PROPOR CABRAL À NOVA GERAÇÃO

Amilcar Cabral

Por: Fernando Casimiro (Didinho)

didinho@sapo.pt

22.09.2007

Nota introdutória

Recebi há dias, de uma amiga e conterrânea, um comentário excelente na forma de motivação do debate de ideias que defendo para a busca de respostas e soluções para os problemas da Guiné-Bissau.

Um comentário sobre o meu trabalho intitulado "PROPOR CABRAL À NOVA GERAÇÃO", que merece um desenvolvimento neste capítulo que hoje escrevo.

Também aproveito para recuperar um trabalho conjunto que fiz com a Dr.ª Filomena Embaló em Agosto de 2004  "RECUPERAR VALORES MOTIVANDO A GERAÇÃO PÓS-INDEPENDÊNCIA"  por ter muita relação com os argumentos que defendo na minha proposta de Cabral à nova geração.

Procurar respostas e soluções para os nossos problemas implica não só, analisar o momento presente mas, sobretudo, percorrer os rastos de um longo percurso do passado, ainda que recente, no sentido de tirarmos ilações dos registos e pistas existentes mas, carenciados de esclarecimentos, porquanto pecarem por interpretações de conveniência e juízos fixos, pré-definidos (ou mesmo ocultados), por forma a negar a verdade de muitos factos ocorridos e, intencionalmente abafados.

O país que hoje temos é, em parte, consequência da ocultação do passado, quer na avaliação dos sucessos e insucessos do percurso libertador, quer na avaliação dos passos positivos ou negativos do percurso pós-independência até aos dias de hoje.

Para mim, a História faz-se de registos e é com os registos que se consegue estudar e compreender melhor as várias questões que se nos colocam no dia-a-dia.

A Memória colectiva de um povo simboliza o registo histórico que se deve salvaguardar de forma organizada e metódica, contrariamente ao que acontece na Guiné-Bissau, onde se continua a deixar morrer os registos à medida que as populações vão morrendo fisicamente.

Até certo ponto do nosso percurso, os registos orais eram transmitidos de pais para filhos. Hoje, fruto da globalização e de inúmeras consequências político-sociais, sendo a emigração a expressão maior dessa consequência, essa tradição está a morrer, pois os filhos já não fazem parte da comunidade familiar assumida como passagem de testemunho e, por assim dizer, dispensam a transmissão oral das tradições que, supostamente lhes seriam transmitidas pelos pais.

Se os nossos historiadores, ou aqueles que escrevem não fizerem os registos de forma científica, para que possam ser consultados, estudados e avaliados pelas novas gerações, qualquer dia corremos o risco de ver a nossa História ser escrita por outros, a exemplo do que acontece em relação à própria História de África e não só.

Temos quadros formados em História, temos Memória colectiva, mas não temos, manifestamente, nem coragem, nem orgulho e, muito menos, interesse em registar a nossa História. É triste e lamentável que hoje, a formação académica não sirva para libertar  a consciência de muitos  guineenses (com formação), do servilismo em relação ao poder, quando, tecnicamente, um historiador deve comprometer-se com a História e não com as imposições e conveniências de qualquer poder dirigente do Estado!


"...Jurei a mim mesmo que tenho que dar a minha vida, toda a minha energia, toda a minha coragem, toda a capacidade que posso ter como homem, até ao dia em que morrer, ao serviço do meu povo, na Guiné e Cabo Verde. Ao serviço da causa da humanidade, para dar a minha contribuição, na medida do possível, para a vida do homem se tornar melhor no mundo. Este é que é o meu trabalho." Amilcar Cabral - 1969

 

AS RAZÕES DE UMA PROPOSTA

Propor Cabral à nova geração é, para mim, que lanço o desafio, uma consequência natural da observação de uma realidade inquestionável na avaliação dos recursos humanos de que hoje dispomos, quer como povos: guineense ou cabo-verdiano, quer como países: Guiné-Bissau e Cabo Verde. Estou-me a referir aos inúmeros quadros formados, nas diversas áreas de formação e com diferentes graus de formação, uma realidade não presente no percurso libertador conjunto da Guiné e de Cabo Verde sob a liderança de Amilcar Cabral.

Uma realidade que nos orgulha, mas que também nos deve fazer regressar ao passado para questionarmos até que ponto Amilcar Cabral não esteve condicionado e limitado na elaboração, estruturação e desenvolvimento do seu grande projecto libertador da Guiné e Cabo Verde.

Uma realidade que nos deve fazer repensar e, aí, a razão de propor Cabral à nova geração, como seriam os nossos países hoje, tendo os quadros e jovens de hoje, a possibilidade de estudarem o legado deixado por Amilcar Cabral. Um legado deixado não só aos guineenses e cabo-verdianos, mas também, aos africanos e à Humanidade em geral.

Cabral reunia na sua pessoa diversos atributos que lhe distinguiram, brilhantemente, como um dos maiores pensadores do século XX.

É nesta globalidade de atributos e nos seus brilhantismos, que devemos apreciar e orgulhar-nos de Cabral, até porque, foi dos poucos pensadores que aliou a teoria à prática revolucionária, no terreno e, com resultados mundialmente reconhecidos na época!

A luta de libertação Nacional pela independência da Guiné e de Cabo Verde não foi propriamente o maior desafio de Amilcar Cabral. O maior desafio de Amilcar Cabral não era, unicamente, libertar os espaços geográficos da Guiné e de Cabo Verde.

O maior desafio de Amilcar Cabral era libertar os povos da Guiné e de Cabo Verde e contribuir para a libertação do homem em qualquer parte do mundo. Permitir, globalmente falando, tal como ele dizia, que "cada um pensasse pela sua própria cabeça".

A luta de libertação nacional foi toda ela um percurso de aprendizagem, tendo sempre o dia anterior, passado, como referência do dia presente (o de hoje), nas análises de Cabral. Era assim que ele conseguia avaliar os erros cometidos, projectando melhores alternativas para evitar que os erros do dia anterior voltassem a ser cometidos dias depois, ou seja, no futuro.

Cabral conseguiu unir guineenses e cabo-verdianos para uma luta comum. Dois povos irmãos, intimamente ligados por laços históricos: geográficos e de sangue, tendo a proeza de conseguir sensibilizar e mobilizar milhares de pessoas para a luta que ele defendia ser necessária como parte dos objectivos da libertação dos povos da Guiné e de Cabo Verde.

Cabral sabia que não poderia atingir os limites das suas aspirações enquanto os espaços geográficos quer da Guiné, quer de Cabo Verde, estivessem sob governação colonial. Era preciso, primeiro, lutar pela independência dos nossos países mas, em paralelo, apostar na libertação do homem guineense e cabo-verdiano, através da sua formação.

Mobilizar pessoas para uma luta de libertação nacional é uma árdua tarefa, que só mesmo enquadrada num espírito de motivação cultural, tal como Cabral definiu a nossa "UM ACTO DE CULTURA", pode redundar em êxito, isto se, tomarmos em conta que os nossos povos estavam há cerca de 5 séculos sob dominação colonial portuguesa e as poucas movimentações havidas de grupos de patriotas no sentido de reivindicar algum estatuto de autonomia ou de independência que fosse, foram logo desmanteladas à nascença pelas estruturas de segurança da máquina repressiva colonial.

Mobilizar povos sem níveis de formação escolar que lhes permita interpretar, por eles próprios as razões da sua adesão a uma causa torna-se complicado, pois implica muita das vezes manipular consciências quando o líder da mobilização não tem atributos de pedagogo e, portanto, não é capaz de informar, de esclarecer, suficiente e convictamente os argumentos que quer e deve transmitir aos seus destinatários.

Cabral tinha tanto de filósofo como de pedagogo e conseguiu chegar aos povos da Guiné e de Cabo Verde, não pela manipulação, mas por argumentos que os princípios das suas convicções lhe garantiam ser suficientemente válidos, consistentes e contagiantes para tal, como se constatou na prática.

Cabral conhecia as realidades concretas com que tinha que avançar com o projecto libertador e dentre essas realidades, uma preocupava-o e iria acompanhá-lo durante toda a sua vida: Formar e libertar o homem guineense e cabo-verdiano!

Cabral sabia que sem formação, os nossos povos jamais seriam livres!

Ultrapassada a fase da mobilização, que depois continuou por arrasto, como fruto do avanço e dos progressos da própria luta, Cabral viu-se na necessidade de formar estruturas que permitissem a convivência de pessoas, ainda que num meio distinto, de guerrilheiros, de combatentes, mas que não poderiam resumir-se a esse estatuto de forma rígida e eterna, porque de homens e mulheres se tratavam e, como tal, de potenciais geradores de famílias, que a própria luta iria precisar como seu suporte natural.

As comunidades foram-se alargando e geridas conforme as orientações estabelecidas, sendo que foi sempre, preocupação de Cabral, a criação de escolas, bem como o incentivo aos que sabiam ler e escrever para ensinarem os seus irmãos que não tinham tido oportunidade de fazer essa aprendizagem.

Cabral estava a mostrar que a libertação que ele queria passava pela formação do seu povo.

As armas de guerra eram necessárias para fazer frente às tropas coloniais e conseguir, por via disso, a independência da Guiné e de Cabo Verde (já que ignorado o pedido de independência feito de forma pacífica às autoridades coloniais), mas não eram as armas de guerra que iriam proporcionar a verdadeira independência aos nossos países e, muito menos, a liberdade aos nossos povos.

Diversos quadros foram formados durante a luta através de apoios concedidos por países amigos.

Foram importantes para a dinâmica que se pretendia tendo pessoas com mais nível de formação no percurso libertador. Duas das áreas de formação que mais contribuíram para o sucesso da luta foram, sem dúvida, as áreas da saúde e da educação nas nossas regiões, muitas delas já com o estatuto de regiões libertadas.

Os sucessos militares foram conseguidos igualmente, tendo em conta que os guerrilheiros que sabiam ler e escrever, os que já tinham até formação universitária, casos de alguns cabo-verdianos, foram formados no sentido de dominarem novas armas, que impunham conhecimentos de cálculos matemáticos e não só. Só depois de se formar esses grupos é que o PAIGC conseguiu obter, de países amigos, armas mais poderosas que, sem dúvida, foram decisivas para a libertação geográfica da Guiné e, consequentemente de Cabo Verde.

Cabral sabia que uma luta estruturada e dirigida da forma como foi o nosso percurso libertador não poderia ser acompanhada proporcionalmente pela relação entre os resultados obtidos a nível militar e, por conseguinte, na libertação de espaços geográficos e a Formação/Libertação de consciências do homem guineense ou cabo-verdiano.

Uma realidade que suportava essa constatação era a de que a libertação dos espaços geográficos seria feita pelos que estavam inseridos nessa causa mas, a libertação dos povos da Guiné e de Cabo Verde implicava uma outra abordagem para com os que não se encontrando ligados à estrutura do percurso libertador, PAIGC, e sob a liderança de Amilcar Cabral, eram igualmente parte dos povos da Guiné e de Cabo Verde. Era necessário chegar a eles. Era necessário contar com eles se, realmente, Cabral queria estar ao serviço de todo o seu povo e, não só ao serviço dos que seguiam os seus princípios e viam nele o líder da libertação da Guiné e de Cabo Verde.

Cabral sabia igualmente que, mesmo definindo as estratégias de formação para a libertação de consciência dos nossos povos, essa estratégia estaria limitada e condicionada à reprodução dos valores de formação num conceito de formar, por exemplo: os melhores dez para que esses melhores dez, posteriormente conseguissem formar trezentos e por assim fora. Esta era, para mim, a estratégia de investimento adaptada à realidade de então, que Cabral introduziu como processo de formação alargado às regiões libertadas.

Era uma estratégia válida, mas Cabral sabia que a realidade no futuro seria; institucionalmente, o Estado criar condições de formação do homem guineense e cabo-verdiano, fora do contexto específico do processo libertador, que aliás, era uma etapa, que concluído deveria dar lugar a novas estratégias, tendo como metas a formação para o desenvolvimento!

Hoje questiona-se onde falhou Cabral, tendo como referência os maus exemplos de governação desde as independências da Guiné e de Cabo Verde.

Se a Guiné-Bissau teima em desvalorizar a libertação do homem guineense, Cabo Verde tem sabido abrir espaços para a aceitação dessa libertação, o que vai ao encontro dos desígnios de Cabral e, consequentemente, temos duas realidades distintas que, poderiam, no entanto, ser melhor ajustadas ao brilhantismo dos ideais que Cabral nos deixou.

Cabral deve ser questionado mas, não em função do comportamento dos seus seguidores, que ao não traduzirem correctamente o legado que ele deixou, mostraram simplesmente que não eram seus seguidores, ou foram-no apenas até à libertação geográfica da Guiné e de Cabo Verde!

Mas os falhanços na interpretação e no aprofundamento do legado de Cabral residem, essencialmente, na ausência da continuidade de formação permanente e auto-assumida por cada um de nós, como processo evolutivo da nossa própria afirmação como homens e mulheres comprometidos não com Cabral, mas com os nossos respectivos povos e países.

Propor Cabral à nova geração é sugerir que se dê oportunidade aos jovens, aos novos valores, quadros com formação, capazes de uma melhor e mais abrangente interpretação, de conscientemente tirarem as devidas ilações à grandiosa obra de Amilcar Cabral que, não se resumia única e exclusivamente à libertação geográfica da Guiné e de Cabo Verde mas, acima de tudo, à libertação do Homem guineense e cabo-verdiano, do Homem africano e da Humanidade em geral.

Se o percurso libertador teve sucesso com a carência de recursos humanos com formação, mas que, souberam assimilar os ensinamentos de Cabral, pelo menos até às independências da Guiné e de Cabo Verde, seria interessante, que os jovens com grandes potencialidades nos dias de hoje, lessem e estudassem Cabral, tal como o fazem em relação a filósofos estrangeiros de renome.

Cabral foi reconhecido mundialmente, mas fomos nós que depois disso o relegamos ao esquecimento.

Poderíamos estar hoje num outro patamar de desenvolvimento.

A Guiné e Cabo Verde, bem como toda a África e a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) poderiam elevar o nome de Amilcar Cabral e orgulhar-se da sua referência perante o mundo.

Alguém está realmente interessado e empenhado nisso?

Não!

Sabem porquê?

Porque Cabral nasceu num país pequeno que se dá pelo nome de Guiné-Bissau e era filho de pais igualmente nascidos num país ainda mais pequeno que se dá pelo nome de Cabo Verde!

Proponho aos nossos jovens da Guiné e de Cabo Verde que leiam e estudem Cabral, pois encontrarão no seu legado a chave para os problemas dos nossos países.

Encontrarão no legado de Cabral a verdadeira tese da libertação dos nossos povos!

É preciso ler e estudar Cabral para se conhecer o Homem e a sua Obra!

Vamos continuar a trabalhar!

Amigo Didinho


Que mais dizer sobre Amilcar Cabral que já não tenha sido dito?!


Eu sou da geração cujos pais  participaram activamente na luta da libertação nacional ao lado de Amilcar Cabral, daquela geração que foi obrigada a nascer fora do território da Guiné-Bissau porque  os nossos pais eram personas não gratas na sua própria pátria (o que não faz de nós, menos guineenses), daquela geração a quem foi incutida  a ideia  de que os maus, os assassinos e os ladrões dos bens do povo eram os colonialistas portugueses.
E que a luta que o Amilcar Cabral e seus companheiros estavam a encetar era para acabar com tudo isso e trazer dias  melhores ao Povo Guineense.
Eu acreditei nessa luta, e acredito que se Amilcar Cabral estivesse vivo esses objectivos seriam, possivelmente, atingidos, dado o seu amor à Pátria, ao seu Povo e pela sua extrema capacidade de trabalho, o que na minha opinião falta aos nossos actuais governantes, entre outras incapacidades. 

Didinho, pergunto-me hoje várias vezes: valeu a pena a independência? Que valor é dado às inúmeras vidas perdidas em nome da independência? Onde foi que o Amilcar Cabral errou ao transmitir os seus ideais aos combatentes da liberdade da pátria, actuais altos dirigentes da nação, para que depois da sua morte tenham tomado um rumo diferente daquele pelo qual lutaram?!
Propor Cabral à nova geração é uma árdua tarefa para quem quer que seja, porque perante o rumo que o nosso país tomou, o comportamento dos nossos dirigentes, combatentes da liberdade da pátria, como convencer a essa  nova geração que a luta que Cabral perpetrou foi para o bem de todos os guineenses: mais e melhor nível de vida, de educação, de saúde, de emprego e de liberdade de expressão, se tudo isso tem tido significados antónimos na Guiné-Bissau?!
Mas há que ter esperança no futuro, e viva Amilcar Cabral.

Aquele abraço


Sara Paquete

12.09.2007

 

Recuperar valores motivando a geração pós - independência

 

Filomena Embaló
Fernando Casimiro

Agosto de 2004

A motivação é o complemento positivo (tónico) indispensável à participação activa (maior desempenho) das pessoas, nas várias áreas de intervenção nas sociedades a que pertencem. Recuperar valores motivando a geração pós - independência, é uma abordagem com regresso a um passado recente à procura dos nossos falhanços: causas e consequências, ajudando a encontrar respostas para os mesmos. A geração pós - independência é a geração que fazia acreditar Cabral, que o futuro estava garantido. Uma geração de jovens que, entre o período de 1974 a 1984, respondeu PRESENTE! ao desafio da jovem nação. Uma geração que, com ou sem independência, (proclamação 1973) - (reconhecimento 1974), seria útil para a nova fase estratégica do PAIGC. Utilidade que a nosso ver, Cabral não quis debater no seio do partido, para não comprometer a eficácia da luta de libertação e,  quiçá, as independências da Guiné e de Cabo Verde.

Esta utilidade poderia ser enquadrada em duas situações distintas, pontual e objectivamente.

Numa primeira fase e enquanto as independências da Guiné e de Cabo Verde não fossem realidade, ainda que em 1972 houvesse já uma resolução das Nações Unidas a legitimar o PAIGC como único e legítimo representante dos povos da Guiné e de Cabo Verde, encarar-se-ia a possibilidade dum aliciamento maciço de jovens guineenses e cabo-verdianos com habilitações literárias suficientes para garantirem as suas entradas em universidades e institutos superiores de países amigos que apoiavam a luta do PAIGC. Esta seria a nova aposta de mobilização que Cabral teria necessariamente que fazer, de forma a preparar o PAIGC com quadros técnicos habilitados para a nova fase da luta que se avizinhava e que seria a  fase da edificação dos Estados da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

Se  é verdade que o PAIGC, mercê da sua estruturação e ao criar  a Escola Piloto em Conacry pretendia preparar o futuro, apostando na formação de quadros  capazes, não menos verdade seria encarar a realidade circunstancial da luta de libertação que condicionava em parte a qualidade da formação de base dos potenciais futuros quadros.

Cabral contava com os seus meninos e meninas da Escola Piloto, mas sabia que era em Bissau que estudavam guineenses e cabo-verdianos em abundância e que estavam  numa fase explosiva, própria do despertar de consciência. Era preciso aproveitá-los. Estrategicamente, era a Guiné que oferecia condições para a passagem dos jovens para o lado dos camaradas, ou seja para as zonas libertadas. Os que não saíssem de Bissau poderiam ser orientados em células do partido para funções de desestabilização e desmotivação das autoridades e estruturas coloniais no terreno.

Entretanto, a marcha do tempo reservou para o ano de 1973 duas marcas de referência obrigatória na história do processo de libertação que iriam pôr de lado a primeira das duas situações que atrás se referiu sobre a utilidade desta geração pós – independência: as marcas de 20 de Janeiro de 1973 (assassinato de Cabral) e 24 de Setembro do mesmo ano (proclamação unilateral da independência da Guiné-Bissau ).

O processo de libertação chegaria ao fim na Guiné em 1974 e Cabo Verde em 1975, com a passagem de testemunho pelas autoridades portuguesas ao PAIGC. 

Para toda a juventude que exultava com as independências, tinha chegado o momento de serem úteis  tanto à Guiné, como a Cabo Verde. E serem úteis significava passarem por uma fase de colaboração no terreno, durante os primeiros anos após a transferência de poderes para o PAIGC. Foi assim que muitos jovens, que tinham já finalizado os estudos liceais e outros em fase adiantada, passaram a leccionar em vários estabelecimentos de ensino, ajudando a minimizar os efeitos da falta de professores habilitados. Outros, ainda, foram orientados para departamentos governamentais, dentro da política de colaboração patriótica que possibilitava posterior obtenção de bolsa de estudo para formação no estrangeiro. Sem uma definição objectiva, sem uma política nacional de aproveitamento dos referidos jovens, seguiu-se a política de formação em países amigos, como vinha acontecendo desde os tempos de luta, com os alunos saídos da escola piloto. A palavra de ordem era: Formar, formar, formar. Se é verdade que era uma necessidade legítima, não menos verdade seria o facto de se justificar uma ampla acção de debate na definição de políticas de orientação para o desenvolvimento da Guiné e de Cabo Verde, tendo como base os valores humanos de que dispúnhamos. Cabral não estava mais presente  e os seus seguidores não conseguiam encontrar interpretações correctas a dar ao processo de construção dos dois Estados independentes da Guiné e de Cabo Verde.

A primeira desta geração e após  cinco a seis anos de formação no estrangeiro, voltou à Guiné ou a Cabo Verde, numa situação de ruptura do órgão dirigente nos dois países, o PAIGC, em 1980. É esta ruptura do PAIGC, consequência do “desaprender” da sua classe dirigente que depois das independências da Guiné e de Cabo Verde se esqueceu dos ensinamentos de Cabral e deu o pior dos exemplos a uma juventude que se confrontava com uma sociedade em mutação, mutação essa implicando mudança de mentalidades (com a passagem de uma sociedade colonial a uma sociedade soberana e africana virada para o desenvolvimento).

  Findo o projecto traçado por Cabral e com o “virar de costas” dos dois países e povos irmãos e a criação dum outro partido em Cabo Verde, o PAICV, terminava também a orientação conjunta na gestão e aproveitamento dos recursos humanos da geração pós – independência. Uma orientação e gestão com saldo negativo, no que ao aproveitamento dos valores dizia respeito e que ainda hoje se verifica.

  A abordagem ao tema continua a sua análise com incidência na Guiné-Bissau, por razões da própria continuidade do PAIGC na condução dos destinos deste país e portanto, continuar a haver um indicador de referência para o desenvolvimento do tema.

  Se é verdade que se formou muita gente nas várias áreas técnicas e científicas por exemplo, o mau enquadramento dos mesmos arrastou toda uma geração que prometia, para uma situação de desmotivação e para o consequente desacreditar das suas reais oportunidades de participação activa e positiva no desenvolvimento do país. Com efeito, pouco ou nada foi feito para estimular os jovens quadros, uma vez regressados ao país. A garantia imediata de emprego no Estado, praticamente o único empregador nos primeiros anos do pós independência, era o único factor positivo para o aliciamento dos recém formados, pois não houve uma política do Estado voltada para a criação de um mínimo de condições básicas de vida. Por exemplo, na capital, a maioria dos quadros não oriundos de famílias privilegiadas da “praça” de Bissau teve que se contentar com alojamentos precários nos bairros suburbanos da cidade, sem água canalizada e luz eléctrica. É certo serem essas as condições do país, que de meios dispunha poucos. Mas  não admitir que uma solução poderia ter sido encontrada, no sentido de dar condições minimamente condignas àqueles sobre os quais repousava o futuro do país, foi um erro crasso. E como prova disso, constatou-se um regresso cada vez menor ao país dos quadros formados nas gerações seguintes.     

  Em termos de enquadramento profissional, pecou-se também pelo baixo grau de exigência de aplicação dos quadros (seria por se saber que nas condições em que viviam era desumano exigir-se-lhes mais?...). Este facto explica-se, em parte, pelo próprio nível da equipa dirigente, que, tendo cumprido valorosamente a sua missão na libertação do país, não estava apta a assumir os comandos de um Estado numa concepção moderna do termo. Infelizmente, o pós independência se caracterizou por um “repouso do guerreiro”. Os dirigentes, salvo raras excepções, não sentiram a necessidade de continuarem a aprender e de se prepararem para a nova fase da luta. Como poderiam nessas condições dinamizar equipas técnicas e exigir delas um desempenho rigoroso? Esse desleixo acabou por criar uma cultura de pouco rigor laboral, a tal ponto que o quadro que exigisse ou que tentasse executar o seu trabalho com a maior perfeição possível era imediatamente acusado de ter “ a mania de branco”. Era o alvo a abater, pois o nivelamento se fazia por baixo.

  As reformas económicas (certo necessárias, mas inadaptadas e incorrectamente concebidas, tendo em conta o tecido socio-económico do país nessa altura) iniciadas na década de oitenta, trouxeram também um outro factor de desmotivação dos quadros pela coisa pública. Na verdade, a rápida baixa do poder de compra do funcionalismo levou a que os funcionários em geral e os quadros em particular se vissem na necessidade de se dedicarem a actividades paralelas a fim de completarem os seus vencimentos, tornados insuficientes para o sustento familiar. Aos poucos, essas actividades foram-se revelando mais rentáveis e passou o salário da função pública a ser o seu complemento... Nestas circunstâncias, o trabalho do Estado passava, sem dúvida, para segundo plano.

  E, enquanto isso, o que acontecia com a classe dirigente? A abertura económica deu lugar a uma corrida desenfreada ao negócio lícito ou ilícito, pouco importava. A sociedade urbana passou a conjugar-se na primeira pessoa do singular, em plena contradição com o resto do país, cuja sobrevivência só era garantida por o sujeito permanecer solidariamente colectivo. Se aqueles que vieram da Luta, que hastearam a bandeira da justiça e da igualdade, deram esse exemplo, o que se poderia esperar da nova geração, que apesar de estar armada com diplomas, não conseguia garantir a sua subsistência? Longe ficaram os ensinamentos de Cabral!

  Com o mudar da sociedade num tal sentido, depressa também se alterou a escala de valores de forma a legitimar-se a política do salve-se quem puder. A honestidade passou a incomodar, por ser acusadora e a corrupção tornou-se  uma forma legítima de ser e estar por ser a única a garantir a sobrevivência.

  Num contexto destes, o que se pode esperar das futuras gerações que apenas conheceram este estado de coisas? Como dizer aos jovens que o futuro de cada um e do país está no trabalho honesto, sério e rigoroso de todos?

  Sendo que as novas gerações são formadas pelas precedentes, a mudança terá que vir dos que estão actualmente na vanguarda dos destinos do pais. É pela sua tomada de consciência da responsabilidade que têm na gestão do futuro da Nação, que deverá despertar o germe da transformação das mentalidades.

  O estado actual do país não permite mais tergiversações nem erros, sob o risco de se aprofundar a crise até a um ponto de não retorno. Não é da comunidade internacional que se deve esperar o milagre. Ele tem que vir de dentro! De dentro de cada indivíduo que se quer cidadão responsável; de cada cidadão a quem foi dado o privilégio de aprender a ler e a escrever, bases incontornáveis da evolução do conhecimento humano. E esse milagre supõe a mudança de atitude de cada um perante o interesse colectivo. Pensar em si, pensando no país e não pensar no país pensando em si, eis a chave da mudança! Isso equivale também a posicionar-se numa perspectiva de desenvolvimento a longo prazo, sem o qual o bem-estar individual não pode ser duradouro. Essa tomada de consciência é, pois, também uma prova de inteligência daquele que compreenderá que o seu enriquecimento pessoal isolado não passa de uma ilusão a curto e médio prazo.

  Como o declinar dos valores da sociedade não aconteceu por si só, uma vez que ele foi a consequência de todo um processo que teve na origem a degradação das condições de vida, o recuperar dos mesmos deverá, necessariamente, assentar numa melhoria das condições de subsistência. Porém, estas só poderão vir com o desenvolvimento económico do país, que proporcionará a cada cidadão o indispensável para a sua sobrevivência. E aí está-se perante um círculo vicioso, em que só a vontade política da mudança é o factor determinante para o ponto de partida. E tal como o mau exemplo viera das classes dirigentes, compete à actual direcção do país dar o bom exemplo, exigindo, a si mesma e ao aparelho administrativo, honestidade, rigor, eficácia e disciplina na gestão das coisas públicas.

  Só assim ela será credível aos olhos da sociedade e poderá resgatar as gerações vindouras de um futuro sem amanhã.

  Como diz o ditado e bem “ ora qui garandis di cassa ta tchami, fidjus tudu ta nornorí”... (*)

 

    (*)Tradução literal: “Quando os pais são bêbados, os filhos nascem engelhados”. Pode-se equiparar ao ditado português “Tal pai, tal filho”

 Agosto de 2004

 Filomena Embaló

 Fernando Casimiro (Didinho)

 

 

Por: Fernando Casimiro (Didinho)

didinho@sapo.pt

12.09.2007

Amilcar Cabral

Hoje, 12 de Setembro, se Amilcar Cabral fosse vivo, completaria 83 anos de vida.

Trago de novo à vossa consideração a mensagem do ano passado, pois continuo a achar que é importante propor Cabral à nova geração tanto na Guiné como em Cabo Verde!

De homenagens pontuais, duas vezes por ano (as datas de nascimento e do seu assassinato), se reforça a ideia de que Cabral foi esquecido pela maioria dos seus seguidores, se é que realmente de seguidores se tratam.

A herança que Cabral deixou e que importa reclamar, deve ser motivo de estudo por quem se interessa pelo pensamento humano e as suas repercussões na sociedade.

Importa passar o testemunho da responsabilidade de transmissão da sua mística às gerações intermédias que, por sua vez devem propor Cabral à nova geração, num ciclo visando a difusão dos ideais do pensador e combatente que ele foi.

Tenho ouvido muitas promessas no sentido de se relançar Cabral mas, infelizmente, não passam de promessas.

Saibamos valorizar o legado que Cabral nos deixou!

 

www.didinho.org