DIDINHO E O 25 DE ABRIL DE 1974

 

FERNANDO CASIMIRO (DIDINHO)

 

Entrevista conduzida pela jornalista Joana Carrapeto (JC) 23.03. 2009

 

 

 

JC - Onde estava no dia 25 de Abril?

Didinho - No dia 25 de Abril de 1974 estava em Bissau, cidade onde nasci a 15 de Agosto de 1961 e na qual vivi até Novembro de 1981. Era na altura estudante do 2º ciclo preparatório no CIPES.

JC - Havia conhecimento de que se preparava um golpe de estado em Portugal?

Didinho - Do que me recordo e porque me envolvia mais com pessoas da minha idade, nada indicava essa possibilidade, até porque, as forças militares e de segurança portuguesas existentes no terreno nunca demonstraram comportamentos de nervosismo ou de ansiedade face a qualquer mudança do regime central.

Entretanto, em Bissau qualquer pessoa podia ouvir as emissões da Rádio Libertação, emissora do PAIGC criada em Julho de 1967 em Conacri, com programas em português e crioulo e que ia dando conta dos avanços da luta na Guiné e, consequentemente, dos desgastes que isso estava a causar ao regime fascista e colonialista de Salazar e Caetano.

Comecei a ouvir a Rádio Libertação em 1971, tinha dez anos de idade e, apesar de os meus pais me chamarem sempre a atenção para ter cuidado e ouvir as emissões dentro de casa e em baixo volume de som, por causa da PIDE, por vezes “distraía-me” e saía com o aparelho de rádio à rua enquanto ouvia as emissões da Rádio Libertação.

O PAIGC tinha já proclamado, unilateralmente, a 24 de Setembro de 1973, a independência da República da Guiné-Bissau, reconhecida em poucas semanas por mais de 80 países de todos os continentes, bem como pelas Nações Unidas e pela Organização da Unidade Africana e, a maioria das pessoas, portuguesas ou guineenses, tinham conhecimento disso pela Rádio Libertação, tal como tiveram aquando da invasão militar portuguesa à Guiné-Conacri (Novembro de 1970), no intuito de derrubar o regime do Presidente Ahmed Sekou Touré, por um lado e, de decapitar a direcção do PAIGC, por outro, pois era em Conacri que estava sedeado o Secretariado-Geral do PAIGC; tal com também tiveram conhecimento do bárbaro assassinato de Amilcar Cabral, Secretário-Geral do PAIGC a 20 de Janeiro de 1973 em Conacri.

JC - Quando e como é que soube que em Portugal decorria a revolução dos cravos?

Didinho - No próprio dia 25 de Abril, pela voz da emissora da Guiné portuguesa.

JC - O que é que pensou nesse momento?

Didinho - Que a guerra tinha acabado!

JC - Como é que se espalhou essa notícia e como é que ela foi recebida pela população?

Didinho - Espalhou-se pela rádio e foi recebida com euforia!

JC - Quais os principais acontecimentos nos dias que se seguiram ao 25 de Abril?

Didinho - Manifestações das populações; lembro-me de que foram detidos elementos da PIDE/DGS; houve assaltos às prisões, foram libertados prisioneiros.

JC - Existe alguma história em particular que queira partilhar connosco?

Didinho - Como estudante, na altura, tinha vários colegas portugueses, cujos pais, sabia que pertenciam à PIDE/DGS, isto porque os próprios filhos gabavam-se disso numa arrogância intimidatória, não apareceram mais nas aulas.

JC - E depois da revolução…

JC - Na sua perspectiva, e no que diz respeito ao seu país, a descolonização foi feita da forma mais correcta?

Didinho - Creio que se fez a descolonização possível à medida dos conhecimentos e capacidades das pessoas com essa responsabilidade à época. No entanto, numa visão actual, reflectida e ponderada, volvidos todos estes anos, é lógico concluir-se que a descolonização poderia ter sido feita de outra forma.

JC - Principais problemas e principais vantagens no processo da descolonização.

Didinho - Para Portugal os problemas foram muitos, derivados principalmente das exigências do PAIGC no reconhecimento incondicional da independência da Guiné-Bissau por parte de Portugal. É que a Guiné-Bissau já era um país independente, reconhecido por mais de 80 países de todo o Mundo, pelas Nações Unidas e pela Organização da Unidade Africana, desde 24 de Setembro de 1973 e Portugal não podia exigir, mas sim, aceitar ou apresentar propostas conciliatórias, quanto aos pontos principais que deveriam ser abordados nas negociações para o reconhecimento de jure da República da Guiné-Bissau.

Também, verdade seja dita, Portugal vivia um momento explosivo, sem um poder consistente e carente de uma visão de futuro tendo em conta os reflexos do processo de descolonização.

Para a Guiné-Bissau, as vantagens foram muitas, se tivermos em conta os primeiros anos da independência e, em primeira linha de conta, a formação de quadros.

Não podemos esquecer, no entanto, que, após a passagem de testemunho da administração portuguesa ao PAIGC, começou o período da “caça às bruxas”, que culminou na detenção ilegal, julgamento arbitrário e fuzilamento de muitas pessoas, alegadamente por terem pertencido à PIDE/DGS e aos Comandos Africanos, força especial de guineenses afectos ao exército português e que lutou contra o PAIGC durante uma parte da luta de libertação nacional.

Essas acções foram demonstrativas da inexistência de propostas portuguesas durante as negociações para o reconhecimento oficial da independência da Guiné-Bissau, por parte de Portugal, no sentido da salvaguarda de vidas humanas que tinham representado Portugal no contexto da guerra.

Portugal falhou neste aspecto, pois deveria ter feito tudo, inclusive, dar a opção de escolha a essas pessoas de fazerem suas vidas em Portugal, ou, exigir julgamentos justos, com a presença de juristas portugueses, caso essas pessoas, continuando na Guiné-Bissau, fossem apresentadas à Justiça.

Nada disso foi feito e o pior é que muita gente presa, alegadamente julgada e fuzilada, esteve ao serviço do governo colonial português!

JC - A liberdade trouxe realmente uma vida melhor ao seu país?

Didinho - A liberdade neste caso será sempre relativa, quão relativa será a resposta em relação a uma vida melhor na Guiné-Bissau.

A independência abriu caminho para a liberdade e para uma vida melhor, de dignidade e prosperidade dos guineenses, no entanto, a ganância pelo poder, o egoísmo na partilha de oportunidades e dividendos, têm contribuído para se questionar até que ponto a independência valeu a pena, face aos inúmeros e gravíssimos problemas por que tem passado a Guiné-Bissau

Mas valeu a pena sim! Somos donos da nossa terra e no dia em que nos consciencializarmos de que unidos pelo interesse colectivo, solidários com os problemas pessoais, como se de problemas de todos se tratarem; no dia em que todos nos comprometermos com a Guiné-Bissau, veremos as reais vantagens da independência!

JC - Na sua área profissional em particular, que mudanças sentiu?

Didinho - Era estudante na altura do 25 de Abril de 1974 e continuei estudante depois da transição do poder para o PAIGC. O certo é que se em 5 séculos de colonização, Portugal conseguiu apenas formar uma dezena de quadros superiores guineenses, depois do reconhecimento de jure da nossa independência por Portugal e, aos dias de hoje, 35 anos depois, conseguimos formar milhares de quadros superiores, técnicos e profissionais, nas mais diversas áreas de actividade, muitos inclusive a exercer em Portugal.

JC - Se a revolução dos cravos fosse amanhã, nos tempos que decorrem (no ano de 2009), de que forma seria diferente?

Didinho - Já não há motivações para uma revolução como a dos cravos. A guerra colonial foi a principal causa motivadora dessa revolução.

A actual conjuntura geopolítica portuguesa também não permite qualquer acção de vulto das Forças Armadas…Por isso, a única revolução aceitável e possível nos dias de hoje, é a consciencialização das pessoas para a defesa dos seus direitos e deveres de cidadania!

 

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