A sustentabilidade da EAGB passa pela sua privatização

 

 

Edson Incopté

edson_incopte@hotmail.com

15.09.2010

A privatização da EAGB – Electricidade e Águas da Guiné-Bissau é, no meu entender e, certamente, no entender de muita gente, algo imperativo! Porém, é importante começar este artigo salientando que a discussão em torno desta questão não poderia prescindir de tantas outras quanto à situação actual do país. Isto é, não só pedir uma privatização que a guerra civil de 1998 adiou, mas também, saber argumentar e mostrar o porquê da EAGB não conseguir satisfazer as necessidades a que se propôs. Facto pelo qual a sua privatização é hoje mais do que necessária.

 

A EAGB é hoje uma empresa desadaptada às necessidades da actual sociedade Guineense. Desadaptada a todos os níveis. Desde infra-estruturas até aos equipamentos administrativos. Aliás, se existe naquela empresa algo relativamente actualizado, provavelmente, teremos de dar graças à empresa francesa EDF – Electricité de France. Empresa que geriu a EAGB até meados de 1997. Mas talvez a frase “dar graças” não seja a melhor, pois a gestão da empresa francesa não nos custou pouco. Teve elevados custos graças às comissões de gestão. Não será difícil deduzir que esses elevados custos de gestão contribuíram para o já longo desmaio da EAGB.

Recentemente, a Líbia surgiu em poses de heroína como se fosse a ponte de salvação para a EAGB e para os Guineenses. “Nós não nos sentimos bem quando estamos a viver no luxo e os nossos irmãos da Guiné-Bissau na escuridão”, palavras do Embaixador Plenipotenciário da Líbia na Guiné-Bissau, Nazil Abdul Cadry no acto da entrega da ajuda. Não vejo estas palavras como humilhação, porque simplesmente não tenho um orgulho besta. Mas como todos sabem, a verdade por vezes é bastante dolorosa.

Mas pergunto: não existe mesmo mais nenhuma alternativa, ou não se quer considerá-la?

Será que estamos condenados a viver eternamente de esmolas?

Renego esta postura de pedinte, ainda mais, quando existem soluções que podem ser bastante viáveis. E exorto o Estado da Guiné-Bissau a perceber que não é com dez mil litros de gasóleo, diários, vindos da Líbia, que conseguirá reanimar a EAGB. Senão, vejamos: e quando terminar o período que a Líbia estabeleceu, quatro meses, como será? O país volta a ficar na escuridão?!

Meus caros, a estabilidade de uma empresa é algo que normalmente se consegue com um investimento a médio/longo prazo e a Líbia certamente não custeará luz e água à cidade de Bissau por um longo período de tempo. E, se me permitem um aparte, não podemos depositar as nossas confianças num homem imprevisível que a ambição das grandes potências mundiais tirou rapidamente o rótulo de malfeitor para lhe colocar um que diz: o salvador. Fechando os olhos ao passado.

A EAGB precisa de um investimento profundo e de uma reestruturação que talvez só com a privatização é capaz de sei feito. Digo isso porque mesmo a nível de pessoal aquela empresa deixa bastante a desejar. – É fácil dizer “não há luz nem água na cidade de Bissau porque o governo não quer”, como já ouvi por aí. Difícil é explicar porque é que não falta luz nem água nas casas dos funcionários, dos seus familiares e das suas múltiplas amantes, falando de uma forma geral é claro! Alguns me dirão que estou a entrar no campo pessoal. Mas não. Porque coisa pública é coisa pública! Não brinquemos…

Como pode haver sustentabilidade/rentabilidade numa empresa quando as pessoas não pagam os serviços que lhes são prestados? E para piorar a situação, aqueles que têm água em suas casas, sem pagar, vendem essa mesma água à vizinhança obrigando-lhes a pagar a torneira. À boa maneira Guineense, paga bumba. Até existem locais onde a água é paga por cada alguidar que se enche. Que triste realidade a nossa…

Meus irmãos, a EAGB não pode prestar um serviço eficaz às populações quando se trata, em certo ponto, de uma empresa que parou no tempo! Muitas infra-estruturas remontam do tempo colonial. Aquelas que a gestão francesa tentou reabilitar, a guerra civil de 1998 tratou de as travar e ficaram por fazer. São poucos os investimentos que se fizeram nas infra-estruturas desde final da referida guerra até então. Caso esteja enganado, alguém que me elucide do contrario. Mas, desde já friso que não é preciso andar muito pela cidade de Bissau para ver casas com contadores/ligações, que são verdadeiros perigos para a sociedade. Os postes de energia eléctrica são outro perigo de morte. Basta chover para ninguém ter a coragem de tocar num poste de electricidade.

Quantas crianças não morreram electrocutadas depois das chuvas, por inocentemente brincarem junto aos postes de electricidade?! A quem se pediu explicações? É isso mesmo, ao famoso Zé Ninguém…

A rede de abastecimento que faz com que a água chegue às casas, deve estar num estado tal que uma análise mais rigorosa daria a água como imprópria para consumo. Isso para não falar da necessidade que certamente existe de restaurar todo o sistema, isto é: captação, tratamento, armazenamento, etc.

Perspectivando algumas reacções, mesmo acanhadas, sei que alguns dirão que privatizar a EAGB, nesta altura, seria um erro. Isso na medida em que a sociedade não dispõe de meios para suportar os custos que uma eventual empresa privada colocaria para assim cobrir os investimentos que necessariamente teria de fazer. Em resposta a essa argumentação, digo: – É possível ficar pior do que está? E mesmo que esse argumento impere, então porque não privatizar parte da empresa? E digo mais, mesmo em caso de uma privatização total, o Estado tem o poder de regular os preços consoante a realidade social.

Outros dirão que a EAGB não é privatizada porque o país não reúne condições de cativar o investimento estrangeiro, atendendo que os mais prováveis candidatos ao concurso de privatização da empresa seriam a EDP – Energias de Portugal e a EF - Electricité de France. A esses não perderei muito tempo a responder, partindo do princípio que conhecem a realidade. Aliás, termino por aqui este artigo fazendo-lhes a simples pergunta que o grupo Guineense Torres Gémeos fez: Afinal ba quim que culpados? (Afinal quem são os culpados?)

Estamos juntos!


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