À atenção do Dr. Ramos Horta

 

Dirijo-me a si, Dr. Ramos Horta, pelas declarações que proferiu à agência Lusa, em que, como enviado especial da CPLP para a Guiné-Bissau, o Sr. indicou algumas sugestões para a solução da  crise que se vive nesse país. O Dr. Ramos Horta, como jurista que é e, se estiver de facto a par da situação de crise institucional e não só, que afecta a Guiné-Bissau, saberá melhor do que eu, que à partida não se pode confiar que o processo eleitoral seja transparente, como disse nas suas declarações, pelos motivos que são do conhecimento geral e, que remontam de há muito tempo e, chegados a esta parte, ainda não foram solucionados. Refiro-me obviamente a situações de natureza Constitucional, em que os órgãos de soberania se resumem ao presidente da República, pois, a Assembleia Nacional Popular foi dissolvida, o governo e os tribunais existem, mas são instrumentos de poder do presidente da República, que nomeou por decreto presidencial, tanto o governo, como o Supremo Tribunal de Justiça. Já que a CPLP, quer dar o seu contributo para viabilizar o diálogo político entre o governo (que governo...?!)e a oposição, aconselho-o a levar na bagagem assuntos pendentes que nem as Nações Unidas conseguiram pressionar para que fossem ultrapassados. Estamos a falar da promulgação da Constituição e das eleições para o Supremo Tribunal de Justiça por exemplo...Outro ponto das suas declarações que merece discórdia da minha parte é quando o senhor  diz que a Comunidade Internacional tem todo o direito de exigir eleições sérias e transparentes, mas também tem que assumir que sem um compromisso sério em apoio económico, vamos voltar à instabilidade. Prosseguindo, o senhor compara os problemas da Guiné-Bissau, meu país, aos problemas de Timor-Leste, seu país recordando que, apesar dos votos livres e democráticos que ocorreram em Timor-Leste, foi necessário todo o apoio internacional para viabilizar essa experiência democrática. Ora, deixe-me dizer-lhe que, a teoria da dependência económica dos chamados países pobres, é o principal obstáculo ao arranque para o desenvolvimento desses países. Não podemos programar os nossos países em função dos apoios que chegam ou não da Comunidade Internacional. Se nos ajudarem, melhor ainda, mas temos que ser nós a dar passos, criar alternativas, dentro das nossas possibilidades, para tentar sair da crise. Muitos países ditos pobres deixaram de apoiar as suas agriculturas por exemplo, criando situações de miséria e fome, só para beneficiarem das ajudas externas, que até se faz questão, seja em dinheiro...A Guiné-Bissau, sempre teve apoio económico da Comunidade Internacional e é natural neste momento, que esses apoios estejam condicionados devido à situação de ilegalidade Institucional vigente no país. O povo da Guiné-Bissau, Dr. Ramos Horta, teve um percurso exemplar na sua luta pela independência do jugo colonial e não é a primeira vez que vai a votos...Apesar da situação de menosprezo em que o poder político coloca os guineenses, este povo continua a caminhada para a sua emancipação e maturidade, pensando sempre que, primeiro tem que ser ele próprio a dar os primeiros passos e, segundo, tem que ser ele próprio, o primeiro a acreditar nas suas capacidades. Dr. Ramos Horta, vá primeiro constatar os factos (aproveito e mando “mantenhas” aos meus concidadãos).E, no seu regresso, sim, diga tudo o que fez ou não fez, o que viu ou não viu, isto apesar de uma semana ser pouco tempo para viabilizar qualquer diálogo político. Então, pode ser que eu volte a escrever para fazer um elogio pela sua contribuição no processo eleitoral em curso na Guiné-Bissau. Desejo-lhe boa viagem, óptima estadia, bom trabalho e bom regresso.

 

29-07-2003 19:11

A vida só tem sentido se, para além de nós, outros também puderem viver...

 

Ler,Reflectir,Transmitir...Esta é a mensagem.

FERNANDO CASIMIRO (Didinho)

 

www.didinho.org