Julião Soares Sousa

In Memoriam
Em homenagem a José Carlos Schwarz...
Na lonjura dos anos
choro uma alma amordaçada
mas de voz de livre
voz de melodias perfeitas clamando justiça
aquele tempo de espera infinda
de labaredas de fumo melancólico
em que a terra se mergulhou
Na lonjura dos anos
choro por quem a morte venceu
mas vive dentro de mim
nestes dias de novos desencantos
agora que a terra emudeceu
para sempre
Na lonjura dos anos
proscrito na ilha distante
sucumbiram também
os olhos e a memória
do poeta-cantor
cheios «Do Verde (verde, verde!) do meu País»
«Verde seja a esperança
do regresso breve»
Julião Soares Sousa1, in Um Novo Amanhecer, Minerva/Coimbra, 1996
UM NOVO AMANHECER
A chuva que cai
dos olhos sem brilho
não há-de apagar a chama
que arde por dentro
Outro fôlego e novo amanhecer
já se adestra no horizonte
com força e revolta
velhas na idade
Outro fôlego e novo amanhecer
desenha na derrota
novo rumo
com memória de sangue e mágoa
de outros tempos passados
(Um Novo Amanhecer, Coimbra, Poesia Minerva, 1996)
TERRA PROMETIDA
Somos filhos da terra prometida
a marcha indelével
de um destino cansado
seguimos o clarão luminoso
escrito de sonhos matinais
Somos a jovem flor
plantada em Boé
a Pátria que se espreguiça
(esperamos imortal)
com veias de criança
voz da selva aromática
e mãos de poeta
Somos filhos de nós
esperanças mil vezes frustradas
mas nos corpos esqueléticos
e faces sem futuro
já desabrocha outra vida
rosa na terra e no mar
(Um Novo Amanhecer, Coimbra, Poesia Minerva, 1996)
VINTE DE FEVEREIRO
Aos meus companheiros João Carlos, João Conduto,
Amadeu Cardoso, Quecuta Mané e outros...
Amanheci num interrogatório
de trinta e cinco perguntas
o medo e o terror invadiram meus passos
nos corredores silenciosos
Veio-me à memória
o cativeiro
o rosto da mamã triste
por entre as flores do Ministério
o chilrear dos pássaros
e o sol abrasador que se anuncia
Veio-me à memória
distante em dias contados
o Vinte de Fevereiro
a manhã em que fomos apenas
flores da nossa luta
e outros slogans
(Um Novo Amanhecer, Coimbra, Poesia Minerva, 1996)
VAMOS CONTINUAR A TRABALHAR!
Projecto Guiné-Bissau: CONTRIBUTO