PEDRO HIGINO DELGADO

Pedro Higino Delgado

SOMBRA E CLARIDADE

 

BOLAMA

Meu paraíso que nunca esqueço

meu ninho de amor sem igual.

Beijo de longe os teus olhos cheios de saudades

e procuro-te no sonho mas não te encontro.

Mas ainda te vejo!...

 

Que seria de mim, que a distância que nos separa,

se, não sentisse o teu amor?

Bolama é um paraíso à beira mar plantado

um recanto adormecido

um amor que nunca tem fim

mesmo para além da vida.

 

Imploro ao vento, aos céus

se podem levar saudades

de quem saudades já tem.

Que sejam sempre saudades e esperanças

para que preso a ti, no teu florir,

morresse um dia nos teus braços

porque morrer ao pé de ti, no teu ventre materno,

é mais que uma vida

é sentir-me imortal!... 


PÁTRIA NOSSA

Cantemos todos em uníssono ao mar e à terra

à madrugada e ao sol

O sol doirado ameno e duradouro

que nos incentiva em cada aurora para a labuta do dia.

 

Com o suor dos nossos corpos, apagamos a sede

com os frutos cozidos pelo sol, matamos a fome

e, com a chuva, regamos a sepultura dos mortos caídos

em prol da nossa Pátria por séculos de dor e de

esperança.

 

Mas hoje afogaram as esperanças

que em tempos sustentavam a nossa luta

que tanto nos orgulhamos.

No nosso quotidiano multiplicam incertezas,

inquietudes em cada despontar da aurora.

 

Com lágrimas de dor

deparamos que a nossa democracia está ferida de vícios,

ela luta desesperadamente pela sobrevivência,

mas se um dia vier a sucumbir de verdade

sucumbiremos todos e o abismo será profundo e

asfixiante! 
 


VENTOS DA REVOLUÇÃO

O nosso sangue de cor vermelho e puro

que um dia derramado nesta terra mártir

fez erguer vozes de contestação

vozes de repúdio, chamas de revolta

espalhados pelos ventos da revolução, portadores de

certeza que fez renascer esperanças, que semeou

o sossego, consolidou a paz

criando alicerces para o amanhã risonho.

 

Com as nossas mãos próprias da liberdade

com o suor, sangue, lágrimas

e nas palhotas das nossas vidas

ajudamos a conquistar uma bandeira, uma pátria livre.

Hoje, com sorrisos estampados no olhar,

os nossos corações vivem animados pela fé.

Com os pés assentes no chão, e com forças de braços

preparados para longos e duros caminhos que nos

esperam nesta lenta e dolorosa caminhada,

para que a geração vindoura possa ela sorrir à luz do

sol e crescer sem metas nos olhos! 


PÁTRIA DISTANTE

Já não oiço o murmúrio apaixonado do vento

roçando de leve, levemente, pelo coqueiro esguio que

subia ao céu e do nosso batuque ritmado.

Já não oiço o chilrear dos pássaros

que tanto me encantavam pelas manhãs.

Já não oiço o bater das ondas que me faziam embalar

pela noite fora nem o cantar da mãe negra, pela manhã,

manhãzinha, e do seu cantar choroso, cheio de,

melancolia.

 

Vou vivendo mas morrendo lentamente

sem ver a terra que me serviu de berço

que me viu nascer.

A alma, essa, envelhece sem que nada me valha.

Como é triste viver longe do nosso chão

longe da bandeira de outros tempos.

 

Quem me dera ao menos poder sonhar

libertar o espírito cansado

deixá-lo abraçar a saudade

deixá-lo vogar sobre as ondas do mar

e cantar saudoso misturado de lágrimas! 
 


TERRAS INCENDIADAS

A alvorada cobre lentamente as montanhas do leste

nas terras sangram profundamente almas que a

chama não incendiou

almas que milhões de vozes clamam pela sua inocência

em lugares dentro e fora

lugares sem nomes

lugares onde receamos chorar

lugares onde receamos sepultar os mortos.

 

É necessário plantar de novo

encontrar a razão

dos corpos destruídos

da terra ensanguentada

das vozes que agonizam

e do coro de braços que se erguem por toda a parte

em terras inquietas sob as pedras mortas.

Na alma o fervilhar de verde esperança comida

da esperança proibida

como a Paz se aproxima e desvanece...

O braço voga pelas águas agitadas cor de sangue

através  dum choro, o choro da nossa gente

aos nossos olhos de todas as cores esgotam-se

num pranto de profundas dores

perseguindo a esperança para a alcançar

nesta terra atribulada e confusa

onde os homens navegam em pântanos

navegam em águas turvas para esconder a verdade,

a verdade de todos os dias

onde os homens ainda se confundem com outros tempos

tempos esse que os próprios homens ajudaram a

apagar.

Que Deus lhes dê algum senso, alguma luz!... 


UM OLHAR À DISTÂNCIA

Homens sentados de cabisbaixo, pensamentos distantes

sem nada fazerem, sem nada que haja por fazer.

Homens ecoando gestos quotidianos

o quotidiano da mesma banalidade.

As correrias dos meninos sob o sol abrasador

com a vida num ritmo lento

com os ânimos à solta

e as mulheres à volta do "pilão" vão garantindo o pão do dia.

 

Assim vai o meu país!...

Com a noite madrugadora, as crianças sentadas na esteira

vão ouvindo dos mais velhos os contos da outrora

para fazer esquecer o triste quotidiano

em que vimos mergulhados

que o próprio tempo não ajuda a explicar os anos de

ruínas, os anos da instabilidade, dos declínios

acentuados nem da ignorância que teima em não

largar este país, a este povo que merece um outro

destino, um outro amanhã...

 

Assim vai o meu país em deriva permanente! 


APELO

No nosso chão temos o sol que nos ilumina o dia

o mar azul que nos enche de alegria as nossas vidas.

Temos a chuva que nos dá farturas

que ajuda a crescer arrozais, as nossas plantas

e as flores lindas do campo.

 

Temos a chuva que faz sorrir as nossas crianças

que faz ondular a nossa bandeira ao sabor do vento.

Temos as palmeiras onde as aves cantam alegremente

e os coqueiros esguios que sorriem para os céus.

 

Apelo a paz aos homens nestes agitados tempos que

correm, para que não haja mais guerras

para que não haja mais mortes, mais desesperos

não haja mais vinganças, nem tribalismos

essa praga que nos tem ensombrado o quotidiano

e possamos fazer da nossa Pátria amada

um paraíso onde todos os homens tenham lugar

sem distinção da religião, cor e da raça! 


SAUDAÇÃO

Longe da terra em que nasci

se a tristeza me faz viver de saudades e recordações

e, se for isto um grande remédio

deixai-me viver sempre triste

de uma tristeza infinita

para me sentir cada vez mais perto

da minha Bolama querida.

 

A Deus agradeço por ter-te concebido tanta beleza,

conceder-me o dom da vida e o privilégio de viver

num mundo tão maravilhoso! 


ANGÚSTIAS

Aqui por entre as paredes obscuras

há tanto prometi deixar de falar.

Já me desabituei como se fala e como se deve sorrir.

Sou um homem sem a voz

e já nem conheço o som da minha voz.

 

Não pertenço a ninguém

nem sei quem sou e quem pareço.

No que fui, já mal reconheço

sou um homem sem nome e nunca me posso abrir, nunca!

 

Verde que te quero verde

esperançado que me alivie as dores

estou neste lugar mas a maior de todas as angústias

é de existir por entre estas paredes obscuras! 


SÚPLICA

Quando um dia eu partir...

quando o sorriso se apagar

quando o negro da noite me cercar

não coloquem as flores no meu caixão

porque me causaria mais dor.

 

Peço que recitem lindas poesias: as da minha terra natal

para que a minha alma possa abraçar a saudade

buscando a luz que nas trevas

sobre a noite traga o dia

e me ampare na morte!

PROJECTO GUINÉ-BISSAU: CONTRIBUTO - LOGOTIPO

VAMOS CONTINUAR A TRABALHAR!

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