O CULTO DO "TORNA BOCA" PAGAMENTO DE PROMESSA
Por: Fernando Casimiro (Didinho)
08.03.2009
Na
Guiné-Bissau, o conceito do animismo é suportado essencialmente pela
superstição.
Não discordo dos que consideram o animismo uma religião, mas para mim, para que o animismo seja considerado, de facto, uma religião, importa padronizá-lo.
Há um exemplo claro que me faz situar esta questão da definição de facto, do animismo ser uma religião ou poder vir a ser uma religião em vários pontos de África sobretudo, mas também, em continentes com raízes africanas, fruto da colonização e da escravatura.
Façamos um paralelo com o nosso crioulo, criol, kriol, kryiol.
Podemos considerá-lo (já) língua, ou é ainda um dialecto?
Se estiver errado neste raciocínio comparativo em relação à língua e ao dialecto, agradeço desde já a correcção do nosso especialista, o Dr. Incanha Intumbo.
Aliás, aproveito o tema para abrir um debate sobre esta questão.
Para mim, há toda uma estruturação teórica a fazer, para que se consiga padronizar um conceito, que a partir daí, estará habilitado a dar respostas, as mesmas respostas, mesmo havendo vários significados e interpretações, mas todas elas em concordância com o conceito estabelecido.
Isso (ainda) não existe em relação ao nosso crioulo e o mesmo se passa em relação ao animismo.
O certo é que, independentemente das designações que se atribuírem ao animismo e ao nosso crioulo, ambos são referências identitárias, portanto, culturais, da Guiné-Bissau.
Ora o animismo que se pratica na Guiné-Bissau não é caracterizado como sendo uma entidade religiosa padronizada, mas sim, uma prática ancestral sustentada pela superstição. Poder-se-á dizer que todas as religiões são um misto de Fé e de superstição, mas sejamos realistas ao ponto de concordarmos também que, por exemplo, a religião muçulmana ou a religião católica estão estruturadas e padronizadas ao mais alto nível, numa expressão global, enquanto que o animismo, não atinge essa expressão.
O nosso crioulo, criol, kriol, kryiol, também representa o maior valor de comunicação entre os guineenses, mas certamente concordaremos que não está estruturado e para ser considerado uma língua, cientificamente falando, há que estruturá-lo, ou seja, padronizá-lo.
Este meu trabalho de hoje, relaciona-se com paralelismos.
Na Guiné-Bissau, é vulgar qualquer cidadão (independentemente de ser ou não praticante de uma religião) recorrer a práticas animistas, confundindo-se por isso, até que ponto a Fé e a superstição, não estarão interligados.
Tomando em consideração práticas ancestrais, bem vivas no dia-a-dia das populações na Guiné-Bissau, trago à vossa consideração um elemento chave nesta reflexão: a palavra PROMESSA, que, no contexto comparativo do que se pretende explicar e numa tradução à letra para o crioulo (especificamente neste caso), significa boca.
Fazer uma promessa - fica boca
Pagar uma promessa - torna boca
Quando a vida corre mal a alguém; quando alguém ambiciona algo que à partida não se acha capaz de conseguir de forma natural; quando os sonhos e os desejos ultrapassam o realismo das pretensões pessoais e familiares, há sempre um recurso como alternativa para a resolução de todos os problemas. A maior parte dos guineenses recorre às práticas animistas, através dos seus diversos intérpretes e produtos à disposição.
Quando se vai à baloba, lugar sagrado, vai-se de livre vontade.
Sabe-se à partida o que se vai pedir e fica-se a saber o que se vai pagar, ou regista-se o que se promete vir a pagar.
Há pessoas que fazem pedidos no local e promessas de voltar ao mesmo local para pagamento das graças recebidas. Outras, acham que o melhor é levarem para suas casas objectos que simbolizam o irã, (espírito, deus) ficando assim melhor "acompanhadas" , já que passam a beneficiar diariamente dos supostos benefícios do poder sobrenatural do irã.
A relação que se estabelece de imediato, é uma relação de compromisso e de confiança. Compromisso para pagar as graças recebidas e, confiança, na certeza de que se obterão respostas positivas aos pedidos formulados.
A tradição, nos registos testemunhais destas práticas, alerta a todos os que a elas recorrem para o efeito punitivo que um eventual incumprimento do pagamento de uma promessa pode causar, não só às pessoas que pessoalmente se deslocaram às balobas para fazer os pedidos, mas igualmente, aos seus familiares mais próximos e, até os mais afastados.
Supersticiosas ou não; receosas ou não dos efeitos punitivos no caso de incumprimento das promessas, o certo é que a maioria das pessoas paga as promessas, ou delega noutras, o pagamento anteriormente definido.
No entanto, indiferentes ou ignorando propositadamente os alertas sobre os efeitos punitivos de um eventual incumprimento das promessas, alguns são "apanhados" por uma qualquer "punição" natural, logo associada ao incumprimento das promessas com o irã.
Os efeitos psicológicos são terríveis pois por vezes os sinais da punição começam até por azares de familiares afastados, amedrontando logo os incumpridores para a necessidade de pagarem de imediato a promessa, sob risco de verem mais pessoas de família, filhos, maridos, esposas, irmãos etc. etc. a sofrerem a descarga da ira do irã!
Ao longo dos anos os guineenses aprenderam a cumprir com as promessas feitas nas balobas e mesmo tratando-se de superstição, quando quem faz a promessa não a paga, os seus familiares mais próximos, sabendo disso, fazem logo questão de pagar o que está em "dívida", cientes de que, a ira do irã é expansiva e expressiva!
Paga-se, devolve-se os objectos e acaba-se de vez com a relação, havendo ou não resultados práticos dos pedidos feitos, pois o melhor mesmo, é viver a vida com realismo e, consoante as nossas possibilidades, sem nos comprometermos com algo que provavelmente não poderemos vir a cumprir e que nos poderia custar muitos dissabores...
Com a ira do irã não se brinca e os guineenses, sabem-no muito bem...!
Nota: Este texto pode parecer sem nexo para alguns, mas tenho a certeza de que, chegarão lá, chegarão sim...
Vamos continuar a trabalhar!
A TER SEMPRE EM CONTA: Objectivos do Milénio
COMENTÁRIOS AOS TEXTOS DA SECÇÃO EDITORIAL VAMOS CONTINUAR A
TRABALHAR!
Projecto
Guiné-Bissau:
CONTRIBUTO