
Vida,
Tecido
Que se defia
Ao sabor
Dos hojes
Tristes ontens
Que desejamos
Eternos amanhãs
Vida,
Perpétua lida
De fins sem fim
...enfim!
como ondas do mar
que nos escapam
e nos escapam
sem parar
e cada fluxo
é um sorriso
que o refluxo apaga
do nosso olhar
Belgrado, Agosto de 1975
No delírio dos meus pensamentos
E na febre dos meus sentidos
Parece-me vê-los dançar
Dentro de mim em silêncio
Fecho os olhos
E oiço-os remar ao longe
No horizonte da vida, solitários
Sem chama nos seus olhares apagados
Numa tarde seca de Maio
Cercados pelos alísios marítimos
Deixaram a Ilha para sempre
Para uma odisseia sem retorno
Nas ondas do oceano procuram sossego
Esses eternos piratas da neblina
Lá vão eles, humildes fugitivos
Teimosos marinheiros da ingratidão
As estrelas guiam esses santos sem nome
Para um destino que lhe é anónimo
Ao chamar dos ventos não souberam dizer não
Não vendo a morte neles sinónima
Vítimas são de um sortilégio
Que ensombra as alvoradas do seu comum destino
Talvez tenham cometido algum sacrilégio
Alimentando sonhos obstinados?
O azul frio perde-se nos olhos
Desses rudes marinheiros da solidão
Fazendo-os descobrir novos céus
E, na morte, a plenitude.
Belgrado, Maio de 1977
Penso em ti
Como num sonho longínquo
Um sonho
Que jamais terei
Como em dias remotos
Pois nunca vividos
Como num sonho
Que bem conheço
Por tantas vezes
Ter sonhado
Sonhá-lo
Penso em ti
Como num pai desconhecido
Que sempre conheci
Como na esposa bem-amada
Que se me tarda a encontrar
Penso em ti
Meu país,
Tchon di mi
Como num sonho longínquo
Um sonho
Que se me demora a ter
Belgrado, Julho de 1977
Vi
O pranto
Secar
No calor
Do teu sorriso
A mágoa afogar
Ao clamor
Da tua bonança
E escrever
No ar que te rodeia
Amor, poesia
E esperança
Vejo
Nos teus olhos
O dó
Desta ventura
Alheia mas tua
E descubro
Na clara pousada
Do teu olhar,
Recôndito na tua alma
Fugaz e evanescente
Nos teus murmúrios
O secreto convite
À ceia da vida
E da eternidade
És
Canção
E harmonia perdida
No desencanto
Deste universo
E fonte
A que entregamos
Desesperançados
A nossa sede
Para eternizar
O que de melhor
Escondemos
No âmago do nosso ser
E satisfazer
Através de ti, Menino
A nossa ânsia
De viver.
Bissau, Janeiro de 1990
Fonte:
Antologia Poética da Guiné-Bissau, Editorial Inquérito, 1990
Os marinheiros da solidão (poesia), INEP, Kebur, 1998
VAMOS CONTINUAR A TRABALHAR!
Projecto Guiné-Bissau: CONTRIBUTO