A PRAGA DOS DITADORES!

 

Por: Fernando Casimiro (Didinho)

didinho@sapo.pt

24.06.2008

As últimas eleições no Quénia possibilitaram, entre muitas constatações, o desvendar da triste realidade em relação aos anúncios viciados que normalmente marcam as eleições em África, sempre designadas de Livres, Justas e Transparentes...

Os Estados Unidos que o digam pelo embaraço que foi felicitar o anterior Presidente queniano por alegadamente ter ganho as eleições, quando posteriormente, se veio a confirmar que as ditas eleições não tinham sido Livres, Justas, ou Transparentes.

Os desempenhos das missões de observadores internacionais nas eleições africanas nunca passaram de meras formalidades, pois a indiferença, aliada à ignorância das realidades dos países envolvidos em processos eleitorais, pelos membros dessas missões, têm sido constatações evidentes dos desempenhos insignificantes, de estratégias pré-estabelecidas do tipo: fechar os olhos, boca calada e ouvidos tapados, para no fim, uma única voz dizer: Livres, Justas e Transparentes.

 As últimas eleições no Quénia reavivaram a marca da violência pós-eleitoral em África (quem não se lembra, por exemplo, em 1992 o que aconteceu em Angola, apesar de contextos diferentes), pondo ao de cimo que, quando quem está no poder alegadamente perde eleições, numa antecipação de recurso típico dos regimes totalitaristas decide simplesmente: criar confusão, viciar os resultados oficiais, pressionando as instâncias a quem compete a contagem e divulgação dos resultados a retardar a publicação dos mesmos, forçando assim um clima de tensão que descamba em violência e permite, a quem está no poder usar a força contra os seus adversários nas eleições, tendo como argumento a instabilidade provocada por apoiantes dos ditos adversários.

Quénia foi o reavivar de memórias de outros resultados supostamente forjados e validados pela cassete reprodutora da canção "Livres, Justas e Transparentes", mas igualmente, um alerta para futuras eleições em África.

Houve países em que se voltaram a questionar eleições anteriormente realizadas, devido às suspeições havidas, mas ficou-se pela resignação.

Depois do que se passou no Quénia, havia motivos para preocupações, não fosse o Zimbabué um dos pontos geográficos com eleições marcadas depois da crise queniana, que provocou inúmeras vítimas mortais e a destruição de muitas  infra-estruturas, para depois de várias negociações e negociatas, se conseguir partilhar o poder, como se de um bolo se tratasse.

O Zimbabué,  sob a ditadura de Robert Mugabe, tirou ilações da crise pós-eleitoral no Quénia e, reclamando uma soberania que de Estado nada tem, tomou como trunfo na sua afirmação de poder o apoio consagrado que recebeu dos países africanos através da União Africana, aquando da Cimeira Europa/África de Lisboa, que fez de Mugabe uma forte referência de uma pretensa unidade objectiva em torno da organização continental.

Na altura da Cimeira Europa/África, pude escutar uma entrevista em que o antigo Presidente moçambicano, Joaquim Chissano, alegava, em defesa de Robert Mugabe, que o Presidente do Zimbabué era a mesma pessoa que tinha lutado pela independência do Zimbabué, que era uma pessoa de consenso em África, elogios e mais elogios,  etc. etc.

Nada que me espantasse, não fosse esse o discurso de sempre entre "pessoas do mesmo meio".

Não se pode chamar de ditador a Joaquim Chissano, mas pode-se referenciar o antigo presidente moçambicano como desonesto na forma como tem lidado com as crises em África, principalmente quando toca a definir personalidades e regimes.

Hoje, Chissano faz parte dos subscritores do texto que apela a Mugabe para a criação de um clima de estabilidade para a segunda volta das eleições no Zimbabué. Será que na altura da Cimeira Europa/África, não era o mesmo Mugabe quem dirigia o poder no Zimbabué?

Infelizmente, em África, quem faz parte da oposição num determinado país não merece respeito e consideração por parte de quem dirige esse país e, também, de quem dirige o poder noutros países, visto a relação entre Estados se restringir aos Chefes de Estado, maioritariamente ditadores, "velhas-guardas" que pretendem perpetuar-se no poder, bloqueando o progresso dos seus países e, consequentemente, do continente africano!

Quem, em condições normais, pode ficar indiferente às humilhações, agressões e intimidações (ao longo dos tempos) feitas à pessoa de Morgan Tsvangirai, líder do MDC, e sem dúvida, vencedor da 1ª volta destas eleições presidenciais no Zimbabué, um pacifista, que sofrendo os efeitos da violência, resistiu até decidir renunciar à participação na 2ª volta das eleições presidenciais agendadas para 27 de Junho, apresentando argumentos mais que suficientes para essa renúncia, acabando por se refugiar na Embaixada da Holanda em Harare?!

Onde está a União Africana a uma só voz para condenar Robert Mugabe?

Onde estão os Presidentes africanos defensores de bons princípios e boas práticas para condenarem Robert Mugabe?

Onde está o poder da União Africana, como organismo continental e da SADC (organismo regional), para uma acção em defesa dos direitos, liberdades e garantias de Morgan Tsvangirai e do povo zimbabueano?

O Zimbabué é ou não, um problema africano?

Uma vez mais, nós africanos, não sabendo, ou não querendo resolver os nossos problemas, ficamos à espera das Nações Unidas ou da intervenção militar de uma ou outra potência, pois ao que parece, o Zimbabué, na linha de continuidade do Quénia, estará a dar indicações "positivas" a outros países africanos dirigidos por ditadores e que em breve terão processos eleitorais, de como agir nestas situações, tendo a soberania como argumento para a não interferência nos seus assuntos internos.

Para a nova vaga de jovens africanos, o Quénia e o Zimbabué devem servir de exemplos de referência para a necessidade de se acabar , de vez, com as ditaduras em África!

A minha solidariedade para com o povo zimbabueano em geral e a Morgan Tsvangirai em particular!

 Por uma África livre da praga dos ditadores!

Vamos continuar a trabalhar!

VIOLÊNCIA PÓS-ELEITORAL NO ZIMBABUÉ

 

 

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