Vacinas para políticos

EXISTEM VACINAS CONTRA VÍRUS DA POLÍTICA?

Talvez existem e por isso vale a pena recordar que os conselhos são como as vacinas, dão-se para evitar aquilo que não se deseja, seja problemas ou doenças, e em muitos casos uma única dose não é suficiente e são precisas uma 2ª ou 3ª dose para se obter o efeito desejado. Em casos excepcionais podem ainda ser necessário reforços de tempos em tempos. Por esta razão pode ser útil repetir aqui alguns conselhos que nos parecem vigentes e pertinentes nestes momentos conturbados que a Guiné-Bissau ainda atravessa. Vale a pena insistirmos nos conselhos que se seguem, até que se vejam refletidos na forma de pensar e de agir de todos os cidadãos do nosso país e com maior rigor e ênfase nos políticos, militares e em todos aqueles que aspiram a ser líderes na nossa sociedade.

DIÁLOGO, CONSENSOS E RESPEITO ENTRE TODOS
“PALAVRAS DE ORDEM”

“… ensinaram-me uma vez, aprendi e nunca mais esqueci, que, quando se está numa situação de conflito, “a razão não é tudo” e que, se nestas circunstâncias de conflito alguém se aproximar de nós e nos diz assim: “tu tens razão, mas deves deixar”; esta pessoa é nossa amiga e devemos parar para ouvi-la melhor…

É minha, e acredito ser também vossa, a convicção de que resolver um problema quer da matemática ou da vida implica em primeiro lugar compreendê-lo para poder equacioná-lo, criar um esquema mental e definir etapas ou caminhos para encontrar a solução. E logo resolver acertadamente cada passo até chegar à solução certa.

Um entendimento igualmente válido e que com certeza partilhamos é o mesmo daquele que querendo concertar uma máquina estragada sabe que tem primeiro que ter o conhecimento dos mecanismos do seu funcionamento e disfuncionamento para saber como fazer e poder procurar os instrumentos adequados. E quando se trata de máquinas complexas, onde por exemplo estão integrados os sistemas mecânicos e electrónicos, é preciso ainda mais, ou seja, tem que compreender também a relação ou vínculo entre os dois sistemas. Nem sempre uma avaria se localiza no sítio que não funciona.

A sociedade é um sistema ainda mais complexo que as máquinas complexas porque as suas “peças” têm ideias, sentimentos e necessidades, e além disso, estão em mudanças constantes: de número, de perfil e de campo, etc…

Os conflitos têm melhor perspectiva de solução quando o bom senso leva as partes a se esforçarem minimamente em reconhecer a razão da adversária; mas eles podem agravar-se quando as emoções, a falta de discernimento ou má fé impedem qualquer reconhecimento das causas e motivações da outra parte…

Devemos ser os primeiros e os últimos responsáveis na busca da solução da crise que nós criamos e dela devemos tirar lições para um futuro melhor. Pedir ou aceitar ajuda, se for necessário, para a resolução pacífica da crise, com base numa mediação ou arbitragem idónea, imparcial e aceite pelas partes desavindas, é um acto de coragem, de boa fé e de sabedoria, mas fugir à nossa responsabilidade é má fé e é passarmos a nós mesmo certificado de incompetência….

Os que assumirem o poder não devem preocupar-se apenas em fazer bem só aquilo que satisfaça as suas ambições pessoais, nem devem procurar ou encontrar pessoas para cargos relevantes para o Estado só no círculo de seus familiares, amigos, etnia, religião, ideologia ou partido político, porque este comportamento é uma forma de “juntar a lenha à espera de quem traga o fogo”…

É insuportável e retrógrado ter uma elite social ou política com extraordinária capacidade de reconhecer e colocar defeitos nos adversários, mas com muito pouca capacidade de reconhecer virtudes em quem quer que seja. Devemos ter atenção de que demasiada inveja e competição pela negativa e muito pouca humildade torna o ambiente selvagem. Isto pode levar a que em vez de ter que escolher entre o bom e o melhor somos obrigados a escolher entre o mau e o pior. Deus há-de livrar-nos deste mal.

Não é tolerável na sociedade, e sobretudo no cenário político, que prevaleçam fraquezas como o recurso à mentiras, difamações ou intrigas, às desinformações, boatos ou complots, à má fé e ao oportunismo como armas para atingir o poder, porque o poder conseguido por estes meios nunca pode ter longevidade. Devemos tomar a consciência de que estas fraquezas só se podem combater com acção psico-social e pedagógica e a receita tem que ser endógena, quer dizer, não pode vir de fora, tem que partir de dentro da sociedade.

Há que reconhecer que temos um belo país, que é potencialmente rico, onde se consegue produtos para exportar mesmo sem grandes sacrifícios, um país com lindos coloridos sociais e riquezas culturais impressionantes, com um povo pacífico e acolhedor, onde neste momento só falta o bom comportamento da sua elite política, militar e social. E este bom comportamento depende de nós e só de nós, com a nossa consciência. O bom comportamento que nos fará recuperar o prestígio, respeito e admiração, não vai chegar por terra, ar ou mar, ou através dos bancos como chega a ajuda externa ou financiamentos de países ou de organismos internacionais, nem pode vir como as forças de interposição ou estabilização. O bom comportamento só poderá ser produto da consciência, da tolerância e do trabalho nacional…

Os governantes e elites políticas não devem excluir cidadãos com experiência, capacidade e idoneidade moral. Quer isto dizer que os quadros, os políticos e governantes mais velhos ou reformados devem merecer consideração, porque eles, tratados com respeito, podem contribuir para a paz, o sossego e o desenvolvimento do país, mesmo que seja só com ideias. É preciso recuperar o sentido de responsabilidade, de justiça e de humildade, e entender que é um dever de todos lutar pela preservação do testemunho histórico. As gerações não devem ser piores que aquelas que a precederam e não se pode deixar-se cair no ciclo de recomeço permanente, porque, se isso ocorrer, o tempo se encarregará de afundar a Nação…

Onde é recorrente crises ou conflitos sociais pode ser justificada a criação de um sistema de alerta e prevenção, assim como é feito para alerta e prevenção em zonas de sismos e vulcões. As crises sociais e as guerras são piores que as catástrofes naturais, porque, além da destruição, promovem a divisão e o ódio, e deixa sementes para conflitos futuros; enquanto o terramoto, o vulcão e as inundações destroem, mas promovem e reforçam a solidariedade e a união entre as pessoas. Quer-se sugerir com isto a constituição de um órgão nacional para estudo, vigilância e prevenção de conflitos políticos, militares e sociais. Este órgão deveria incluir, entre outros, especialistas das ciências políticas, ciências sociais, psicologia social, informação e outras figuras de reconhecido valor e influência na sociedade…”

(Sublinhados do texto/reflexão carta aberta “PELA GUINÉ-BISSAU” escrita em 2 de Maio de 2012 e publicada no site Contributo).

RECONCILIAÇÃO E REFORMAS, INCLUSÃO E TRANSPARÊNCIA
“PROGRAMA MÍNIMO”

“… não desisto de querer ver a paz e estabilidade na Guiné, entendimento e harmonia entre os guineenses, e de ver todos a trabalhar em prol do desenvolvimento do país…

Há muito tempo, ainda quando era um jovem estudante universitário, pude incorporar um conselho e um pensamento aos quais algumas vezes tento perceber o alcance. O conselho dizia que estando numa fase mais avançada, era bom, de vez em quando “rever os conhecimentos passados”, enquanto o pensamento dizia que, “o conhecimento não fazia falta a ninguém se não fosse para melhorar a vida”.

Imaginem, fui rever os primeiros ensinamentos de aritmética com que todos nos confrontamos na escola primária, logo na 1ª classe (ou 1º ano), e tentar encontrar algum significado ao facto de nos ensinarem primeiro a soma (adição) e só depois a subtração; de nos ensinarem a multiplicação e só mais tarde a divisão. Fiquei no final com a ideia de que de coisas simples podemos tirar lições interessantes, assim como de gente simples podemos colher ensinamentos importantes.

A soma ou adição significa juntar ou unir, e na união é que está a força. Tornou-se fácil compreender por onde temos que começar para resolver os problemas da nossa terra. Devemos todos entender esta lição de termos que começar sempre pela união, porque doutra forma será dramático. Subtrair é tirar, e não parece ser boa ideia tirar para que não reste nada ou tentar tirar onde não há. Antes de tirar é melhor juntarmos primeiro para que quando alguém decidir tirar porque se acha mais esperto ou mais merecedor, ou entenda que tenha mais força ou mais astúcia, ainda reste alguma coisa para os outros que não têm estes atributos.

Ai de nós se tentassem ensinar-nos a divisão antes de sabermos a multiplicação, nunca mais saíamos do mesmo sítio. Entenda-se que temos primeiro que multiplicar as nossas capacidades, multiplicar os nossos recursos, fazer crescer a economia do país, antes de entrarmos nas querelas da divisão. Não adianta mesmo estar a precipitar a divisão antes da multiplicação, isto é, estar a querer um pedaço maior quando o bolo ainda é pequeno e há muitos pretendentes, porque daí só pode vir a desgraça. Antes que tudo, e bem melhor, é unirmo-nos, juntar as nossas capacidades, energia e inteligência, a fim de multiplicar a nossa produção, para obtermos um bolo maior e suficiente para ser dividido por todos, de forma minimamente justa, para que, mesmo havendo aqueles que hão-de levar pedaços maiores, não vá haver muitos que fiquem a morrer de fome. Mais palavras para quê?…

É verdade que no mundo de hoje abunda e prolifera mais os que falam para dividir ou fazem para destruir do que aqueles que falam para unir ou fazem para construir, por isso, não basta só poder ver, é preciso saber ver, não basta apenas poder ouvir, é preciso saber ouvir.

Por tudo o que temos podido ver e ouvir, seja no terreno directamente, como à distância, levou-nos a concluir que o mal de que sofremos e todo este imbróglio que temos pela frente, deve-se ao seguinte: a máquina que é a nossa sociedade está avariada em vários sectores e sistemas. O sistema político e democrático está avariado, o sistema de defesa, segurança e ordem interna também está avariado, o sistema produtivo está engripado e não funciona em pleno, há sobreaquecimento em quase todos os compartimentos e a corrente não passa. Os restantes sistemas e sectores estão quase todos paralisados, mete água por todo o lado e o risco de curto-circuitos é elevado.

Devido à avaria do sistema político e democrático verifica-se um número excessivo de partidos políticos; muitos partidos não fazem congressos e não cumprem os estatutos e regulamentos internos, mas não deixam de ser partidos; regista-se com frequência fissuras e cisões de partidos que se dividem e são capazes de fazer congressos por alas; eleições gerais quase sempre contestadas por deficiente preparação, falta de transparência e de garantias de acto justo e não fraudulento. É ainda por esta avaria que em mais de vinte anos de democracia multipartidária, não se consegue realizar nenhumas eleições autárquicas, e ainda como se todas estas avarias fossem poucas, altas figuras do estado chegam a ser depostos ou assassinados em pleno exercício de funções.

Devido à avaria do sistema de defesa, segurança e ordem interna ocorrem com frequência purgas entre homens de armas, conflitos entre militares e paramilitares, intimidações e abusos de homens armados sobre indivíduos desarmados e indefesos; tornaram-se frequentes as tentativas de golpes, “intentonas ou inventonas”, golpes consumados e contra-golpes, com altos custos para a sociedade, em termos de perdas e prejuízos: perdas de vida humana, stress social, prejuízos à produtividade, à estabilidade da governação e à estabilidade dos recursos humanos tão necessários ao país, sobretudo pela emigração ou exílio forçado de quadros qualificados, políticos e militares de alta patente.

Porque o sistema produtivo também tem algumas avarias e não funciona em pleno, grande parte do nosso campo produz muito abaixo das suas potencialidades; muitos dos que detêm propriedade de terra falta-lhes meios, quando não, competência ou motivação, enquanto, muitos daqueles que têm competência e motivação, falta-lhes terras ou meios. Pela razão ainda desta avaria não se consegue avançar para a mecanização e diversificação da nossa agricultura, o país é incapaz de ter a sua própria frota pesqueira e se limita a distribuir licenças de pesca, não existindo capacidade satisfatória de vigilância e controle das águas territoriais e recursos do mar; não se consegue pôr em marcha a exploração do potencial turístico do país, e se tem adiado a exploração dos nossos recursos minerais; importamos mais do que exportamos e continuamos a viver mais de “ajuda externa” do que do “esforço interno”, passando mais tempo e tendo mais gente na inactividade, confusão e “kume mundo”, que no trabalho e produção.

Porque há sobreaquecimento de alguns compartimentos, e porque a corrente não passa, e ainda por meter água por todo o lado e haver riscos de curto-circuitos, tem-se registado graves tensões, desconfianças, cumplicidades e problemas não resolvidos ou mal resolvidos, sobretudo nos círculos do poder, com envolvimento de políticos e militares, havendo demasiados processos crimes e de contornos pouco claros, em “stand by” e ainda por resolver, não estando descartado tentativas de “queima de arquivos”, porque os verdadeiros criminosos, tal como os verdadeiros ladrões, são quase sempre também mentirosos e intriguistas. Quem não quer correr o risco de fazer um juízo errado, de condenar ou castigar um inocente, tem que ponderar as suas acções e conclusões em busca da verdade e prever o que fazer com ela.

Mas não merecemos estar todos reféns destas coisas, nem o desenvolvimento do nosso país precisa estar hipotecado. O que é mais importante, já agora, é compreendermos que qualquer que seja o arranjo que se venha a dar à estas avarias, importa e é vantajoso que se estabeleça para elas um mecanismo preventivo e seguro.

Todas estas avarias criam um terreno fértil e atractivo para a invasão e proliferação do crime organizado, todos os tráficos incluídos, de armas, de drogas e de seres humanos, etc., porque o mundo está cheio destas maldições que “não pedem licença aos povos”, que tal como o tempo, “não esperam por ninguém” e da mesma forma que a doença “avançam onde encontram fragilidades.” O nosso povo não merece nada disto e ninguém vai estar interessado em defender-nos mais que nós próprios. Que com a cumplicidade da nossa divisão, o nosso país vá continuar a ser vítima de criticas ou calúnias mais que de ajudas concretas para resolver estes problemas, é quase certo; que não faltarão países amigos dispostos a cooperar com o nosso nesta matéria, é também certo, mas devemos convencer-nos que temos que ser nós a lançar primeiro a mão para resolver estes problemas.

Se não estivessemos a falar numa linguagem figurada e comparativa e a nossa sociedade fosse realmente uma máquina com todas estas avarias, estaríamos neste momento, quiçá, a pensar em mandá-la para o lixo e arranjar outra, pelo trabalho que vai dar e os custos do seu arranjo. Mas estamos a falar de uma sociedade em que, como acontece em muitas outras, por má conduta de alguns, pagam todos.

Mas o que podemos fazer? O que vamos fazer? Ficar à espera que tudo se arranje sozinho? Talvez seja uma hipótese que alguns colocam por tomar consciência de tamanhas avarias que parecem insolúveis. Esperar que outros venham arranjá-la porque seremos incapazes? Não parece ser esta uma atitude digna. Arregaçarmos as mangas e tentar fazer alguma coisa construtiva, ainda que não dispensando ajuda de outros? Parece ser esta última, a atitude mais razoável e a que vai de encontro ao seguinte espírito: todos temos o direito de viver em paz e em boa ordem, e cabe-nos também o dever de honrar a memória da geração que nos precedeu e de proporcionar um futuro melhor à geração vindoura.

De outra maneira, podemos mudar de terra, emigrar temporariamente ou para sempre, mas o problema não fica resolvido, e não podendo mudar a população da nossa terra, vamos continuar sempre condenados a pertencê-la, a ser parte do problema e a pagar o que não devemos. Também não adianta arrependermos de ter nascido ou de ter ascendência naquela terra. Temos sim que reconhecer que temos necessidade e urgência de reparar a nossa sociedade e a nossa terra destas avarias todas, sem excluir ninguém à partida. Temos que conseguir trabalhar com todos e para todos. Temos que poder ser capazes de voltar a sorrir, com sinceridade, uns para os outros, o que não se consegue se continuarmos a insultar-nos mutuamente, se continuarmos a guardar ódio e rancor uns aos outros, a perseguir-nos uns aos outros ou a desconfiar-nos uns dos outros. Por isso, ao ponto que chegamos com estas avarias, e o estado de espírito daí resultante, e para conseguirmos dar a volta por cima e encarar uma nova vida, de sã convivência entre todos os guineenses e amigos da nossa Guiné, duas condições prévias se impõe: RECONCILIAÇÃO E REFORMAS.

Não cruzemos os braços, nem fiquemos só a contemplar os desenvolvimentos, porque a responsabilidade é de todos nós. E se tudo aparentar estar bloqueado, parecendo difícil encontrar por onde começar, não nos desesperemos, porque a certeza é que, Deus, onde colocou o mal, também pós o seu remédio, e o único problema é só conseguir encontrá-lo.

A contribuição de cada um de nós, mesmo que seja só com ideias construtivas e inclusivas, tem importância, como terão os meios financeiros, militares ou outros, para o estabelecimento da paz, estabilidade, segurança e desenvolvimento da nossa comunidade…”

(Sublinhados do texto/reflexão “Crises da Guiné Bissau: Diagnóstico e Tratamento” de 20.12.2012, publicada no site Contributo).

TODOS PARA O DESENVOLVIMENTO E DESENVOLVIMENTO PARA TODOS
“PROGRAMA MAIOR”

“… Não há desenvolvimento sustentável sem segurança, e tratando-se de um país a segurança implica, em primeiro lugar, uma estruturação lógica e capacitação do Estado com força e autoridade moral que o torne respeitável e respeitado pelos cidadãos. Neste aspeto a organização das forças militares e paramilitares e sua submissão ao poder político é de capital importância. Mas segurança para um país, em sentido lato, não se limita apenas ao papel reservado às forças militares e paramilitares, porque inclui também segurança alimentar, segurança sanitária e segurança social, ou seja, segurança nas diferentes fases ou situações de vida dos cidadãos.

A segurança vista portanto nesta perspetiva abrangente deixa claro que depende também da organização do Estado, do trabalho de toda a sociedade e dos recursos de informação, conhecimentos e saberes disponíveis. A necessidade da segurança tem de ser reclamada, a seu tempo e em todas as suas vertentes…

Não pode haver desenvolvimento sustentável e seguro onde não é de todos a obrigação de participar na defesa e segurança do território ou onde o direito de participação na produção de bens e na distribuição da riqueza nacional não é extensivo à todos os sectores ou estratificações da sociedade…

Como o desenvolvimento é um processo na qual interagem diversos sectores, torna-se importante a compreensão da forma como o desempenho de um sector pode influenciar o desempenho de outros sectores. Assim, um mau desempenho do sistema político pode condicionar instabilidade política e militar, desorganizar diversos sectores, travar os investimentos, deprimir a produção e fazer atrasar ou regredir a economia. Contrariamente, melhor organização e desempenho do sistema político e administrativo terá reflexos positivos no desempenho e equilíbrio de todos os demais sectores da sociedade e favorece a produção e a economia, além de ter uma contribuição positiva para a justiça, confiança e paz social. Melhor educação é contribuição fundamental para melhor saúde e melhor produção, maior consciência social e melhor intervenção política e social da população. Melhor saúde confere à população maior capacidade produtiva e melhor qualidade de vida. Melhor produção e melhor distribuição da riqueza nacional é garantia de melhores possibilidades para a educação, para a saúde e para a segurança social. Melhor organização e desempenho do sistema judiciário é imperativo para a preservação da ordem social, para o reforço da autoridade do Estado e para a promoção da estabilidade social e de tudo o que dele depende.

Pode haver desenvolvimento se o sistema político e administrativo tiver estruturação e funcionamento racionais, se for capaz de reunir consciência e mais-valias nacionais e se poder beneficiar de conhecimentos e saberes necessários para proporcionar à sociedade condições de paz, estabilidade, organização e justiça para que todos os demais sectores da sociedade possam cumprir o seu papel.

Pode haver desenvolvimento se a educação, a informação e a comunicação forem priorizadas, se tiverem qualidade e se o acesso a elas for garantida à toda a sociedade no seu conjunto, sendo elas instrumentos de aquisição, preservação e transmissão de conhecimentos e saberes, além de constituírem meios de formação da consciência nacional e motivação social.

Pode haver desenvolvimento se os sectores de saúde, da justiça e da defesa e segurança forem priorizados à altura das suas responsabilidades como sectores que estão na primeira linha da proteção da sociedade contra doenças, desordem social, violência, desestabilização e outras ameaças internas ou externas à integridade da nação.

Pode haver desenvolvimento se o sistema produtivo e os restantes sectores da economia poderem beneficiar de organização, recursos e gestão adequados, se tiverem acesso à conhecimentos, saberes e informação avançados, se incluírem o máximo possível da população ativa e se lograrem produção e distribuição de rendimentos, de forma a assegurar pelo menos as necessidades da população em relação à alimentação, alojamento, saúde e segurança social.

Cabe ao sistema político e administrativo a responsabilidade de liderar ou orientar a sociedade na direção certa do desenvolvimento, tarefa pela qual lhe é exigido qualidade e capacidade de contribuir de forma decisiva ao restabelecimento da confiança e motivação social, por via do exercício de identificação, análise e resolução de conflitos sociais e de outros fatores de bloqueio, de estagnação e de retrocesso do desenvolvimento.

Esta confiança e a motivação social que são indispensáveis para um desenvolvimento saudável, equilibrado e sustentável, exigem vigilância, prevenção e combate sem tréguas às pragas que podem minar o progresso de qualquer sociedade, tais como: impunidade e cultura de violência, tribalismo, sectarismo, nepotismo, amiguismo, clientelismo, corrupção, peculato, promiscuidade de negócios privados com negócios estatais, tráficos ilícitos, intriga política, fraude eleitoral, compra de consciência, desrespeito ou perseguição de adversários políticos, abuso de poder ou de autoridade, desobediência militar, desvalorização de competências, não reconhecimento do mérito, promoção do medo e da ignorância, fuga de capital, fuga ou emigração de cérebros, de quadros e de outros trabalhadores qualificados, etc…”

(Sublinhados do texto/reflexão ” canetas, enxadas e armas” de 20.01.2014 e publicado no site Contributo).

Espero sinceramente uma vez mais que a lembrança destas linhas também contribua para um reforço positivo de forma a influenciar uma mudança de comportamentos no sentido que nos favorece.

Bem haja a todos!

Carlos António Gomes
carlosagomes@iol.pt
20.02.2016

O MOMENTO EXIGE NEGOCIAÇÃO (UMA PROPOSTA DE SOLUÇÃO PARA A CRISE)

Não adiante continuar as disputas por via de exploração dos erros ou insuficiências  da parte adversárias porque nada disso serve os interesses do país neste momento crítico.

Dada a natureza desta crise que dividiu opiniões profundamente, adianta sim que se concentre num esforço de imaginação para o desanuviamento da situação vigente por via de cedências mútuas, dando tempo à uma concertação definitiva.

Se não forem encontradas outras soluções consensuais, acredito que todos poderíamos beneficiar com um compromisso de saída da crise baseado nos seguintes pontos:

1) Normalização da atividade parlamentar com readmissão dos 15 deputados expulsos (reconciliação e reunificação da bancada parlamentar do PAIGC).

2) Compromisso de aprovação do programa do Governo com votos favoráveis dos deputados do PRS e PAIGC reunificado, como já acontecera no passado, no Governo do Eng. Domingos Simões Pereira.

3) Renegociação de Pacto de Estabilidade / Pacto de Regime, com alcance abrangente.

4) Remodelação governamental para uma maior inclusão no Governo sob a chefia do Eng. Carlos Correia, integrando ambas sensibilidades do PAIGC , PRS,  demais partidos com assento parlamentar, e porque não uma ou outra figura de indiscutível valor que esteja de fora deste quadro, porque há muitos tanto dentro como fora de partidos políticos. (O Eng. Domingos Simões Pereira e o Dr. Baciro Djá, poderiam integrar o Governo do Eng. Carlos Correia como ministros, um a coordenar  por exemplo a área económica e o outro a coordenar a área social).

5) O Eng. Domingos Simões Pereira, como presidente do PAIGC ficava também com o trabalho de casa de reconciliação interna do PAIGC.  A reconciliação dos Drs. Baciro Djá e José Mário Vaz (Presidente da República) com os Engs. Domingos Simões Pereira e Cipriano Cassamá (Presidente da Assembleia Nacional Popular) ficaria a responsabilidade do Eng. Carlos Correia com ajuda dos históricos do PAIGC e algumas figuras respeitadas da sociedade.

Espero que o bom senso prevaleça e que Deus ilumine a todos.

Carlos António Gomes

A Guiné-Bissau perante a ausência da moralidade e da ética

Bom dia Casimiro!

É bom confiar nos homens e convidá-los a  comportar-se bem, como é seu costume, Casimiro. Mas sem certas condições nas pessoas, infelizmente, tudo será inútil.

O novo impasse na Guiné, que contém a política sempre no início, depende da falta de moralidade e de ética nos representantes do povo. E antes disso, na ausência de ideais espirituais.

O filósofo Pascal disse que os homens têm sido incapazes de dar força à justiça, então eles acabaram substituindo a justiça pela força. E outro filósofo Del Noce disse que o conceito de democracia, como conceito neutro, sem uma concepção de vida que a sustenta, é algo totalmente irracional.

Contra as decisões inconstitucionais do Presidente da República, houve apenas palavras nas forças políticas; os juízes estão silenciosos, deixando a situação pior, sem proclamar a justiça prontamente.

Os partidos que no início estavam chorando escândalo, agora passam para endossar a violação da Constituição.

Este é o resultado de uma moralidade que com o marxismo se tornou nos governantes estabelecidos na Guiné, que arruinou os princípios naturais do povo guineense.

Enquanto a moralidade tradicional ajudada pela ética cristã não for respeitada, a política da Guiné não será segura.

Matteo Candido – 05.09.2015

NÃO PODEMOS SUSPENDER A NOSSA HUMANIDADE

Muito se tem falado e escrito sobre a tragédia dos refugiados, não só sírios, mas de muitos outros que, desde a demasiado, a política europeia, na sua lógica geográfico-proteccionista, tem coberto com as vestes de imigrantes ilegais. Só o conceito de “ilegais”, já me murcha e suscita serias comichões, quando afinal estamos a falar de seres humanos. É me difícil compreender como é que vidas podem ser resumidos a papeladas estrategicamente viciadas para impedir a circulação de pessoas num mundo que dissimuladamente vamos apelidando de “aldeia global”.

Diariamente são milhares de pessoas que ariscam as suas vidas no mar a procura, quiçá, apenas e só, de uma nova esperança. Guerras, catástrofes naturais, perseguições políticas e étnico-raciais. São muitas as razões que pouco têm importado aos líderes europeus; que insensivelmente vão conseguindo suspender as suas humanidades.

Nos últimos tempos, como todos, tenho acompanhado a situação dos refugiados pelas partilhas e inquietações de muitos, mas sobretudo, dos amigos e mestres Fernando Casimiro e Rui Marques. E naturalmente não me tenho conseguido manter indiferente, como muitos, mesmo com esta crise política que assola a Guiné-Bissau e que, confesso, muito me tem consumido.

Mas na verdade não deviam ser [só] as últimas imagens a nos chocarem. Pelo menos a mim. Não são, propriamente, [só] as últimas imagens que me chocam. Porque afinal não consigo suspender a minha humanidade. Ela está e estará sempre presente nas minhas acções e atitudes. Choca-me mais a falta de atitude dos que podem fazer alguma coisa por essas vidas, mas não fazem. Choca-me mais a falta de mudança de atitudes que nenhuma imagem, nenhuma tragédia consegue provocar. Choca-me mais o trilho insano por que resvala uma humanidade cada vez menos humana. Porque mortos em travessias, marítimas e terrestres, temos visto imensos nos últimos anos. Demasiados diria. Crianças e menos crianças, mas vida. Todas vidas! Com uma Europa a achar que a melhor forma de resolver o problema é evitar que os estilhaços cheguem aos seus territórios geográficos. Por isso tem procurado manter vidas confinadas aos campos, nas periferias das guerras e catástrofes. Sustentando-as com géneros alimentícios. Mesmo sabendo que assim ninguém vive. Apenas e só se sobrevive. Dia após dia.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) avançou que só este ano já são mais de 2.500 vidas perdidas no Mediterrâneo. Mas para mim, podiam ser 1, 10, 100, 1000. São todas vidas. O número aqui é mais uma imagem para chocar. Mas como disse, mão deviam ser a imagens a nos chocarem. Mas sim a falta de atitudes que possibilitem o salvamentos dessas vidas que diariamente se perdem tentando encontrar esperanças.

Não adianta recuar a época do holocausto ou pós holocausto para alegar uma tradição europeia para o acolhimento. Desculpem-me: é treta! Mesmo nessa época sabemos hoje o que se passou, as barreiras que se criaram e vidas que podiam ser salvas, mas que se perderam em virtude dessas barreiras geográfico-proteccionistas. Sabemos hoje que podia-se ter feito muito mais. Por isso, mas do que voltar ao passado, é preciso pensar no agora! Na situação que se vive hoje, nos nossos dias, e ver o que pode e deve ser feito. Não só em relação aos refugiados sírios, mas em relação aos refugiados das mais várias proveniências. Com as suas cores, crenças religiosas, costumes e culturas. Porque afinal são pessoas, independentemente de tudo o que os pode caracterizar e/ou identificar. As suas humanidades não dependem daquilo que os caracteriza. É preciso que os que possam e devem façam algo já. Mas que não seja algo que apenas e só responde ao agora. Que se faça algo agora sim, mas procurando uma resposta abrangente, continuada e sustentada no tempo.

E a terceira via?

Caros compatriotas, cá estamos nós, uma vez mais, tristonhos e de olhares atónitos neste filme visto e revisto, com espectadores vários além fronteiras na sua mundividência de interesses porém, curiosos acerca da performance dos ilustres actores na cena política da nossa pátria amada. Que bela maneira de entreter um povo esta hein?!

Antes de começar a dissecar a minha modesta apreciação acerca dos argumentistas, dos realizadores, dos actores, dos figurantes e de todo o enredo e a sua tenebrosa trama nas nossas vidas e no nosso futuro, permitam-me com este parêntese arrestada sabe-se lá como e a voar atordoado nas asas da paixão que vos fale de dois animais: o cão e o gato. Adoro cães, confesso! Essa adoração pelo fiel amigo, em momento algum vai abandonar a minha pena a ponto de me permitir uma abordagem que não seja tendenciosa nem perniciosa para com o Bichano gato.

O cão é por norma fiel ao seu dono; amigo cooperante, seja na caça ou para manter a coisa protegida, muita das vezes, é a extensão física do próprio dono porque chegam a dar alertas sobre doenças que enfermam seus corpos. É um animal extraordinário o Bobi está mais do que provado!

Quanto ao Bichano gato, sem querer ser preconceituoso mas a sê-lo a toda a largura do terreno, confesso que para além de o considerar um animal mimado e pouco dado a solidariedades, não reconheço nele atributos testados que o possam levar a rivalizar-se com o fiel amigo. Pronto, não curto gatos!

Revelada esta minha preferência pelo Bobi em detrimento do Bichano, puxa-me a pena para outros fragmentos, de dor, diga-se e, no juntar de letras para formar o caco, não ao acaso, eis que surge o Amílcar e com ele o seu PAIGC. O partido; esse mesmo, como é carinhosamente tratado nas terras férteis da Guiné.

Os povos que compõem a nossa nação sofredora sempre lutaram para a sua autodeterminação desde o primeiro dia que o colonialismo pisou aquele chão sagrado até ao Setembro vitorioso. Sabemo-lo pelos livros de história, pelo conta-conta que começou nos nossos antepassados mas, sabemo-lo acima de tudo pela personalidade característica das nossas gentes. O que nos falta noutras coisas sobra-nos em bravura e coragem, facto!

Durante toda a minha infância e uma parte da adolescência, mesmo sem ter noção do embrulho que esta a ser preparado, os feitos do partido entraram-me vida adentro sem pedir licença.

As músicas dos Super Mama Djombo a enaltecer o grande comandante que eu não cansava de ouvir e ainda não me canso, as festas da JAAC e os acampamentos que o meu saudoso amigo Henrique Campos fazia sempre questão de me levar, as aulas de formação militante, tudo momentos e vivências que de mim, pessoa, marcaram profundamente. Devo ao Amílcar Cabral e aos homens e mulheres valentes que com ele sonharam e lutaram a nacionalidade que hoje carrego orgulhosamente no bilhete de identidade de cidadão guineense. O meu obrigado sem fim a todos eles!

Ora, voltando ao Bobi e ao Bichano mas continuando no partido, parece-me evidente que os repetidos conflitos a que muitos insistem em catalogar como incidentais, tem o seu p de profundo alicerçado sobretudo numa falta de valores deveras preocupante. Para quem leu Cabral, facilmente se conclui que esta manta de retalhos que nos tem desgovernado nas últimas décadas é tudo menos o partido que ele fundou. O PAIGC como organização política neste momento é um autêntico saco de gatos e o verdadeiro problema que tem obstruído grandemente o progresso da nação guineense.

As associações étnicas e de amigos mal organizadas e pessimamente dirigidas a que chamam de partidos políticos na Guiné, nem me vou dar ao trabalho de debruçar sobre elas. Resta o PRS e, como o PRS é a extensão fragmentada do PAIGC penso que está tudo dito.

A estratégia que tem sido utilizada desde a abertura ao multipartidarismo de deixar o país órfão e sem uma alternativa válida para exercer o poder tem provado ser catastrófica e de um egoísmo doentio. Obrigam o guineense sistematicamente a escolher entre o mau e o péssimo não permitindo nunca o surgimento do bom. Ou nós ou o caos tem sido assim a nossa sina!

Reparem bem meus caros compatriotas: o país vem sendo adiado ano sim ano não por interesses inconfessos de indivíduos supostamente oriundos da mesma formação política. Falando apenas do período democrático, foi assim entre o João e o Malam, e depois entre o Malam e o Carlos, e depois entre o Carlos, o João e o Aristides, e depois entre o Carlos e o Serifo, e depois entre o Domingos e o Braima, e depois entre o Cipriano e o José, e depois ente o José, o Cipriano e o Domingos, e agora entre o José, o Domingos, o Cipriano, o Baciro, o Florentino e o Alberto. Caro compatriota, faça agora um exercício matemático simples e tente dividir essas personalidades em alas políticas divergentes num mesmo partido e facilmente perceberá a tragédia que temos em mãos.

Antes das últimas eleições, vaticinei com mais alguns companheiros para mal dos nossos pecados a inevitabilidade que estamos a viver neste momento. Não que sejamos bruxos ou gente com excepcionais capacidades na antecipação de cenários políticos; nada disso! O óbvio para nós é apenas de que tratavam-se das mesmas pessoas, da mesma escola e com os seus velhos problemas.

Numa organização onde todos se sentem no direito de mandar, onde não há respeito pelas hierarquias, onde os interesses pessoais e de grupo se sobrepõe aos interesses da nação, do meu ponto de vista, não pode em momento algum ser-lhes confiada o destino de milhares. A ideologia, os princípios e os valores fundacionais deixaram há muito de contar para a forma. Uma tristeza!

A legitimidade de exercer o poder de que goza o partido de momento não a questiono porque foi sufragado pelo povo, sim, por aquele povo desesperado de tanto sofrer e, obrigado sempre a escolher entre o mau e o péssimo. O que questiono é a moralidade ou a falta dela de se manter toda uma gente na escravidão completa, iletrada, inculta, de mãos estendidas e de cócoras à custa de meia dúzia de preguiçosos que nunca trabalharam de facto na vida.

A evidência está à vista para quem quer ver e, se se persistir no erro por achar que o problema da Guiné é outro, iremos continuar a ter no futuro, sob os mesmos moldes, uma dupla qualquer, sejam eles o M´baná e o Parbai ou o Aliu e o Finhane a obrigarem o guineense a tomar partido nos seus conflitos inúteis escolhendo entre um ou outro. Já vi tanta vez este miserável filme que vos digo, aqui do meu canto, estou apenas e só do lado da Guiné Bissau e do seu futuro.

O partido precisa sair de cena como aconteceu em Cabo Verde para se reorganizar e renovar-se, caso contrário, não adianta cão de raça com os atributos todos que ganhe ou que venha a ganhar o país no futuro próximo porque quando chegar a hora de escolher os pares para o acompanhar, dentro do saco, não encontrará nada senão os gatos do costume. Iremos continuar assim a ter gente impreparada em todos os domínios a ocuparem cargos de relevância na esfera do poder com contributos nefastos para o nosso desenvolvimento como tem acontecido até então.

A terceira via precisa-se! O guineense tem de perceber sem facciosismos e com clareza a urgência duma alternativa credível e compacta para resgatar o país do atoleiro em que nos meteram. Está na hora de gente com prestígio (porque as há!) e competência aparecerem com rosto e projecto a fim de dar corpo às ideias; e está na hora das associações étnicas e de amigos se fundirem todas numa plataforma comum para num verdadeiro movimento patriótico salvar o país. Nem PAIGC, nem PRS, a solução para o nosso resgate é a via supracitada e o mundo democrático precisa de entender exactamente isso e apoiar os patriotas nessa demanda.

Bem haja a todos e viva a Guiné Bissau!

Inácio Júnior  – 04.09.2015

“A Guiné-Bissau, pela acção do Presidente, resvala por um trilho perigoso”

Entrevista

“A Guiné-Bissau, pela acção do Presidente, resvala por um trilho perigoso”

Ex-representante das Nações Unidas na Guiné-Bissau, José Ramos-Horta, responsabiliza o Presidente da República pela crise política e defende o primeiro-ministro demitido.

José Ramos-Horta foi o representante do UNIOGBIS, escritório integrado das Nações Unidas para a consolidação da paz na Guiné-Bissau entre início de 2013 e meados de 2014. Numa entrevista ao PÚBLICO por email, o Nobel da Paz e ex-presidente de Timor-Leste responsabiliza o Presidente da República da Guiné-Bissau José Mário Vaz pela crise. Defende o primeiro-ministro demitido Domingos Simões Pereira como tendo sido a escolha acertada das eleições de 2014. E alerta: “A comunidade internacional não pode encarar esta situação de ânimo leve e dar seu aval, isto é, reconhecimento de facto, a um Governo saído de uma arbitrariedade do Presidente da República”. Teme ainda uma escalada do conflito e apela aos militares para que se mantenham calmos.

A que se deve a actual crise política na Guiné-Bissau ?
A crise resulta de uma Constituição que foi cozinhada em Portugal, sem qualquer consideração à realidade social da Guiné-Bissau, mas encomendada e absorvida na Guiné-Bissau, logo a seguir ao derrube do Presidente Luis Cabral. A partir desse primeiro golpe nunca mais conheceu paz. Mas esse modelo Constitucional não desculpa tudo. A crise tem a sua gênese no Palácio Presidencial, num Presidente que, mau grado as prerrogativas ou limitações de seus poderes, devia acima de tudo ser o mediador, homem de diálogo, fazedor de consensos. Foi o que aconselhei o Sr. Presidente José Mario Vaz a ser: o homem do diálogo, o apaziguador. Obviamente ele não ouviu. Ou ouviu mas sucumbiu a tentação e resvalou pelo mesmo trilho muito perigoso por onde passou outros Presidentes de triste memória.

O que pensa que se pode fazer para resolver a situação?
Tem que haver preços a serem pagos: a comunidade internacional não pode encarar esta situação de ânimo leve e dar seu aval, isto é, reconhecimento de facto, a um Governo saído de uma arbitrariedade do Presidente da República. Entre Novembro de 2013 e este ano, Timor-Leste investiu no processo eleitoral e estabilização da Guiné-Bissau cerca de 20 milhões de dólares: 8 milhões foram para o processo eleitoral entre Novembro de 2013 a Maio de 2014; 10 milhões foram concedidos directamente ao Governo logo a seguir à tomada de posse do novo Governo para ajudar este no pagamento de dois meses de salários de funcionários do Estado; 2 milhões para ajudas as comunidades rurais pobres. Timor-Leste, que tem que apertar o cinto com a queda brusca do preço dos hidrocarbonetos, deve rapidamente repensar o seu papel na Guiné-Bissau. E não vejo como a União Europeia, União Africana, Banco Africano de Desenvolvimento, Banco Mundial, etc possam desembolsar e implementar os programas em curso ou prometidos. Creio que vão congelar o que já estava no “pipipeline” de ajudas, isto é, vão congelar tudo até que se ache um desfecho legal, legítimo, pacifico.

Os militares têm-se mantido neutros, há risco de isso se alterar?
Há, sim, esse risco mas espero bem e faço apelo aos militares para que se mantenham na caserna, não se deixem influenciar e manipular pelas elites políticas como aconteceu no passado. Os militares foram sempre enxovalhados e vistos como os causadores de todos os males da Guiné-Bissau. Mas logo no primeiro mês da minha estada na Guiné-Bissau em Fevereiro de 2013, eu disse aos presidentes da Nigéria, Senegal Costa do Marfim com os quais mantive excelentes relações: o maior problema na Guiné-Bissau não são os militares, são os políticos. E todos eles concordaram. E mantenho esta convicção.

Corre-se o risco de uma escalada de conflito?
Há certamente este risco. Mas o povo daquele país é muito pacifico e raramente se envolve em violência fratricida. A escalada de conflito pode ser evitada desde que quem tenha influência sobre a chefia militar continue a apelar para que ela se mantenha neutra. Mensagens bem claras devem ser transmitidas aos líderes políticos avisando-os de sanções individualizadas contra todo e qualquer político envolvido em actos inconstitucionais e instigação à violência. Deve ser congelada toda a cooperação com as autoridades; toda a ajuda deve ser canalizada através das agências da ONU como a UNICEF, PAM, OMS, etc e ONG’s internacionais e nacionais para que não haja agravamento da situação social. O povo, um povo muito bom, sofrido, traído tantas vezes, não deve ser penalizado.

Ainda acredita que a Guiné-Bissau é um país viável?
O Eng. Domingos Simões Pereira foi a escolha acertada do PAIGC e do eleitorado nas eleições livres de 2014. Com ele a Guiné-Bissau entrou no bom caminho e começou um período de melhorias visíveis e sentidas por todos. Em pouco tempo! O ambiente era mesmo de optimismo. O Sr. Presidente José Mario Vaz quis e deseja ter outro protagonismo que não é o de um Chefe de Estado apaziguador, homem de diálogo e consensos. A Guiné-Bissau, pela acção do Presidente José Mario Vaz, resvala agora por um trilho muito incerto, perigoso.

Fonte: http://www.publico.pt/mundo/noticia/a-guinebissau-pela-accao-do-presidente-resvala-por-um-trilho-perigoso-1705584

Há males que vêm para o bem?

HÁ MALES QUE VÊM PARA O BEM?

As ideias não se comem nem enchem os bolsos, é verdade, mas elas podem abrir caminho para encontrar coisas que se comem ou que enchem mesmo os bolsos, por isso quem as tiver deve pô-las em cima da mesa e devem ser valorizadas.

A solução dos problemas da Guiné-Bissau deve ser encontrada na sociedade em geral e não apenas no seio da classe política ou castrense, até porque tanto uma como outra classe têm sido também parte dos problemas em diferentes momentos.

É preciso que as nossas preocupações sejam dirigidas à busca de soluções globais e não apenas soluções pontuais ou circunstanciais, para evitar que depois de cada nova crise se tirem conclusões diferentes. Ora vejamos, as causas ou causadores das nossas crises já passaram por ser atribuídas à Nino Vieira e PAIGC, depois à Koumba Ialá e PRS, posteriormente aos militares. Agora a tendência é culpar a Constituição e relações interpessoais, que podem ter algumas responsabilidades na crise actual, mas de certeza não toda.

Podemos reparar que mudam-se as causas e causadores mas os problemas lá continuam entre nós e dentro de nós, as crises não nos largam e surgem sempre quando menos se espera. Esperamos que nunca venham a ser responsabilizadas pelas nossas crises a composição e diversidade étnica ou religiosa do nosso país porque essa bota ninguém vai poder descalçá-la.

As causas reais das crises continuam lá encobertas por mais voltas de circunstâncias que dermos. O que é preciso é pararmos para pensar todos, identificá-las e resolvê-las, e não será necessário parar o país. Só tem que haver mais respeito pelas ideias e evitarmos adormecer em períodos de acalmia. Já temos chamado a atenção algumas vezes e vamos continuar a fazê-lo até que um dia nos convençamos disso ainda que seja pela força de reincidências.

Agora é prioritário e urgente desbloquear a situação de crise entre a presidência e o executivo por via de mediação eficaz no terreno, evitando acelerações pelos caminhos divergentes e descartando a via de força, de humilhação, de afronta ou confronto de poderes. Melhor que intransigências são as palavras chaves nestas circunstâncias: paciência, negociação, tolerância e perdão, reconhecimentos e cedências.

Um provérbio que pode ser útil nestes momentos, “enquanto a cabeça estiver em cima do pescoço, o pescoço não pode levar chapéu”.

Obrigado e boa sorte a todos,

Deus é Grande!

Carlos A. Gomes

carlosagomes@iol.pt

20.08.2015

CIDADANIA: RESPONSABILIDADE SOCIAL COMO FACTOR DE DESENVOLVIMENTO

Em primeiro lugar, importa aqui compreender a cidadania como o acto de apropriação de um conjunto de direitos e deveres que orientam as acções de mulheres e homens, enquanto ferramentas/fazedoras das suas próprias sociedades.

E importa, igualmente, ler o conceito de responsabilidade social fora da sua aplicação mais comum, ligada ao mundo empresarial, com referência ao conjunto de deveres que uma empresa tem para com o meio envolvente. Reconhecendo assim que as suas decisões e o resultado das suas actividades alcançam um universo de agentes sociais e individuais muito além dos directamente envolvidos no exercício empresarial.

Em segundo lugar, o conceito de desenvolvimento aqui empregue deve ser entendido como crescimento do capital humano. Por entender que se trata do principal factor para a evolução de todos os outros componentes de uma sociedade.

Mas porque razão trazer este tema para o debate e consideração dos interessados?

Porque, mais uma vez, a conjuntura nos mostra que importa, discutir e interiorizar que os nossos actos, as nossas decisões, têm consequências perante a sociedade que nos envolve. Sejam elas positivas ou negativas.

Quer vivamos de forma integrada ou marginalizada, os nosso actos não são isolados! Têm impactos directos e/ou indirectos que afectam toda a nossa cadeia de ligações social.

Portanto, é preciso que consideremos e adoptemos formas conscientes de crescimento, para uma actuação orientada para consequências positivas na nossa cadeia de ligações sociais.

E a responsabilização social entra nesta minha abordagem a cidadania porque pode, de facto, ser um factor estratégico importante para a criação de uma sociedade mais consciente do papel de cada um, estimulando assim o desenvolvimento de competências individuais ao serviço do tecido social a que perencem.

Estimular e desenvolver competências individuais que, por sua vez, promovem a adopção de uma postura pró-activa perante o meio envolvente, criando e dinamizando novas formas de encarar problemas sociais existentes, trazendo novas abordagens que incluem a visão das partes mais interessadas.

Mas como é óbvio, tudo isso implica dar enfâse as palavras engajamento e apropriação. Palavras-chave em todo este processo de auto-responsabilização social. Porque é preciso nos sentirmos parte do problema, para nos perguntarmos qual o nosso papel, qual a nossa atitude perante o mesmo, para depois nos sentirmos parte da solução e nos perguntarmos o que temos feito para a resolução/saneamento desse problema, para a melhoria de vida e o bem-estar da comunidade e da sociedade em geral.

Contudo, o engajamento e a apropriação dos problemas sociais existentes têm que ser orientadas para a conscientização individual na mudança de paradigmas.

Quero com isso dizer que a responsabilidade social tem de ser encarada, por todos nós, de forma integrada com o desenvolvimento humano. Maximizando a aposta no desenvolvimento de competências individuais e na liderança, explorando bons exemplos com potencial de transformação social.

Porque é com o aumento do conhecimento que se aumenta a responsabilidade social. E é por meio da responsabilidade social que vem uma maior apropriação de um conjunto de direitos e deveres que orientam as nossas acções, enquanto mulheres e homens, cidadãos de um Estado, fazedores de uma sociedade: a sociedade desejada. Pois há que colocar todo o conhecimento adquirido em funcionamento e, logicamente, como já disse anteriormente, isso repercute-se na sociedade, já que as nossas acções nunca são isoladas, têm sempre consequências, directas e/ou indirectas.

Termino reiterando a ideia de que é necessário ser cada vez mais cidadão, adoptando formas conscientes de crescimento, para uma actuação orientada para efeito positivos na sociedade.

Estamos Juntos!