O NARCOTRÁFICO E A CAMPANHA ELEITORAL GUINEENSE

 

 

 

Djodji (o primeiro)

12.11.2008

Devido à minha intensa actividade profissional, decidi suspender temporariamente a minha participação directa nos assuntos do meu país. Mas, nunca deixei de ler e acompanhar, embora superficialmente, o desenrolar da campanha para a eleição legislativa na Guiné-Bissau. E, depois de ler um artigo cujo título era “Narcotráfico no centro da campanha guineense”, levei estes dias a tentar resistir à tentação de tecer comentários e manifestar a minha opinião sobre esse facto em particular.

Consta-se que o tema narcotráfico virou tema central da campanha eleitoral, com os partidos políticos a desdobrarem-se em acusações mútuas e tentativas de ilibações na colaboração com o comércio desse produto nefasto a qualquer sociedade, quanto mais à nossa pequena e pobre sociedade guineense. Mas, também consta-se que todos acusam, alguns se defendem como podem dos seus passados duvidosos, mas ninguém aponta nomes e nem se apresentam queixas formais a instituições que garantem o adequado funcionamento do Estado. É deveras preocupante, quando os partidos se esvaziam de discursos positivos e de projectos, tornando-se incapazes de aliciar os eleitores com projectos concretos que visem a mudança do país, com reflexo directo na qualidade de vida dos próprios eleitores.

Porque não estou, neste momento, em condições de acompanhar passo a passo o desenrolar de toda a campanha eleitoral que decorre no meu país, peço desde já, as minhas desculpas a qualquer partido político, se estiver a cometer alguma injustiça com estes comentários. Mas, ainda não ouvi nenhum dos líderes políticos que se encontram na corrida ao tão famigerado lugar de Primeiro-Ministro, fazer uma leitura séria das verdadeiras razões que levaram o nosso país a ser considerado uma das principais plataformas para o trânsito de estupefacientes em direcção à Europa. Não ouvi nenhum candidato a Primeiro-Ministro prometer aos jovens eleitores guineenses, aos pais das nossas crianças (flores da luta de Cabral), a criação de verdadeiras alternativas à participação e colaboração com o narcotráfico.

Caros políticos guineenses, todos os males, assim como todas as doenças tratam-se com um diagnóstico sério da situação e um tratamento dirigido. Não andem a dispersar-se com discursos fáceis, levianos e essencialmente demagogos! O que é preciso assumir, é que os sucessivos (des)governos e os seus politiqueiros falharam, nestas três décadas da nossa existência como país, na condução dos destinos do povo. O que é preciso dizer ao povo, é que nestas três décadas, o Estado, representado pelos sucessivos governos, não conseguiu criar um sistema de ensino sólido e credível, com o único objectivo de encaminhar as nossas crianças e os nossos jovens em direcção a uma formação adaptada às necessidades do país; não conseguiu consequentemente criar postos de trabalho dignos para os actuais adultos com idade inferior ou igual a trinta anos de idade.

O Estado não conseguiu criar um sistema sanitário capaz de combater, sem pedinchices, as epidemias que vão grassando no nosso país, mas consegue patrocinar juntas médicas de forma desregrada para tratamentos de situações específicas de saúde e, nalgumas situações, de doenças duvidosas.

O Estado não conseguiu criar, nestas três décadas, um sistema judicial capaz de proteger os cidadãos idóneos contra as malandrices, a corrupção, espancamentos e assassinatos públicos, nem tão pouco consegue criar mecanismos de protecção e defesa do seu território, ou ainda, criar infra-estruturas para a reabilitação dos seus delinquentes e criminosos.

O país e o povo dão-se ao luxo de serem brandos com um criminoso que ousa violar o espaço aéreo nacional e chegar a Presidente da República… Contrariamente ao que muitos apregoam, Nino Vieira não trouxe a droga para o país, com o seu regresso! Nino Vieira e os seus transportadores só podiam ter cabal conhecimento, já na altura, da ausência de protecção das nossas fronteiras e a forma como os traficantes vagueiam pelo nosso território. Só assim podiam sentir-se seguros para sobrevoar o nosso território, com um aparelho doutro Estado, sem que fossem abatidos. A anarquia já existia antes do derrube de Nino Vieira pelo Ansumane Mané. Também é preciso dizer ao povo que é preciso fazer reformas profundas e sérias na fileira castrense, ajustando-a às necessidades do país.

É certo que a lista de diagnósticos de que padece a nossa terra é longa e não termina aqui. Qualquer político sério que queira ser o condutor dos destinos do país nos próximos anos, tem de ter a coragem e a frontalidade de enumerar publicamente uma lista de diagnósticos e dizer ao povo a forma como combater esses males, um por um.

Tem de dizer ao povo com que dinheiro conta, ou seja, como vai promover a geração da riqueza no país, com que parceiros financeiros conta e quais os interesses desses parceiros para com o país. Tem de dizer ao povo que o negócio da droga só proliferou no país porque os sucessivos (des)governos não conseguiram dar essencialmente educação e postos de trabalho credíveis ao país. Quem quiser governar e combater de forma séria o narcotráfico no país, tem de saber demonstrar de forma clara, ao povo, que apenas existem dois caminhos a trilhar: a do bem e a do mal. Nós vamos estar do lado do bem e quem se optar pelo lado do mal, é um criminoso e terá todo o aparelho do Estado atrás dele. Quem quiser governar de forma idónea não pode pactuar com a promiscuidade que se propala, entre os representantes do povo e o crime organizado.

O Presidente da República está preocupado em proteger o indevido uso do seu nome e da sua imagem na campanha eleitoral, sem no entanto dizer uma única palavra no sentido de transmitir aos guineenses a garantia de seguir de perto o desenrolar da campanha eleitoral e ainda zelar para que as regras democráticas sejam cumpridas, no sentido dessas eleições serem verdadeiramente justas e livres e não se repetir o mesmo cenário pós-eleitoral que se assistiu nas eleições que o levaram à Presidência da Republica. Enquanto isso, os partidos políticos desdobram-se em demagogias baratas à volta do Narcotráfico e “dinheiro-sujo”!

O presidente do PAIGC condena publicamente “a ostentação de riqueza por parte de alguns partidos com dinheiro de proveniência duvidosa”, sem no entanto tomar medidas legais imediatas, como cidadão-político, para apurar a proveniência do financiamento desses partidos! A isso chama-se na linguagem popular levantar o pó para confundir algumas mentes. Mas não posso deixar de apoiar o seu desiderato da “reposição da autoridade do Estado na Guiné-Bissau”, que é uma das medidas que o país mais precisa, mas que não é tarefa fácil. Era importante que começasse a dizer, como pensa conseguir esse feito…

O Presidente do PRID diz estar disposto a levar a tribunal aqueles que o acusam de ser o principal responsável pela introdução da droga na Guine-Bissau!!! Era interessante esse ex-Primeiro-ministro dizer aos guineenses, ainda durante a campanha, os seus feitos enquanto condutor dos destinos do país, para combater o narcotráfico. Já que está com tanta vontade de processar judicialmente algumas pessoas, seria interessante o povo guineense saber quantos traficantes o seu governo conseguiu entregar a justiça, quantos não fugiram da cadeia e quantos foram julgados e condenados?

A coligação Aliança de Forças Patrióticas (apetece acrescentar a palavra “Populistas” à frente da última palavra que designa esse Partido!), diz que se ganhar as eleições, reactivará o processo judicial das pessoas que foram indiciadas no Ministério Público no caso do desaparecimento de 674 quilos de droga do tesouro público! Quero pedir aqui aos guineenses votantes, que pensem bem antes de votarem neste partido porque, a ser verdade esta declaração, demonstra claramente que este partido desconhece os limites entre o poder político e o poder judicial, o que pode ser mau para o normal funcionamento e a estabilidade que tanto desejamos…

Segundo o referido artigo, o demagogo e populista de barrete vermelho vai dizendo: “No meu tempo não havia tráfico de droga”. É caso para lhe perguntar de que tempo fala? Será no tempo do Ali Babá? Por acaso questionou a proveniência do financiamento que o mandou calar após as eleições presidenciais, que ele mesmo assumiu ter recebido?

O cúmulo da demagogia ridícula vem do presidente do PADEC que, através dos seus amigos das fundações e outras organizações patrocinadas pelo contribuinte português, consegue o maior destaque na página da referida notícia, com um título a vermelho “Não é admissível mandarmos drogas para quem nos ajuda”. Segundo o próprio, “o problema da droga na Guiné-Bissau está abaixo da moral de cão”. Gostaria de saber em que nível está a moral desse politiqueiro que diz e desdiz-se com uma facilidade que surpreende a qualquer um!? Agora a questão da Guiné-Bissau ser protectorado da ONU é uma forma de acordar as pessoas que estão a dormir!!! Alguém já explicou a esse politiqueiro que existem muitos guineenses que estão num estado de vigília suficiente para detectar as suas manobras demagogas? Alguém já disse a esse politiqueiro que se quiser ganhar as eleições na Guiné-Bissau tem de assumir um discurso de protecção dos guineenses e não um piscar de olhos àqueles que o protegem e que ele diz que não é justo mandar-lhes drogas? Alguém já explicou a esse politiqueiro que nós não podemos mandar droga aos seus amigos, porquanto não sermos produtores de droga? Alguém já explicou a esse politiqueiro que, por enquanto, a Guiné-Bissau apenas serve de local de armazenamento transitório e de escoamento de droga? Não somos nós que mandamos! Apenas usam a nossa fragilidade de Estado e a cumplicidade de elementos representantes do Estado para terem facilidades no armazenamento e transporte. Alguém já explicou a esse politiqueiro, com as palavras mais básicas, que a droga é má, por isso quem a produz e a comercializa não deve fazê-lo nem para o pior inimigo? Não é inadmissível apenas mandarmos para quem nos ajuda mas é igualmente inadmissível mandarmos para quem não nos ajuda Sr. Ex-Primeiro-Ministro de transição!!!

Termino aqui, dizendo àqueles que julgam que estou calado por influência directa deles, que a minha liberdade de expressão é um bem que me acompanhará para a tumba…

Djarama Contributo. 

 

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