BACIRO DABÓ EM ENTREVISTA AO INDEPENDENTE 

UMA OPINIÃO

 

Por: João Carlos Gomes*

João Carlos Gomes

19.04.2007

Caro Didinho,

Venho pela presente pedir os teus préstimos no sentido de esclarecer uma das questões que abordaste no artigo sobre o empossamento do novo governo da Guiné-Bissau.  Trata-se do seguinte:

1. Do artigo cuja cópia acabo de receber, consta que numa entrevista concedida pelo actual Ministro do Interior, o Sr. Baciro Dabó que o mesmo teria afirmado ter sido dele a iniciativa que culminou com a assinatura do Acordo de Abuja.

2. Como todos devem ter notado, desde a publicação do meu livro, 'Polon Di Bra', sobre a infeliz 'Guerra Civil de 1998-1999' que, como profissional da informação, tenho mantido um silêncio quase que absoluto quanto à situação na Guiné-Bissau.  Tal silencio, alguns têm-me dito, é preocupante, visto que fui uma das testemunhas vivas do dia-a-dia da guerra.  No entanto o silêncio de alguns, sejam quais forem os seus motivos pessoais, não dá direito a vazão de outrem, nomeadamente no que respeita a assuntos tão sérios como é o caso da importância de certas informações e dados essenciais sobre a nossa história, sobretudo para as gerações vindouras.

3. Eu estou incluído na lista de cidadãos guineenses altamente preocupados com o facto de que grandes homens com conhecimento profundo da nossa historia estão a desaparecer todos os dias sem deixar algo de escrito que possa permitir ao resto da sociedade guineense tomar conhecimento de como chegamos aonde estamos.  Aqui, estou a pensar não só em homens como: Francisco 'Tchico Te' Mendes, Victor Saúde Maria, Fidelis Cabral D'Almada, António Borja, José Carlos Schwarz, Jorge Ampa, entre outros, já falecidos, mas também: Lúcio Soares, Umaru Djalo, Manuel Saturnino da Costa, Paulo Pereira de Jesus, Carmen Pereira, e mesmo o Presidente Joao Bernando 'Nino' Vieira, entre outros.  Todos estes camaradas têm obrigações para connosco, os seus descendentes e outras gerações de guineenses que hão-de vir ocupar os nossos lugares, décadas ou séculos mais tarde.

4. Dito isto, também estou contra aqueles que decidem tomar crédito onde não é devido, apenas por que quem de direito decide, por razões que não têm que ser explicadas aqui, não o decide fazer.  Não sei se na verdade o Sr. Ministro Baciro Dabó fez as afirmações em questão, embora não duvide do texto publicado que dá a conhecer o teor da entrevista, ou, se as suas declarações foram mal interpretadas.  Mas, quanto a este assunto tão sensível - a iniciativa que desabrochou na assinatura do Acordo de Abuja - apenas quero dizer o seguinte e, de forma bem categórica: Não foi o Sr. Ministro Baciro Dabó quem deu o primeiro passo.  Não tenho problemas em ele utilizar termos tais como: 'participação', contribuição, 'assistir'.

5. Embora infelizmente muitos guineenses tenham perecido nessa guerra infeliz, ainda estão vivas várias pessoas de muita responsabilidade, existem informações e dados concretos que poderão vir a constituir elemento de certificação de muita coisa que teve lugar durante a guerra.  Alias, o Sr. Ministro Baciro Dabó sabe muito bem lá no Palácio da República, onde estávamos todos regularmente, quem era quem durante a guerra, sobretudo entre 'tchutchiduriss' e 'pagaduriss di fugu' (incitadores e apaziguadores).

6.  Assim sendo, quero pedir ao Sr. Ministro Baciro Dabó, se na verdade fez tais declarações ao Independente, que as desminta imediatamente, através deste site do colega Fernando Casimiro.  Se não as fez, peço-lhe o favor de publicar um esclarecimento quanto ao assunto nos próximos dias.  Caso contrário, vou pedir desde já a todos os órgãos de informação, nacionais ou estrangeiras que o queiram fazer, que proporcionem um fórum cujo objectivo será pura e simplesmente de trazer à luz certos dados com o único objectivo de corrigir informações que amanhã se poderão converter em material histórico de importância capital para o nosso povo.

7. Para que não repitamos os erros dos nossos mais velhos, peço aqui de novo, como alias já tinha feito na noite do lançamento do meu livro em Bissau - com o apoio bastante apreciado da comunicação social local e internacional, incluindo a RTP-África, e, em Portugal com o apoio bastante apreciado da RDP-África que muito amavelmente disponibilizou as suas instalações - exorto mesmo a todos os guineenses de boa vontade a escreverem o mais que puderem, e dentro das suas capacidades e possibilidades, para que uma das histórias mais bonitas do Continente Africano não caia no esquecimento.  Aqueles que o queiram fazer mas que não têm os meios ou as capacidades técnicas para tal, podem contar com o meu apoio e, estou seguro, o de muito mais gente de forma a oferecer às nossas crianças e outros, a oportunidade de saber o que que aconteceu de Morés a Madina do Boé, Cassaca e Quitafine.

8. Finalmente, quero aqui deixar bem claro que a mim não me interessa a politica.  Não sou politico, nem pretendo ser, ainda.  Mas obviamente, para a profissão que escolhi, negar a mim mesmo uma participação, ainda que discreta, não é uma opção.  Trato a todo o mundo com respeito porque a mim me ensinaram bem cedo que a melhor forma de angariarmos o respeito dos outros é começar por demonstrar respeito pelos outros.  Daí que, a partir do momento que um individuo é nomeado, tenho por principio tratá-lo com o respeito que é devido a todos aqueles que são designados para representar a autoridade de que tanto o nosso pais necessita.  Para haver ordem, e, até prova em contrário, temos que respeitar as estruturas tal como elas existem, quer concordemos quer não, daí o meu tratamento de 'Sr.' ao Ministro Baciro Dabó.

Muito obrigado.

*Escritor/Jornalista

Nova Iorque

 

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