Agnelo Regalla

 

Agnelo Regalla

 

 

AQUELA LÁGRIMA DE SANGUE

 

Aquela lágrima de sangue

Que te vi chorar, irmão,

Foi a paga que nos pediram

Para entrar no escalão dos Homens.

Aquela lágrima de sangue

Que te vi chorar, irmão,

É o produto da vida que levámos,

É o sangue contratado

Que embebedou a terra em que caiu,

É o sangue envergonhado

Que nos fez considerá-los medida-padrão

É o sangue que juntaram ao seu

Para escarnecerem depois.

Aquela lágrima de sangue

Que te vi chorar, irmão,

É o sangue da revolta

Que nos anima os gestos

É o sangue da pureza

Contida na nossa desconhecida cultura,

É o sangue da liberdade

A ferro e fogo


 

O ECO DO PRANTO

 

Não me digas

Que essa é a voz de uma criança

Não...

A voz da criança

É suave e mansa

É uma voz que dança...

Não me digas

Que essa é a voz de uma criança

Parece mais

Um grito sem esperança

Um eco

Partindo de fundo de um beco

Não me digas

Que essa é a voz de uma criança,

Essa é doce e mansa

É uma voz que dança...

Esta parece mais

Um grito sufocado sob um manto

- O Eco do Pranto.


 

MULHER

 

Sombra fugidia

Que me abraça

E me trespassa

O coração magoado

Flor de fantasia

Que no meu enfado

Enfeita meu sonho alado

És tu mulher...

Companheira na vida

Compartilhando

Essa alegria reprimida

Num beijo de despedida.


 

FLOR NOCTURNA

 

Flor nocturna

Que com a lua

Desabrochas em meus braços

Flor soturna

Que pelas sombras da rua

Guias teus passos,

Flor amiga

Com pétalas de estrelas

E résteas de luar

Deambula noctívaga

Pelas vielas

E vem-me abraçar.


 

SE UM DIA

 

Se um dia

Dos teus lábios suaves

O sorriso lentamente se apagasse,

E a tua voz que me afaga

Morresse silenciosa

Qual voo de um pássaro

No horizonte

Se de teus olhos amêndoa

Nascesse uma só lágrima

De tristeza

Rolando em teu rosto

De menino de savana

A revolta contida em meus braços

Apunhalaria

O mais profundo das entranhas

Do racismo mascarado

E da sua morte

Nasceria uma flor

Em madrugada de sereno

Que tuas mãos colheriam

No gesto simples

De me acarinhares.

 


 Fonte: Antologia Poética da Guiné-Bissau, Editorial Inquérito, 1990

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