A UTOPIA OU A PROFECIA DA DESGRAÇA 
 

 

Por: Inácio Valentim

23.01.2008

As últimas semanas trouxeram à ribalta muitos textos sobre a Guiné, entre eles, um longo texto (passa pleonasmo) sobre a Al-Qaeda na Guiné. O texto traz muitas coisas, particularmente, aquilo que designamos na gíria guineense por “nobas”, mas não nos traz nenhuma informação jornalística credível. A imagem com que ficamos na lonjura do texto é de que nadamos numa exposição do jornalismo por encomenda. Isso não quer dizer que quem está fora do país não pode escrever ou não pode opinar sobre o mesmo. Não, não é isso. O que se quer dizer é que tendo em conta a inquestionável impossibilidade da neutralidade, o rigor da informação se apresenta como a única garantia da sua fiabilidade. Isso quer ainda dizer, que não se pode fazer colagem forçada de alguns acontecimentos casuísticos à situação actual em que o país se encontra.

Não é porque o país se decidiu drogar com o narcotráfico que a Al-Qaeda se lembrou de ir pedir esconderijo à desordem guineense. Al-Qaeda é o terror dos tempos modernos que está onde quer estar, embora nem sempre consiga estar quando quer estar. E, a Al-Qaeda já demonstrou que é uma organização multifacetada com inúmeras possibilidades de assimilar e de se adaptar segundo as circunstâncias. Julgo que não é demais lembrar que os EUA, a Inglaterra ou Espanha não são países que se possa etiquetar de desorganizados mas, mesmo assim, neles a Al-Qaeda fez o que todo o mundo sabe. E julgo ainda que é do conhecimento da opinião pública informada o que se está a passar neste momento na Europa em relação ao terrorismo. Em Barcelona foram presos 15 indivíduos suspeitos de ligação à Al-Qaeda e sabe-se que a polícia portuguesa está atrás de dois cidadãos paquistaneses, também eles, suspeitos de envolvimento com a rede radical islâmica, e mais, no mês de Dezembro foi preso no Porto um indivíduo de nacionalidade marroquina por suspeita de pertencer à Al-Qaeda. No fundo, independentemente da instabilidade guineense, a verdade é que os factos da Al-Qaeda falam por si e é, também por isso, que não se deve apoiar em qualquer tipo de argumento florescente para fazer valer uma verdade inexistente. Por tudo isso, penso que a comunidade internacional, refiro-me àquela comunidade internacional muito bem informada da história da violência política e social guineense, e não àquela que o desejo da vingança e os ajustes de conta nos faz criar, nunca estará preocupada de forma alarmista com a possível organização do movimento radical islâmico na Guiné por uma simples razão: É que se é verdade que a história política guineense é compatível com a violência, também, não é menos verdade que esta mesma história se revela incompatível com a violência sectária. Ora, como todos sabem, a Al-Qaeda é cunhada por uma ideologia religiosa sectária. Não é a pobreza ou a desordem que dita o acolhimento dos movimentos ideológicos, sejam eles políticos ou religiosos, mas sim “o espírito do tempo”. E não se trata aqui de um “espírito do tempo” puramente hegeliano, mas da realidade concreta do que é a Guiné hoje; e a Guiné hoje é tudo menos uma partilha de poder sem lucro para os bolsos dos dirigentes e dos militares e é de conhecimento de todos que a Al-Qaeda não traz lucro.

Aproveito aqui para lembrar também que alguns tinham profetizado a desintegração da Guiné, a intervenção militar da ONU e até uma possível invasão norte-americana no país coisa que sempre contestei. Tudo isso não aconteceu pois não? A grande resposta que vimos é que a comunidade internacional, aquela comunidade internacional consciente da necessidade da estabilidade da Guiné sem a coerção de terceiros, doou dinheiro para o bolso dos governantes sob pretexto de que quer participar na luta contra a droga no país. Isto quer, simplesmente, dizer que a política não é o que os cibernautas ou os cidadãos comuns querem, mas sim, aquilo que é neste momento presente, ou seja, aquele sic et nunc, o aqui e agora que Maquiavel impingiu a toda a realidade cujo nome é política.

O que deve preocupar aos guineenses não é a possível presença da Al-Qaeda no país, mas como fazer com que ela não esteja presente no país. A Guiné não responde a esta pergunta porque não reúne condições para responder, assim como um grande número de países, inclusive ocidentais, não reúne condições para responder à dita pergunta. O que não quer dizer que na Guiné ou nos outros países não se deve ter a preocupação com o movimento radical islâmico. Simplesmente não se deve chamar Al-Qaeda onde ela não está nem faz intenção de estar.

Para finalizar, quero voltar à questão de forjar a verdade através de argumentações simplistas e de provas inexistentes. Os “tipos” que foram presos na Guiné não foram lá porque o país é instável ou porque se vende droga, mas por um hábito da transitoriedade criada na Guiné. Quantos estrangeiros daquela sub-região entram para a Europa e para os Estados Unidos com os documentos guineenses sem serem terroristas?

Vamos discutir o país? Sim, mas com a verdade e objectividade. Ah, e outra coisa: eu só respondo a alguns.

Chamar-me-ão ninista? Sim, com muita pena minha, mas neste artigo concreto prefiro sê-lo. Pois como diz Aristóteles, sou muito amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade.


Por: Fernando Casimiro (Didinho)

didinho@sapo.pt

23.01.2008

O texto a que o Inácio Valentim se refere concretamente é o texto intitulado " ALCAIDA EM BISSAU " da autoria de João Carlos Gomes, que faço questão de anexar ao texto/comentário do Inácio Valentim, de forma a possibilitar  aos leitores uma leitura e análise comparativa quer do texto original de João Carlos Gomes, quer do texto/comentário de Inácio Valentim.

Da minha parte, quero aproveitar para dizer a todos que não há espaço para censura neste site quando se trata de debate de ideias dentro da ética, do respeito e consideração dos que escrevem para serem lidos. Todos temos direito a emitir opinião, a concordar ou discordar.

Há, no entanto, em minha opinião, algo que devemos ter presente:

Uma opinião, uma reflexão, uma ideia, são, no cômputo geral, pontos de vista que, para serem teorias científicas teriam que ser estudadas, analisadas, confrontadas por comissões científicas de especialidade para serem ou não aceites como tal.

Quando escrevemos e expressamos opiniões sobre questões correntes, por exemplo em relação à Guiné-Bissau, creio que cada um tenta dar a sua visão da situação que conhece e resolve abordar, utilizando a  melhor forma de se fazer compreender e, ciente de que a sua opinião, pode ser partilhada por muitos, como também contrariada por muitos.

No entanto, se para quem partilha/comunga a mesma opinião, não se impõe argumentar a concordância de pontos de vista, já para quem discorda, impõe-se saber os argumentos que o levam a discordar dos pontos de vista de alguém, até porque, por vezes esses mesmos argumentos acabam por ser aceites pelo promotor da opinião original, quando o discordante consegue ser convincente nos seus argumentos!

Este texto/comentário de Inácio Valentim, recorda-me um outro na mesma forma e também dirigido a um trabalho de João Carlos Gomes (NINO VIEIRA, A GOVERNAÇÃO, OS MILITARES, A DROGA E A RECONCILIAÇÃO NACIONAL 27.07.2007), que depois trouxe alguma polémica, quando resolvi deixar o meu comentário sobre o raio de alcance das referências de Inácio Valentim ao referido texto/comentário.

Nenhum debate pressupõe que uma reflexão, uma opinião, ou uma ideia possam ser tidas em linha de conta tal como uma notícia ou algo de carácter informativo, que ou é verdade (se se confirmar), ou é mentira (caso não se confirme).

Uma opinião não é uma notícia, ainda que possa ser transformada em notícia!

Uma reflexão não é uma notícia, ainda que possa ser transformada em notícia!

Uma ideia não é uma notícia, ainda que possa ser transformada em notícia!

 João Carlos Gomes emitiu pontos de vista, tendo apresentado apontamentos de ocorrências registadas e confirmadas como notícias, mas o seu trabalho vale pela sua opinião, tal como o Inácio Valentim, que é apologista de citações de grandes pensadores mundiais, quando emite uma opinião, independentemente das citações apresentadas, é o conteúdo da sua reflexão/opinião/ideia, que deve ser tomado em conta...

Não há razão para pensar igualmente que qualquer suposição (com base numa opinião), deve ser relacionada com uma profecia e, muito menos, que  tenha que ter data marcada para ocorrência, tal como dá a entender Inácio Valentim, a propósito da opinião emitida por João Carlos Gomes no seu artigo acima referenciado de 27/07/2007.

Também discordo quando o Inácio Valentim se auto-define como dono de todas as verdades, tal como dá a entender nesta passagem:

"Para finalizar, quero voltar à questão de forjar a verdade através de argumentações simplistas e de provas inexistentes. Os “tipos” que foram presos na Guiné não foram lá porque o país é instável ou porque se vende droga, mas por um hábito da transitoriedade criada na Guiné. Quantos estrangeiros daquela sub-região entram para a Europa e para os Estados Unidos com os documentos guineenses sem serem terroristas?

Vamos discutir o país? Sim, mas com a verdade e objectividade. Ah, e outra coisa: eu só respondo a alguns.

Chamar-me-ão ninista? Sim, com muita pena minha, mas neste artigo concreto prefiro sê-lo. Pois como diz Aristóteles, sou muito amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade."

É que o Inácio Valentim, ainda que não se tenha apercebido, está a manifestar uma opinião, a sua opinião e não a produzir notícia sobre o que de facto aconteceu aos mauritanianos detidos em Bissau...

E porque haveria de ser a opinião do Inácio Valentim mais "verdadeira" do que a opinião de João Carlos Gomes, quando, a exemplo do que argumentou Inácio Valentim, os seus pontos de vista/comentário ao texto do João Carlos não trazerem, igualmente, nenhuma informação credível?!

Em que é que ficamos? Uma opinião é uma notícia? Ou pode, isso sim, ser transformada em notícia, tal como o Inácio Valentim fez ao tomar em conta a opinião de João Carlos Gomes como notícia...

Sobre a Verdade, não creio que alguém seja detentora de mais do que uma verdade: da sua verdade!

Ainda tenho presente por exemplo, quando criei o Projecto Guiné-Bissau: CONTRIBUTO, ter feito questão de afirmar que este Projecto é dado ao debate de ideias, mas  que o seu propósito não era, nem é informativo, do tipo - Comunicação Social e porquê?

Precisamente prevenindo este tipo de interpretação, ainda que, mesmo a nível da Comunicação Social, também haver espaço para opiniões e reflexões, que nunca podem ser confundidas com notícia!

Que fique claro que só comentei o texto, porquanto o Inácio Valentim me ter pedido para o analisar e publicar, se assim o entendesse...


Alcaida Em Bissau

‘Muntruss, O... Ladron?’

(Crioulo para, ‘Mentiroso, ou, Ladrão – qual é que prefere?’)

 

Infelizmente, a confirmar mais um aspecto dos prognósticos específicos, feitos por este autor, há menos de quatro meses, acaba de ser aberta, oficialmente, uma nova frente na luta contra o terrorismo internacional: a Guiné-Bissau.

 

Por: João Carlos Gomes*

João Carlos Gomes

15 de Janeiro de 2008

 

‘Cuntum Stanu Dianti, no Penssa Cuma I Bande’ – Segunda Parte

(‘Sem saber o  que nos espera’)

 

1. Foi num dos trabalhos anteriores intitulado, ‘Guiné-Bissau: Narcotráfico a Financiar Também o  Terrorismo Internacional?’, publicado a 27 de Setembro último que o autor chamou especificamente a atenção do governo para os vários perigos que representa para o país e, os seus cidadãos, a aparente incapacidade das autoridades de fazer face à ameaça da escória da droga.  Uma das questões levantadas no decurso desse trabalho foi a possibilidade de a Guiné-Bissau vir a ser associada com o financiamento do terrorismo internacional, por causa das avultadas receitas provenientes do tráfico da droga que transita pelo país, e que, se acreditarmos nas afirmações dos representantes do governo, escapam totalmente ao controlo das autoridades.

2. Para quem na altura se sentiu inclinado a qualificar tais avisos de meras especulações alarmistas, e, embora não se tenha estabelecido, por agora, qualquer ligação especifica com o tráfico da droga, acaba de surgir a primeira evidência clara e, inequívoca de que, a ameaça de uma presença de elementos ligados ao terrorismo internacional é real e, já presente.  Isso foi o que ficou provado numa operação conjunta, inédita, da Polícia Judiciária local, e de oficiais dos Serviços Secretos Franceses em que foram capturados, num dos hotéis da capital guineense, dois indivíduos de nacionalidade mauritaniana, suspeitos de terem cobardemente assassinado em Nouakchot, capital do seu país de origem, quatro turistas de nacionalidade francesa.

3. O único crime cometido por estas vítimas indefesas foi, aparentemente, terem decidido - à semelhança, do que fazem, todos os anos, milhares de outros compatriotas seus - ir conhecer e desfrutar, os prazeres exóticos e míticos, do velho continente africano.  O incidente foi um dos principais factores que estiveram na origem do cancelamento, pela primeira vez, do célebre rally anual, ‘Paris-Dakar’, que agora tem o seu início a partir da capital portuguesa, Lisboa.

4. A decisão do grupo de franceses de escolher a Mauritânia como local de férias, viria a provar ser fatal, ao valer-lhes terem sido adicionados à já longa lista dos chamados, ‘infiéis’, a perder barbaramente as suas vidas às mãos de criminosos tais como os agora suspeitos, Mohamed Chabarnou (aliás, Abou Mouslim), e, Sidi Ould Sidna (aliás, Abou Jenden), ambos capturados, em Bissau, na madrugada de quinta-feira, 10 de Janeiro.  Para quem pensa  - naquela atitude, ‘deixa andar’, que está na base de alguns dos problemas mais graves que o país hoje enfrenta  - que este caso é apenas ‘um mero problema de turistas que nada tem a ver connosco’, vejamos:

 

Porque é que os pormenores deste caso devem constituir mais um motivo de preocupação e, reflexão profundas para todos os guineenses?

5. New York, Londres, Madrid ou, Rawalpindi, são apenas alguns dos exemplos mais dramáticos de cidades que me vêm à memória, cujos cidadãos inocentes foram transformados em vítimas de actos selvagens e macabros, associados com o terrorismo internacional, no decorrer dos últimos anos.  Segundo as autoridades francesas, os suspeitos encontravam-se a caminho do país vizinho da Guiné-Conakry donde contavam posteriormente, seguir para a Argélia, seu destino final.

6. A pergunta que se põe, é porque é que estes assassinos teriam escolhido também a Guiné-Bissau como parte do seu itinerário, após a Mauritânia, seu ponto de partida; o Senegal, país pelo qual transitaram por quatro noites, ou; Banjul, Gâmbia, seu último ponto de passagem, antes de chegarem a Bissau?  Embora as investigações ainda se encontrem na sua fase preliminar, que tal avançar para já, uma hipótese óbvia – o facto de que, a Guiné-Bissau é hoje um país internacionalmente conhecido pela sua incapacidade de controlar eficazmente o seu território?

7. Uma outra pergunta legítima, é: quem sabe qual teria sido o próximo objectivo destes ‘agentes da morte’, que não expressaram qualquer remorso, se tivessem sucedido em penetrar o circuito e, montado a bordo de uma aeronave comercial, repleta de passageiros, incluindo, possivelmente, a seu ver, um número considerável de ‘infiéis’?  A julgar pela atitude de desafio, demonstrada após a sua detenção, teriam estes auto-proclamados membros de um comando fundamentalista associado à Alcaida, deixado passar uma tal oportunidade?  Quem teriam sido as próximas vítimas?  Quem é capaz de assassinar, de forma indiscriminada, quatro, pode matar muito mais.

 

Nos tempos que correm, a vulnerabilidade dos mecanismos do sistema nacional de segurança de qualquer país, podem resultar em consequências desastrosas!

8. Para quem não se lembra, para além dos já célebres ataques do ‘Onze de Setembro de 2001’ nos Estados Unidos, há um outro caso que, pela sua relevância ao tema em questão, não é demais invocar aqui também.  A 31 de Outubro de 1999, o ‘voo numero 990’ da companhia ‘EgyiptAir’ deixou o Aeroporto John F. Kennedy em Nova Iorque, com destino ao Cairo.  Nunca la chegou.  O que aconteceu nas primeiras horas dessa madrugada de domingo, em águas internacionais, há cerca de noventa e seis quilómetros, nas imediações da ilha de Nantucket, sul do estado de Massachusetts, viria a constituir motivo de muita especulação, contradições e controvérsia internacional.  Falha mecânica, erro humano, sabotagem política, terrorismo, ou, suicídio??? 

9. Segundo especulações provenientes de alguns sectores dos Estados Unidos ligados ao caso, o incidente, envolvendo o ‘voo 990’, deveu-se a um ‘acto deliberado’ de um dos membros da tripulação, não tendo as mesmas afastado a possibilidade de um suicídio, ligado a um acto terrorista.  Parte desta teoria, avançada inclusive, pela comunicação social, sugeriu que teria sido o próprio co-piloto Gameel Al-Batouti que - uns meros quarenta minutos após a descolagem do Boeing 767-366ER - gritou: ‘Al-Aqbar’ e, em seguida, puxou intencionalmente a alavanca de descida, mergulhando a aeronave, numa queda vertiginosa, para o fundo do oceano Atlântico.  

10. Nos escassos segundos que precederam o impacto e, num esforço derradeiro, os gritos desesperados em vão de: ‘Puxa, puxa, puxa’, provenientes, aparentemente, de El Habashy, o designado capitao de bordo – aparentemente, a tentar endireitar e, reganhar o controlo da aeronave - foram os últimos sinais de vida que os oficiais da National Transportation Safety Board (NTSB), uma das principais agências americanas encarregues de investigar tais incidentes, viriam a encontrar registados na ‘caixa negra’ do ‘voo 990’ da EgyptAir.

11. Um possível motivo, dentre os vários, avançados pelos investigadores: encontravam-se a bordo, entre os passageiros regulares e membros da tripulação, dezenas de oficiais militares, incluindo vários de alta patente, que tinham acabado de concluir um programa de formação nos Estados Unidos, e que estavam agora de regresso ao teatro de operações, no Médio Oriente. 

12. A autoridade Egípcia para a Aviação Civil disputou as conclusões oficiais americanas, com os meios de comunicação social deste país a avançar teorias próprias segundo as quais a aeronave teria sido abatida acidentalmente ao atravessar uma zona americana militarizada, interdita ao tráfico aéreo regular.  Não faltaram também acusações contra a Mossad, os serviços de inteligência de Israel, em colaboração com a CIA, a sua congénere dos Estados Unidos.

13. O certo é que, por causa das discórdias na interpretação dos dados, por parte dos órgãos competentes, nunca se chegou a uma conclusão final quanto às verdadeiras razões ou motivos que levaram ao despenhamento do avião.  Tanto os americanos como os egípcios,  mantiveram as suas teorias e posições iniciais, culpando um ao outro.

 

Terá passado o perigo em Bissau?

14. À semelhança dos incidentes do 11 de Setembro de 2001, o caso do ‘voo 990’ serve também para ilustrar o facto de que, mesmo em países com estruturas sofisticadas a funcionarem cabalmente, organizações, grupos ou indivíduos, dedicados à indústria do crime, sobretudo a nível internacional, conseguem fugir ao escrutínio das autoridades e, causar danos consideráveis.  Agora, imaginem o perigo que representa, viver num país como a Guiné-Bissau, onde as estruturas de protecção dos direitos mais básicos dos cidadãos, são praticamente inexistentes!

15. Entretanto, ainda se desconhece o paradeiro de um possível terceiro membro do grupo nuclear.  Por onde andará?  Serão estes os únicos que já penetraram na, já internacionalmente conhecida ‘Casa da Joana’, por excelência, em que a Guiné-Bissau se tornou?  Porque via entraram, sem terem sido detectados?  Por último, como é que estes famigerados teriam financiado as suas deslocações? Fontes oficiais francesas indicam que os dois indivíduos inicialmente capturados em Bissau, mais três dos seus cúmplices, todos oriundos da Mauritânia já foram expulsos do país, tendo sido transportados a bordo de uma aeronave militar, de regresso ao seu país de origem, onde segundo a BBC, foram presos logo à chegada ao aeroporto da capital.  Se for cumprida a sentença aplicável sob o código penal deste país, em tais casos, poderão, em breve, desfrutar cada uma das setenta e duas virgens que, presumivelmente, os espera no paraíso.  Os condenados à morte têm direito a um último pedido.  Que não se esqueçam do viagra!!!

16. Um aspecto importante e encorajador dos detalhes deste caso, sem precedentes, é o facto de que os suspeitos foram presos num hotel, factor que, à partida, parece indicar que não tinham uma base de apoio local - ainda.  No entanto, isso não diminui a preocupação patente no facto de que, aparentemente, entraram livremente no território guineense, e se predispunham a partir, sem problemas, utilizando, possivelmente, o aeroporto internacional da capital, num país praticamente, sem um tráfego aéreo, propriamente, digno referência.

Como em todas as situações, aqui também, mais vale prevenir do que remediar -

‘cortando o mal pela raiz’.

17. Como é que os cidadãos da Guiné-Bissau poderão vir a ser afectados, directa ou indirectamente, por este incidente?  Comecemos pela utilização do termo ‘infiel’, normalmente utilizado pelos perpetradores para desprover as suas vítimas de qualquer valor humano.  O problema é que, pela sua abrangência não discriminatória que transcende quaisquer barreiras regionais, ideológicas, religiosas, raciais, culturais, morais, etc., o termo expõe qualquer membro da raça humana, a estes actos criminosos.  Basta estar, no lugar errado, no momento errado.

18. Com base nestes critérios e, segundo os valores perversos que os membros destes grupos radicais tentam impor ao resto da sociedade, nenhum local de concentração pública está imune aos seus ataques.  Daí que, a única forma de fazer face à tirania famigerada dos fundamentalistas, seja qual for a sua crença ou credo, é através da  educação e sensibilização das massas sobre a sua ideologia e métodos operativos, e, duma mobilização geral de esforços com vista a manter uma vigilância cerrada, sobretudo por parte daqueles que têm mais a perder - a camada juvenil. 

Consequências imediatas da nova situação criada por estes incidentes: medidas preventivas.

19. Idealmente, em qualquer parte do mundo, esta nova experiência devia resultar sobretudo, no reforço imediato de todos os mecanismos nacionais de segurança, com vista a proteger a todos os cidadãos e, residentes do país.  Neste processo, é preciso tomar disposições firmes para evitar, não só a discriminação, mas também, uma dupla vitimização, dos membros de comunidades que, à priori, poderão ser tidos como, ‘suspeitos óbvios’ – porque culpados por associação. 

20. Realisticamente, no entanto, não tenhamos quaisquer ilusões.  Infelizmente, por mais injusto que pareça, por causa do contexto geo-politico e, de segurança, prevalecente no seio da comunidade internacional, com a notícia das detenções acabadas de efectuar em Bissau já espalhada pelo mundo fora, e, o seu cunho religioso, o impacto deste caso será doravante sentido, acima de tudo, pela comunidade muçulmana guineense, tanto no país como no exterior. 

21. Para começar, o caso dará origem a um maior escrutínio sobre estes, não só por parte das autoridades dos países ocidentais, mas também, por vários outros.  Tais  accões serão notáveis, sobretudo, em áreas como: restrições nas emissões de documentação, visas, e, imposição de exigências e dificuldades adicionais em trâmites burocráticos ligados a deslocações ao exterior, incluindo nas peregrinações a Meca.  É aqui que é preciso muito cuidado e vigilância.

22. Como nos mostram os recentes incidentes, que se seguiram às eleições presidenciais do Quénia - onde, ao se sentir politicamente alienada pelas accões do partido no poder, a comunidade muçulmana decidiu aderir à oposição, num bloco – a marginalização de qualquer segmento da sociedade, sobretudo quando injustificada, constitui o melhor ingrediente que pode funcionar como um precursor eficaz para estimular a radicalização, ainda que involuntária.  

23. A Guiné-Bissau é um país onde a sociedade não precisa de mais razões para se fragmentar. Daí, que, os critérios e valores, que determinam que não seria justo, de forma alguma, discriminar, ou permitir a discriminação, contra qualquer segmento da sociedade, são os mesmos que vão também justificar uma participação activa, concertada e responsável, por parte de todos, nos esforços conjuntos a serem levados a cabo, no quadro duma estratégia comum, destinada a prevenir futuros incidentes semelhantes ao acabado de acontecer com os Alcaidas mauritanianos.

24. Por isso, não seria má ideia se os líderes da comunidade muçulmana começassem por: capturar eles próprios, a iniciativa e, o controlo das suas vidas, dando mostras claras do seu repúdio, demarcando-se, desde já, de qualquer acto que poderia ser interpretado como sendo uma atitude de solidariedade ou cumplicidade moral, para com os malfeitores, através de uma condenação forte e inequívoca deste acto ignóbil.  Acima de tudo, devem tomar medidas concretas para manter uma vigilância cerrada, e, prevenir a infiltração de elementos indesejáveis no seu próprio seio, cujas accões só poderão vir a ser altamente prejudiciais para a comunidade.

25. De recordar que, conforme se tornou evidente com as trágicas experiências de países como o Iraque, o Afeganistão, ou; mais recentemente, o Paquistão, com o bárbaro assassinato, em público, da ex-Primeira Ministra, Benazir Bhuto - nas suas accões - estas mãos assassinas não descriminam, não hesitando sequer em massacrar mulheres e crianças, católicos, judeus, hindus, ateus, ou mesmo, e também, muçulmanos inocentes.  Incidentalmente, esse foi o caso, tanto com as vítimas do ‘Onze de Setembro de 2001’, como com os do ‘voo 990’ da EgyptAir que contava, com várias nacionalidades – incluindo, para além de dúzias de cidadãos dos Estados Unidos, outros de países como o Canadá, Chile, Egipto, Sudão, e Síria - dentre o total de 217 vítimas que se encontravam a bordo do ‘Tuthmosis III’, nome de registo da malograda aeronave. 

26. Outra consequência imediata deste caso, poderá ser que, agora que ficou claramente demonstrado, a partir destes incidentes, que existe a possibilidade real duma presença de elementos ligados à Alcaida na Guiné, estabeleceu-se, justificadamente, um clima de vulnerabilidade e, de insegurança generalizadas no país.  E, face à incapacidade das autoridades locais de oferecer proteção adequada e eficaz ao seu pessoal, as representações diplomáticas, os organismos internacionais e, as organizações não-governamentais que têm assistido a Guiné-Bissau e, dos quais os cidadãos dependem, em muitos casos, para suprimir uma parte considerável das suas necessidades mais básicas, podem legitimamente, decidir abandonar o país.  Há que não esquecer o velho ditado guineense que nos lembra: ‘Quim cu ta n’dianta cu purcu, forrel cu i ta cume’ (‘quem com porcos convive, está condenado a comer farelo).

*Escritor/Jornalista

Nova Iorque


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