JORGE CABRAL

 
 

ANÓNIMO

Vida,

Tecido

Que se defia

Ao sabor

Dos hojes

Tristes ontens

Que desejamos

Eternos amanhãs 
 

Vida,

Perpétua lida

De fins sem fim

...enfim!

como ondas do mar

que nos escapam

e nos escapam

sem parar 
 

e cada fluxo

é um sorriso

que o refluxo apaga

do nosso olhar 
 

Belgrado, Agosto de 1975


OS MARINHEIROS DA SOLIDÃO

No delírio dos meus pensamentos

E na febre dos meus sentidos

Parece-me vê-los dançar

Dentro de mim em silêncio 
 

Fecho os olhos

E oiço-os remar ao longe

No horizonte da vida, solitários

Sem chama nos seus olhares apagados

Numa tarde seca de Maio

Cercados pelos alísios marítimos

Deixaram a Ilha para sempre

Para uma odisseia sem retorno 
 

Nas ondas do oceano procuram sossego

Esses eternos piratas da neblina

Lá vão eles, humildes fugitivos

Teimosos marinheiros da ingratidão 
 

As estrelas guiam esses santos sem nome

Para um destino que lhe é anónimo

Ao chamar dos ventos não souberam dizer não

Não vendo a morte neles sinónima 
 

Vítimas são de um sortilégio

Que ensombra as alvoradas do seu comum destino

Talvez tenham cometido algum sacrilégio

Alimentando sonhos obstinados? 
 

O azul frio perde-se nos olhos

Desses rudes marinheiros da solidão

Fazendo-os descobrir novos céus

E, na morte, a plenitude. 
 

Belgrado, Maio de 1977


REGRESSO

Penso em ti

Como num sonho longínquo

Um sonho

Que jamais terei 
 

Como em dias remotos

Pois nunca vividos 
 

Como num sonho

Que bem conheço

Por tantas vezes

Ter sonhado

Sonhá-lo 
 

Penso em ti

Como num pai desconhecido

Que sempre conheci 
 

Como na esposa bem-amada

Que se me tarda a encontrar 
 

Penso em ti

Meu país,

Tchon di mi

Como num sonho longínquo

Um sonho

Que se me demora a ter 
 

Belgrado, Julho de 1977


CANÇÃO AO MENINO

Vi

O pranto

Secar

No calor

Do teu sorriso 
 

A mágoa afogar

Ao clamor

Da tua bonança

E escrever

No ar que te rodeia

Amor, poesia

E esperança 
 

Vejo

Nos teus olhos

O dó

Desta ventura

Alheia mas tua 
 

E descubro

Na clara pousada

Do teu olhar, 
 

Recôndito na tua alma

Fugaz e evanescente

Nos teus murmúrios

O secreto convite

À ceia da vida

E da eternidade 
 

És

Canção

E harmonia perdida

No desencanto

Deste universo 
 

E fonte

A que entregamos

Desesperançados

A nossa sede 
 

Para eternizar 
 

O que de melhor

Escondemos

No âmago do nosso ser 
 

E satisfazer

Através de ti, Menino

A nossa ânsia

De viver. 
 

Bissau, Janeiro de 1990 


Fonte:

Antologia Poética da Guiné-Bissau, Editorial Inquérito, 1990

  Os marinheiros da solidão (poesia), INEP, Kebur, 1998

 

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