A SAÚDE DOS GUINEENSES NA GUINÉ E NA DIÁSPORA

Prof. Joaquim Tavares

Prof. Joaquim Silva Tavares (Djoca)

joaquim.tavares15@gmail.com

05.09.2009

Editorial de Setembro

No verão de 1979, terminado o ano lectivo de 1978/1979, minha primeira experiencia como professor de matemática do 3º ano liceal.

Os meus melhores amigos Jaime Delgado e Iano (craque Ianito va a Paris) já em Portugal a tentarem a sorte como futebolistas: eu, sem futuro, dividindo o meu tempo entre a esplanada do Império, de manhã a ouvir as últimas com o “Govas” (Alberto Gomes Vaz, Algovaz, AKA, Makati), o Djudju, o Tchona, o Belmiro Pimentel, o Tchinho Centeio e muitos outros; e à tarde, a varanda da sede do Benfica, onde ficava sentado horas e horas a ver passar autocarros da Silo Diata, pensando para comigo: parece que não há futuro para ti, rapaz; sem perspectivas de apanhar uma bolsa de estudo, sem bibliotecas para satisfazer a minha curiosidade intelectual, parecia que o meu destino era ficar por aí e adiar os meus sonhos! Era nesses momentos que aparecia o Sr. Balimbário, por vezes o senhor Marcelino Cassamá, falar da necessidade de termos quadros na Guiné, falar de indivíduos que já tinham cursado (Degaulle, Viriato Pã, Pedro Cunha e alguns tantos; nesses momentos, a chama da esperança, esse bicho que se chama ambição, perseverança, começava outra vez a brilhar dentro de mim: NÃO, NÃO POSSO DESISTIR, NÃO POSSO TERMINAR AQUI, NÃO POSSO DESAPONTAR OS MEUS PAIS QUE TANTO SE SACRIFICARAM PARA EU PODER IR MAIS ALÉM….

Tudo isto a propósito de há 2 semanas, ter recebido uma carta a dar-me os parabéns, blá, blá, blá e a convidar-me a comprar uma placa comemorativa; Para mim, era mais um dos truques para obrigar-me a gastar dinheiro (mais uma Americanada, como dizem os portugueses).

Atirei a carta e o conteúdo numa gaveta para, como de habitual, colocar tudo no lixo. Felizmente, a Mashiko decidiu vasculhar na gaveta, viu a carta e foi “on-line” confirmar: sim, supostamente faço parte da lista dos America’s Top Physicians. (Entre nós, ainda penso que é mais uma forma de fazerem médicos comprar placas comemorativas, fazer dinheiro, mas o meu nome está aí na placa e não a vou deitar fora….)

Seguem 3 fotografias da placa.

Em Março, finalmente decidi aceitar o cargo de Director dos Serviços de Pneumologia e Fisiologia Respiratória do St. Martin Hospital e até agora não estou arrependido (St. Martin faz parte de uma rede de Hospitais Católicos – St. Rose Dominican Hospitals - espalhados pelos Estados Unidos; em Las Vegas, temos 3 campos e o St. Martin foi construído há 2 anos; um Hospital bem estruturado, todos os quartos são individuais/privados e penso que vamos fazer “coisas boas”). Junto vão duas fotografias: uma com os 3 hospitais que fazem parte do sistema e outra com o St. Martin.

 

 

Valeu a pena não desistir, continuar a sonhar e a batalhar, porque coisas boas acontecem com aqueles que lutam todos os dias.

Hoje, por toda a Guiné, de certeza que há jovens sentados na varanda do Benfica, no Império (Praça dos Heróis Nacionais), numa Praça em Bafatá, Bolama, Tite, Mansoa, Farim etc., a duvidarem do seu futuro, a questionarem se valeu mesmo a pena tirarem o quinto ano, o sétimo ano. A MINHA MENSAGEM É SIMPLES: MANTENHAM A CHAMA DE ESPERANÇA A BRILHAR, PORQUE NA VIDA, QUANDO PARECE QUE TUDO ESTÁ PERDIDO; QUANDO PARECE QUE OS CASTELOS DE AREIA QUE CONSTRUÍMOS EM CRIANÇA SE ESTÃO A DESMORONAR, SE CONTINUARMOS A SONHAR E A LUTAR PARA CONCRETIZAR ESSES SONHOS, O CÉU É O LIMITE…

ESPERO TER DAQUI A 10, 20, 30 ANOS, O PRAZER DE LER ESTE MESMO TIPO DE MENSAGEM ESCRITO POR MUITOS DE VOCÊS, DIRIGIDAS ÀS GERAÇÕES VINDOURAS.

BASTA ACREDITAR E PODEM VOAR…

O MEU DESAFIO: EM POUCOS ANOS, VER NOMES DE CRIANÇAS E JOVENS GUINEENSES EM PLACAS COMO AS QUE SE SEGUEM:

 

 

Continuando a correspondência com o nosso colega Guineense que tem esperanças de fazer a especialidade aqui nos Estados Unidos: nada é impossível; difícil, muito difícil, mas nada impossível; em primeiro lugar, tens que vencer as dúvidas dos teus compatriotas, acreditar em ti mesmo. Nos meus primeiros dias em New York, os comentários que ouvia por terceiros era: o que é que ele pensa? Não conseguiu fazer a Especialidade em Portugal e pensa que vai poder fazê-la aqui nos Estados Unidos?

Depois é a aclimatização com os costumes e alguns casos de preconceitos (inicialmente, os doentes quando percebem que não és Americano, estão logo em defesa (sempre a mesma antiga linha: não confio em médicos estrangeiros, não quero ser tratado por médicos cuja língua nativa não é o inglês, etc.).

Num país de pura competição, tipo lei da selva; porque como geralmente são os melhores dos melhores de cada País a competir, muitas vezes há golpes baixos…para os quais temos que estar preparados…

Os meus piores momentos foram:

1 - Período de 1998 (Guerra civil na Guiné): lutando para conseguir o meu visto de permanência, impossibilitado de saber notícias directas da minha mãe e irmãos/irmã, foi um período de desespero em que por vezes cheguei a pensar abandonar tudo…

2 - A transição de um programa de medicina interna num pequeno hospital, para um programa de cuidados intensivos que na altura era considerado o número 1 nos Estados Unidos pela US NEWS e como se vangloriavam disso! (foi como ser lançado de pára-quedas no meio da linha de fogo entre dois batalhões de comandos): trabalho intensivo, entrar às 6 da manha e sair somente no dia seguinte às 6 da tarde; apesar de termos uma cafetaria, não podia ir lá comer e tinham que me levar comida ao meu quarto de chamada (on call room); era assim o F11 (unidade de cuidados intensivos e anestesia para doentes de cirurgia cardíaca) do New York Hospital/Cornell University e Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Cada manhã, quando atravessava o Queensborough Bridge (ligação entre Queens e Manhattan no meu carro e via o imponente edifício do Hospital, vinha-me um nó ao estômago, penso que era medo do desconhecido, cada dia era um desafio, cada dia era como ir à luta (“Vida I luta, ki son morto ku ta kabal”- Capas Negras).

É nesses momentos que fazemos das tripas coração, cerramos os dentes e angariamos todas a nossa força interior, a nossa determinação de vencer; e se isso não for suficiente, invocamos Deus, Allah, Jeovah, Polon de Reno, Polon de Prábis, Polon de Djiu (e como o meu amigo Nhomba sempre me chama atenção, porque não Polon de Plubá?) para que nos ajudem a vencer.

E também ajudam as palavras de encorajamento de estranhos (ainda me lembro de uma funcionária dos cuidados intensivos, negra, nascida no Estado de Mississipi, que quando duvidava de mim mesmo, da minha capacidade de triunfar e lhe dizia que não tinha a certeza se ia conseguir acabar a especialidade, ela me dizia: Olha, há muitíssimos poucos negros que conseguiram entrar aqui e todos passaram pelo que estás a passar! Vais conseguir não só triunfar, mas ser dos melhores que por cá passaram; NÃO NOS DESAPONTES!

Por brincadeira, quando me perguntam qual é a minha religião, a minha resposta é sempre a mesma: a minha religião chama-se determinação, ambição, não desistir, lutar para concretizar os meus sonhos; não há tempo para desculpas: nasci num país pobre, os meus pais são humildes, etc. (aliás uso tudo isso como força locomotora, como arma para triunfar).

E…Ah, as letras de Armadinho Salvaterra e Músicas do Zé Carlos Schwarz (quando estava de ânimo baixo, eram eles a empurrarem-me…

 

A propósito de Reforma da Saúde, Conrad Murray, Michael Jackson:

1 - A reforma aqui é necessária; como médico, se calhar preferia que tudo continuasse como está; mas como ser humano, algo tem que ser feito; há demasiadas pessoas sem seguro de saúde e quem beneficia mais são as companhias seguradoras, os advogados e os médicos (No outro dia, recebi uma intimação para ir fazer um depoimento no consultório de um advogado, sobre um doente tratado por um colega e que morreu; esse advogado estava a representar esse colega; como pagamento por 1 hora de deposição, recebi 1800 dólares; o que me faz perguntar: quanto recebeu o advogado que provavelmente está a trabalhar no caso por meses?).

São estes casos que exemplificam a máquina esbanjadora de dinheiro que é a Saúde; os únicos que perdem são os utentes.

2 - Um aviso para colegas: não sejam médicos privados de personalidades famosas (é sempre um grande risco, porque tratamos não o doente mas a personalidade…); e usem Diprivan (Propofol) somente em sítios onde podem monitorizar os sinais vitais. Mesmo eu, com 15 anos de experiência de cuidados intensivos, com milhares de entubações, quando faço uma broncoscopia, prefiro chamar o médico anestesista para administrar o Propofol! Não sei o que o Conrad estava pensando quando decidiu anuir as exigências do M. Jackson. Apesar de não falar com ele há mais de 3 anos, ainda o considero um amigo e desejo-lhe boa sorte. Não foi o sonho que teve quando veio de Grenada!

Para terminar, vou apresentar 2 casos clínicos que exemplificam 2 situações infelizmente frequentes hoje em dia: 1- a “epidemia” do cancro dos seios (breast cancer); 2- Lidar com situações muito infortunas.

Djoca!


 

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