalistas que acabaram por ser condenados. Dos 21 nacionalistas, apenas 6 foram condenados em dois anos de prisão. Foram eles Ladislau Lopes Justado, Inácio Júlio Semedo, Quintino Sebastião Nosoline, Epifânio Souto Amado e Alfredo Fernando Fortes e eu próprio. Como já tínhamos cumprido preventivamente 1 ano de prisão, fomos restituídos à liberdade um ano depois. Mas a verdade é que a PIDE não tinha encontrado nenhumas provas e eles agiram nesse sentido porque o José Ferreira de José Ferreira de Lacerda Júnior já havia avisado a todos na prisão de que tivéssemos cuidado com o que dizíamos, pois que se não tivessem provas nunca poderiam condenar quem quer que fosse. No meu caso e no de Ladislau Lopes Justado e mais um dos nossos co-arguidos que agora não me lembro, teria dito nos autos de interrogatório que eu e o Ladislau Lopes Justado tínhamos marcado um encontro com o pai de Ernesto Dabó, o Bacar Dabó, pelo que foi razão suficiente para que a PIDE o tivesse arrolado como testemunha de acusação. No julgamento que se realizou em Bissau a 27.8.61, a população inteira quedou-se em expectativa. Milhares e milhares de pessoas mostraram-se expectantes com o desfecho do julgamento e com a situação dos réus. A euforia do julgamento acabou por traduzir-se, mais uma vez, num acto de mobilização e politização dos guineenses, que há muito davam sinais de compreender e até apoiarem a luta pela independência. Lembro ainda de que a razão da condenação de Inácio Júlio Semedo, Epifânio Souto Amado e Fernando Fortes residia no facto de os mesmos se terem deslocado a ponta de Víctor Robalo em Bigimita, a fim de tentar seduzir este a filiar-se no Movimento. Teria sido, provavelmente, o próprio Fernando Fortes a dar essa informação num dos seus autos de interrogatório, pelo que perante a eminência do Tribunal Militar vir a ilibar grande parte dos arguidos, a PIDE arrolou Víctor Robalo como testemunha, acabando as suas declarações por pesar na condenação a 2 anos de prisão de Epifânio Souto Amado,