THE SOURCE/A FONTE - MÚSICA DE INTERVENÇÃO DE EL KADYSAMI

 

From: Sandra Miot

To: didinho@sapo.pt

Sent: Monday, April 13, 2009 7:19 PM

Subject: Poemas e Música de Intervenção

 

Caro Didinho,

 

Junto a minha voz também aos nossos poetas para denunciar a situação que se vive o nosso país.  Junto segue um poema meu "Terra-Fonte", assim como um poema de que gosto muito e que também se enquadra bem com a minha canção de intervenção em MP3 - A fonte - "The Source".  O poema em questão é do nosso poeta Julião Soares Sousa e chama-se " Cantos Do Meu País ".  Também seria interessante ter um poema teu, do Toni Tcheka ou de outros.  Isso seria então uma sublime maravilha!

  

Obrigado e recebe um grande abraço do 

 

El Kady

 

N.B.  O tema "A fonte" é cantado numa panóplia de fonemas das línguas da nossa terra,  que vão do bijagó ao mandinga, passando pelo papel, o balanta, o manjaco, o biafada e o nalú.  E isto tudo misturado como a água numa fonte:  Quer dizer sem nenhum significado semântico até ao fim poema do ... em português - A Fonte. 


 

THE SOURCE/A FONTE - MÚSICA DE INTERVENÇÃO DE EL KADYSAMI

 

Terra-Fonte

 

Ah Mininos di cassa « éramos felizes e nem o sabíamos » - como diz tão bem o nosso poeta Mamadu Lamarana Bari.

 

Nessa altura saltávamos da velha ponte da rua da Casa Gouveia em Bolama

para mergulharmos no calor das águas cristalinas.

 

Dançávamos juntos nas carícias das ondas tal peixinhos-músicos  procurando

a caverna onírica  seguindo alucinados o canto térreo e mágico da Sereia Bijagó.

 

Na liberdade contagiosa da noite sem açoites ou traições

nos sentíamos pássaros criativos e livres

longe das reprimendas retrógradas

e sempre alheios às burrices dos seres apáticos ou mesquinhos.

 

Ah terra amada oh minha Bolama pequenina…

Quantas vezes contigo sonhei

nos meus prantos tristes e solitários

te querendo apenas tocar no vácuo da noite.

 

Quantas vezes minhas mãos tremendo no desejo

colocaram pétalas de caju

no côncavo do teu umbigo latejando livre e sensual nas cadências gumbé

sentindo então as carícias cúmplices dos Deuses antigos

nos visitando no clarear das madrugadas mornas.

 

Ao acordar de mansinho sem fazer barulho…

 

Bebo-te no espelho histórico de cada minuto perdido

bebo-te encharcado nos soluços duma cabaceira ardendo

nas fugazes correntes da distância

bebo-te na dança sensual duma bailarina mandinga sorrindo feliz ao sal da terra.

 

Bebo-te infinitamente…

para nunca mais te esquecer.

Para que juntos festejemos o milagre da nossa chuva sempre engravidada

mas risonha e feliz regando noite e dia as nossas bolanhas em flor.

 

El Kady

      Abril de 2009

                                                                

 

 

Cantos Do Meu País

 


Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas Américas


Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarda a chegar


Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças


Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raíz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País

                     
de Julião Suares Sousa


                               * Um novo amanhecer, 1996

VAMOS CONTINUAR A TRABALHAR!

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