A SAÚDE DOS GUINEENSES NA GUINÉ E NA DIÁSPORA

Prof. Joaquim Tavares

Prof. Joaquim Silva Tavares (Djoca)

joaquim.tavares15@gmail.com

01.08.2009

Editorial de Agosto

Este editorial foi inicialmente concebido com a ideia de introduzir uma biografia sobre um dos heróis não cantados da jovem medicina Guineense.

Falei com ele esta semana, mas infelizmente não teve tempo de reunir todos os dados biográficos e fotografias para me enviar; ainda assim, o editorial segue em frente, porque conheço parte da biografia dele e o próprio Caló poderá complementar este trabalho mais tarde, dando assim aos nossos jovens a oportunidade de conhecerem mais um modelo a fim de continuarem a sonhar e a concretizar.

Quando aceitei o desafio do Didinho (Alma e Locomotiva do Contributo) para publicar a minha biografia, a intenção não foi de uma autopromoção: felizmente e graças a Deus, estou muito bem na vida, quer financeiramente, quer a nível de estabilidade familiar e, profissionalmente, não podia sonhar com melhor (desde os tempos de calcorrear os labirintos do bairro de Varela, Chão de Papel, as ruas de Angola, São Tomé e Cabo Verde em Bissau, estou extremamente satisfeito com o rumo que a minha vida tomou).

E só não digo que estou completamente satisfeito, porque penso que a capacidade humana não tem limites e posso voar sempre mais alto…

Não pretendo, nem nunca pretendi candidatar-me a nenhum cargo oficial na Guiné e se nem aqui nos Estados Unidos da América necessito de autopromoção para triunfar, definitivamente, não necessito dela na Terra que me viu nascer, onde só trabalharei por períodos de 2-3 meses como meio de ajuda humanitária.

Falo de autopromoção, porque é uma das preocupações que alguns colegas meus, médicos, manifestaram: de haver pessoas que podem pensar que se estão a autopromover, deixando publicar as suas biografias.

Aceitei o desafio do Didinho, porque quando crescemos, todos queremos um modelo (role model) com o qual nos podemos identificar (mesma cor da pele, nascido no mesmo país, na mesma cidade, no mesmo bairro…); porque a mente humana parece complicada, mas é bem simples na forma de perspectivar as coisas: publicando biografias de Guineenses que triunfaram no campo profissional, vejo jovens a ler e a pensar: se o Djoca, o Chico Fos, o Caló, o Gungo, entre outros, conseguiram o que conseguiram, se nasceram na Guiné, se são pretos como eu, se passaram pelas mesmas mazelas por que estamos a passar, PORQUE NÃO NÓS TAMBÉM?

Julgo que desta forma conseguimos transmitir motivações de geração a geração. Foi isso que aconteceu comigo (queria ser como o Chico, o Procópio, o Caló, o Abrão, o Rufino, o Azi Monteiro), assim espero que venha a acontecer com os mais jovens do que eu.

Há dias, enviei um email ao Nhomba, mandando bocas em como o Chão de Papel/Varela foi sempre o melhor bairro de Bissau, por ter produzido e nutrido históricos (urban legends) como o Djedje quiria, o Apache, o Silvano, Mário Laurentino, Armandinho Salvaterra, Papa Tchias, Walter Dayvies, Ângelo Dias (AnCoDi), Cipriano Dias (CiCoDi), Anula, Honório, Toy, Gungo, Nando Casimiro, o Budai (“esta Budai ki nos tenemos”), Djau, Gumser, Zeca Sayegh, Degaulle, Vaz Fernandes, Nildo, Rui Davyes, Duco, etc., o Nhomba, como era de esperar, ripostou logo com uma série de nomes oriundos de Sta Luzia: Zé Carlos Schwarz, Domingos Ká, Tony Boucher, Quintino Latas, Djon Capristano, Abel Djamba, Egas, Cote, Nhomba e muitos mais… Tenho certeza que o Lamarana vai ter uma palavra ou duas a dizer sobre o assunto (Pilum é melhor, etc.) OK! OK! OK! — Não me vão fazer mudar de opinião…

Foi neste ambiente que conheci o Caló: uma vez, fui ao Chão de Papel com o meu irmão Galileu provar umas calças no nosso alfaiate favorito (pai do Cassiano e do Milano) e vimos o Caló a vender, salvo erro, mancarra ou canha num beco e o meu irmão disse-me: esse é o Caló, meu colega de turma; e muitas vezes o vi a estudar à luz dos candeeiros públicos: comecei a dizer para mim: rapaz, não tens desculpa nenhum: se ele pode fazer isso e ser um dos melhores da turma, então não tens mesmo desculpas a dar (não tive tempo para estudar, não tive luz em casa, e outras desculpas, etc.).

Com o tempo, vim a conhecer a família do Caló: a mãe dele, a incansável Dona Idevige, sempre a trabalhar, sem queixas, e encaminhando os filhos/filha para terem sucesso na vida e triunfou (todos eles tiveram sucesso e ainda estão a dar cartas…). O tio dele, o Abrão, a irmã, Antonieta Rosa Gomes. A Dona Idevige exemplificou/exemplifica o sacrifício que as nossas mães tiveram que fazer para triunfarmos — nunca podemos esquecer isso.

Depois da minha breve estadia em Tomar (Colégio de Nuno Álvares) tornada efémera pelo 25 de Abril, reencontrei-me com ele em Bissau, onde com o seu espírito de liderança e eterno filósofo que sempre foi, conseguiu reunir os Onze Africanos (Mário João Burgo, Guto, Anselmo, Eu, Franklin (Ntin), Flávio, Toni Burgo, Nhama, Enceler, Zé Crato, Tado, Anselmo); Foi ainda com esta equipa que fizemos uma memorável digressão a Bolama (a minha primeira e última viagem à terra da minha única bisavó (Arqueta) de cujo nome me lembro. Depois deste período, em que só perdemos 2 jogos (um com a equipa do Bairro de Belém, bairro onde residi até à minha partida da Guiné; equipa do Toy Caballo, do malogrado Demba Sanó e do Sana) e outro, com a equipa campeã do Bairro de Pilum (com o Nhu rei), o Caló (Dr. Carlos Gomes) conclui o sétimo ano e foi estudar Medicina em Cuba, com a especialidade de Psiquiatria.

Voltou para a Guiné e começou a trabalhar nos Serviços de Psiquiatria, ao mesmo tempo que ia fazendo pesquisas. Em 1986, quando estava a terminar o meu estágio de internista em Portugal, fui passar férias à Guiné e reencontrei-me com ele: pelas nossas conversas na altura, nunca teve intenções de abandonar a Guiné, gostava do seu trabalho e sentia-se bem em ajudar os seus conterrâneos. Tempos depois, com o seu envolvimento e com a ajuda da comunidade internacional, foi criado um Serviço de Psiquiatria bem estruturado, funcionando bem (na medida do possível); depois, veio o inconcebível período medieval da Guerra de 1998 e tudo se desmoronou: toda a estrutura do Centro de Psiquiatria se desmoronou, o centro foi saqueado de materiais e mentes, incluindo o Dr. Carlos Gomes (Mais uma perda para a Guiné). Quando os interesses pessoais estão acima dos interesses nacionais, QUEM SE IMPORTA?

O Caló contou-me casos psiquiátricos originados por essa Guerra, casos que me fazem pena e raiva ao mesmo tempo. Os responsáveis desse conflito não têm ideia alguma de quanto decapitaram física e intelectualmente a Guiné: casos de pacientes com insónia (não podiam dormir porque estavam com medo de serem mortos enquanto dormiam….outros desenvolveram paranóia: pensavam que os vizinhos eram todos informantes do Nino). Quando se fala de guerras, por vezes pensamos só no número de mortos, mas a cicatriz maior está nos que testemunharam essas mortes (paranóia, esquizofrenia, depressão, etc., e as crianças, meu Deus, as crianças que testemunharam essas atrocidades: tornam-se em monstros ou sofrem de depressão grave).

 Sr. Presidente Malam Bacai Sanhá; Sr. Primeiro-ministro Carlos Gomes Jr., não vos conheço pessoalmente, mas peço-vos para que não deixem a Guiné apanhar outra vez a máquina do tempo e voltar a esses tempos: guerras ceifam vidas e deixam cicatrizes; As crianças necessitam de alimentação, escola, boa saúde e de voltar a SONHAR…

O nosso brilhante filho, Dr. Carlos Gomes (Caló, Captain) reside em Portugal a trabalhar e dando o seu contributo à Humanidade; Sei que no fundo do coração lhe doeu sair da Guiné, ele que mais do que alguns de nós, voltou de livre vontade e foi obrigado a desterrar-se em Portugal…. Definitivamente, a Guiné parece ter tendências matricidas…sabe-se “livrar” dos seus melhores filhos e definitivamente o Caló foi, é e será um dos nossos mais brilhantes contemporâneos!

Um exemplo a seguir pelos nossos jovens!

Djoca!

 


 

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