Por: Daniel A. Pereira
Praia, Agosto de 04

Eis uma daquelas
célebres máximas de Cabral, aparentemente contraditória em si, mas que, no
entanto, não encerra nenhum paradoxo, antes pelo contrário deixa transparecer a
verdadeiramente dimensão e profundidade do pensamento de A. Cabral, contendo
valores hoje muito arredados da nossa sociedade.
Em
que contexto acontece essa afirmação? No da preparação para o início da luta de
libertação nacional, no início dos anos 60, numa situação em que é pressionado,
pelos mais apressados, para avançar, para ser o primeiro a começar no quadro do
conjunto das antigas Colónias portuguesas.
Porém,
Amílcar Cabral resiste a essas investidas. Ele sabe que o seu combate tinha, ao
início, a força da justiça do seu lado, o que lhe conferia, por isso mesmo,
alguma vantagem, porque os apoios internacionais seriam obtidos, tanto mais que
a conjuntura era favorável. Mas a resistência de Cabral, não era fruto do acaso
nem de alguma teimosia menos apropriada. É que ele partia do princípio, que ia
dar início a um combate que seria para ganhar.
E
não se tratava de um combate qualquer. Tinha a exacta consciência de que o
mesmo devia ser preparado, considerando o longo prazo. Não devia ser entendido
como uma corrida de velocidade, mas de fundo, logo exigia tempo e preparação
cuidada. Amílcar Cabral recusava, portanto, a facilidade enganadora e apostava,
decididamente, no trabalho perseverante, meticuloso, mas que sabia ser o melhor
caminho apesar de mais complicado e mesmo custoso.
Agrónomo de formação,
Cabral conhecia bem, que para se fazer uma colheita é necessário semear. Mais,
só se pode colher o que se semeou, quer dizer, mesmo a colheita depende do tipo
de semente que se tiver lançado à terra, da qualidade dessa semente. Nada é
fruto da fortuna. Se não se investir,
não se pode esperar recolher lucros e estes dependem, grandemente, do valor do
investimento feito, da sua qualidade.
O agrónomo, transformado
pelo estudo, pelo esforço, pela dedicação e perseverança em cientista social,
por necessidade engendrada pela própria dinâmica da luta que pretendia
desenvolver, que sabia que a teoria tem de estar ligada à realidade prática e
não desfasada dela, contrapunha, conscientemente, valores positivos, ainda que
não muito mobilizadores do ponto de vista social. Recusa o facilitismo e
envereda pelo caminho mais longo e mais difícil, porque tem a exacta medida de
que nada do que realmente valha a pena se consegue sem trabalho, sem esforço,
sem dedicação à causa, sem princípios, sem convicções.
Amílcar Cabral era um
líder nato. Não tenho presente se ele teria ou não a consciência desse facto.
Desconfio que sim. De todo o modo, o inato para Cabral não era suficiente.
Reconhecer-se que uma pessoa é inteligente não bastava. Essa inteligência tem
de ser exercitada, se se pretende ir mais longe, se se deseja ultrapassar a
mediania e a mediocridade. Ter ambição, sonhar e avançar ganhando etapas, passo
a passo, sem forçar a marcha, com cuidado, porque o objectivo não se encontra ao
virar da esquina, aí à mão, sem esforços devidamente consentidos. São
exactamente esses os princípios e os valores que faltam à sociedade
cabo-verdiana de hoje.
Revisitar Cabral, sempre
com olhos de ver, é, pois, tarefa que se impõe para nós todos, porque essa
figura continua, permanentemente, a interpelar-nos, já que o seu pensamento
continua actual e muitos dos princípios que defendeu são ainda válidos.
Pensamento actual que, no entanto, não tem sido suficientemente actuante, por
clara ausência de assunção aplicação práticas.
Os jovens de hoje, que
serão dirigentes de amanhã e a força viva da Nação, devem encarar o futuro de
forma radicalmente diferente, tendo sempre em mente que são oriundos de um país
sem recursos naturais e que a riqueza só pode ser conseguida através do
trabalho, da produção.
Impõe-se, pois, uma
mudança profunda de mentalidades. Uma nova cultura de trabalho e pelo trabalho
deve ser assumida e interiorizada como valor supremo. Cabo Verde não pode
continuar a produzir apenas 10% do que consome. A curto prazo essa realidade
será de todo insustentável.
A natureza
cabo-verdiana, desde sempre, nos desafiou, de forma permanente. Nós somos
filhos da desdita, de uma natureza ignara e madrasta. E temos conseguido
sobreviver. Imaginemos, face à realidade do nosso quotidiano, o esforço dos
nossos antepassados para termos chegado até aqui, remando constantemente contra
a maré forte das dificuldades, que pareciam intransponíveis, mas que
conseguimos superar. Bebamos no exemplo desses homens de têmpera do nosso
passado ingrato.
É mister ultrapassar a
fase da sobrevivência, que já vai demasiado longa. Temos de nos preparar para
outro tipo de combate, armados de conhecimentos mais sólidos e próprios, que só
esforço, a dedicação e perseverança construem.
Conseguir o
desenvolvimento, o bem estar que, legitimamente, reclamamos, não será resultado
do capricho mas do trabalho de todos nós, da sociedade inteira. E como estamos
num meio cristão, diria que Deus só ajuda àqueles que se propõem ajudar a si
próprios. Não é outro o significado da frase «põe a mão, que Eu te ajudarei».
Aqui também fica enaltecida o valor do trabalho para atingir um propósito.
Recusar «soluções»
imediatistas, que só na aparência resolvem os problemas. Um animal morto e em
putrefacção, não passa disso mesmo. Nenhum spray anestesiante lhe retira o mau
cheiro e o perigo que constitui para a saúde pública.
Mudança de mentalidade
que deve passar pela recusa do parecer sem ser e do ter sem merecer, que agora
se pretendem arvorar em altos valores da sociedade, mas que, efectivamente,
constituem o caminho mais curto para a desgraça, porque sem substância ou
consistência. Logo, sem constituírem nenhuma bússola. Não apontam caminho
nenhum.
Combater a intriga e a
maledicência, meios perversos e ilegítimos para atingir fins, o que faz escola
em Cabo Verde desde tempos imemoriais. Esses são métodos próprios de medíocres,
inimigos da inteligência, do trabalho abnegado, da dedicação. São cancros que
vêm corroendo a sociedade cabo-verdiana, qual erva daninha implacável, que vai
transformando em mato a cultura de poucos justos, esses sim a indicar a via do
futuro.
Combate de longo fôlego,
de coeficiente de dificuldade superior. E que poucos se dão ao cuidado de
extirpar esse mal pela raiz, porque muitos «vivem» dos seus nefastos efeitos. E
quem perde é o país, que vai sustentando, com o dinheiro de todos nós, a
escória inerte e improdutiva desta sociedade, que nada faz nem deixa fazer.
Perceber que a vida é um
percurso onde as etapas dificilmente conseguem ser queimadas é um imperativo.
Embora muitos o desejem, não se pode pretender fazer esse percurso saltando,
quais cangurus destravados e com uma vontade insaciável de chegar ao fim, não
importa os meios utilizados. A vida é uma corrida de obstáculos. Não é curso
plano. Particularmente em Cabo Verde.
Penso amiúde sobre essa
verdade. E dou-me comigo a imaginar, que são tantos os escolhos no nosso
andamento em Cabo Verde, que fico espantado quando se descobre um caminho sem
algum pedregulho para tentar impedir a caminhada. Mas atenção, se pretender
amanhã fazer de novo esse mesmo percurso, esteja certo de que já não será
igual. Alguém, entretanto, já nele plantou penedo. Há que buscar outra viela
para atingir a meta pretendida.
Infelizmente para nós, a
reflexão social no país constitui uma enorme lacuna. Pensar Cabo Verde e o
futuro é uma necessidade ingente que interessa a toda a sociedade
cabo-verdiana, independentemente da sua filiação político-partidária. É do
interesse de todos os cidadãos. Mas pensar na mira do longo prazo.
Cabral apontava-nos já a
chave do sucesso – «pensar com a nossa própria cabeça», quer dizer, imbuídos do
conhecimento e capacidade crítica suficientes, que nos permita aplicar as
terapias necessárias, depois de feito o diagnóstico dos problemas que nos
dificultam a caminhada. Não reproduzir mimeticamente o que outros nos dizem, ou
o que lemos, sem saber o porquê das coisas, como tantas e tantas vezes acontece
no seio da nossa sociedade.
Não deixar nada ao sabor
do acaso. Pôr de lado o empirismo. Estudar, investigar e aprofundar os
conhecimentos para agir com solidez e propósito; utilizar, convenientemente, os
princípios da Ciência Social, com conhecimento de causa. Evitar repetir os
erros do passado, porque se errar é humano, persistir no erro não tem nenhuma
justificação plausível. Tentar justificar o injustificável tem um nome –
desresponsabilização.
É o que mais grassa
nesta sociedade de brandos costumes, a diversos níveis. Ninguém se
responsabiliza pelos seus actos ou omissões e poucos ou nenhuns são aqueles os
responsabilizados pelos erros que cometem no exercício das suas funções. E tudo
continua como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido.
É com esse ciclo que é
preciso romper, decidida e definitivamente. A tal se estende também a
necessária mudança de mentalidades, ainda por fazer, que é urgente fazer-se. É
esse o «homem novo» de que falava, reiteradas vezes, Amílcar Cabral, um
desiderato que, infelizmente, falta cumprir, gritantemente. E o tempo começa a
escassear.
A mensagem de Cabral é,
para mim, clara: independência de pensamento e acção e preparação adequada
para, devidamente armados, enfrentarmos e vencermos os desafios do presente a
caminho da construção do futuro.
Praia, 28 de Agosto de
2004.