AMILCAR CABRAL

 

Amilcar Cabral

 

Nasceu em Bafatá a 12 de Setembro de 1924. Morreu a 20 de Janeiro de 1973, barbaramente assassinado.  Formou-se no Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa e, como agrónomo trabalhou em Portugal, Angola e na Guiné, onde, em 1953, procedeu ao primeiro recenseamento agrícola do país.

Em 1956, juntamente com outros cinco patriotas fundou o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) que dirigiu na qualidade de Secretário-Geral até à data da sua morte. Revolucionário  humanista de sentido universal, deu, através do seu pensamento e da sua acção, uma contribuição inestimável à luta de libertação dos povos oprimidos.

Na sua produção literária, destacam-se textos políticos, culturais e poesias. Colaborou em algumas revistas e publicações científicas.

 

 

REGRESSO

 

Mamãe Velha, venha ouvir comigo

O bater da chuva lá no seu portão.

É um bater de amigo

Que vibra dentro do meu coração

 

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,

Que há tanto tempo não batia assim...

Ouvi dizer que a Cidade-Velha

– a ilha toda –

Em poucos dias já virou jardim...

 

Dizem que o campo se cobriu de verde

Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança

Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.

– É a tempestade que virou bonança...

 

Venha comigo, Mamãe Velha, venha

Recobre a força e chegue-se ao portão

A chuva amiga já falou mantenha

E bate dentro do meu coração!

 


 

POEMA

 

Quem é que não se lembra

Daquele grito que parecia trovão?!

– É que ontem

Soltei meu frito de revolta.

Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra,

Atravessou os mares e os oceanos,

Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,

Não respeitou fronteiras

E fez vibrar meu peito...

 

Meu grito de revolta fez vibrar os peitos de todos os Homens,

Confraternizou todos os Homens

E transformou a Vida...

 

... Ah! O meu grito de revolta que percorreu o Mundo,

Que não transpôs o Mundo,

O Mundo que sou eu!

 

Ah! O meu grito de revolta que feneceu lá longe,

Muito longe,

Na minha garganta!

 

Na garganta de todos os Homens

 


 

ROSA NEGRA

 

Rosa,

Chamam-te Rosa, minha preta formosa

E na tua negrura

Teus dentes se mostram sorrindo.

 

Teu corpo baloiça, caminhas dançando,

Minha preta formosa, lasciva e ridente

Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças

Em teu corpo correndo a seiva da vida

Tuas carnes gritando

E teus lábios sorrindo...

 

Mas temo tua sorte na vida que vives,

Na vida que temos...

Amanhã terás filhos, minha preta formosa

E varizes nas pernas e dores no corpo;

Minha preta formosa já não serás Rosa,

Serás uma negra sem vida e sofrente

Ser’as uma negra

E eu temo a tua sorte!

 

Minha preta formosa não temo a tua sorte,

Que a vida que vives não tarda findar...

Minha preta formosa, amanhã terás filhos

Mas também amanhã...

... amanhã terás vida!

 


 

 ILHA

Tu vives - mãe adormecida-
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som das músicas sem música
das águas que nos prendem...

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
- os sonhos dos teus filhos -
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
- terra dura -
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!
 

Fonte: Antologia Poética da Guiné-Bissau, Editorial Inquérito, 1990


 

 

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