ROBERTO SOUSA CORDEIRO
NÃO ME CANSO DE
ESPERAR - COLECTÂNEA DE POEMAS
ERA UMA VEZ
As horas são odiadas
Horas marcadas para encontros e afazeres
Meu pulso sem relógio
Minha parede sem relógio
Os meus relógios estão quebrados
É ciúme das horas e dos tempos
Que me levam a voar no espaço
Ao encontro de amigos e amigas
Meu porte está vetado de amigos
Que chamam e marcam horas para voar
Horas de encontro para chat
Horas de encontro para brindar
Horas de encontro para baile
Saio para perguntar a terceira pessoa
Que horas são? Favor!
São 11 horas, 13 horas, 17 horas, 20 horas
A resposta dependendo do momento
Momento da luz e da escuridão do dia
Momento em que eu saia da toca
Não são controlados
Apenas o horário da ida e volta
Toda vida é controlada
Corpo e alma sob controle
Até os líquidos que jorram do tronco
Recife, Maio de 2009
DEMOCRACIA
Veio uma tempestade forte
Derrubou o muro de Berlim
Era a chegada da democracia
Tempestade democrática
Uma onda assustadora
Trouxe ressurreição dos ditadores
Tempestade cheia de catanas e bazucas
Que matam o povo de cor
É dificuldade de lidar com esse modelo
Modelo imposto pelo ocidente
É a aura da liberdade
Que o politiqueiro contamina com a libertinagem
Pobre da cultura democrática
Lá vai povo para escolher
Termina escolhendo o + corrupto e o + astuto
Escolhe o Doutor traidor
Escolhe PhD em malandragem
Escolhe Especialista em cilada
Escolhe aquele que é matchu
Matcho assassino
Matcho rato (rouba em casa do povo)
Pela ganância e frustração do poder
A democracia é dolarcracia para a família
A democracia é símbolo de três V (Viagem, Viatura e Vivenda)
É vida!!!
Vida que toda gravata quer!
Até farda quer essa vida
Ou morreremos todos
Ou viveremos livres
Livres para viagens
Livres para compras
Compras de vivendas
Compras de viaturas (Hummer, BMW, Prado, etc.)
Reis de mulheres
Cassa duz i colega di si fidju
Cassa tris i mindjer di si amigo
É quiri no badjudas tudo
Badjudas bida bedjus antis di é nobu
Recorde é aquele de cassa dozi
Impressionantes governantes!
Kin ki ka mama pa i sinta
É dança de cadeira
Sou órfão!
Estou de luto
A mãe Guiné assassinada
Na esperança de ser adotada pela outra Pátria mãe
Na esperança de ter alguém para enxugar o meu pranto
De relance fiquei aliviado e esperançoso
Lembrando-me do velho ditado
Baka ku ka tem rabu, Deus ta banal
Mas há ainda bombas a arrebentar
Era voz da farda mensageira
Messias no reino de quartelismo
Recife, Julho de 2009
MILITARISMO
Estado de bagunça
Longe de diálogo
Política militarizada
Mandjuandadi de déspotas
Quero teu abraço consolador
Meu anjo protector
Estou numa praia de sangue
Estou no dilúvio de sangue
Esperando a arca de Noé
Enquanto esperar
Só quero ver estrela verde
Políticos fardados
Militares engravatados
Relação de interesse pelo poder
Que absurdo!
Mas é realidade
É uma relação perigosa e mortífera
É como aquela de serpente com fogueira
Uma amizade dessas é briga
Não dura
Uma Mandjuandadi dessas é uma merda
I’m sorry pela xingadela
Mas já xinguei
Xinguei todo africano desonesto
Xinguei todo africano oportunista
Que não quer o bem-estar africano
Que não quer o avanço africano
A minha caminhada está decepcionada
Estou podre de ouvir promessas
Estou cansado de escrever sobre actos nocivos
Assassinatos, perseguições, golpes, nepotismo etc.
Aonde vamos?
Estou cansado
Mas a minha pena não cansa de poetizar
Ela ainda está cheia de tinta poética
Já está impura a estatueta de Cabral
Era sangue de poeta sujando estátua de poeta
Eram poeta e músico indefesos
Sem batalhão
Querendo golpear o Estado
Que incrível!
É inacreditável!
Violão em sua toca
Lá foi golpeado
Cantando seu funeral
Poeta em viagem
Foi golpeado antes de poetizar seu funeral
Ainda golpeados eram tidos de golpistas
Que incrível!
É inacreditável!
Recife, 18/06/2009
É HORA DE “BOCA IAM”?
Dizem que a mãe Guiné já tem filho chileno
É guineense chileno?
General Pinochet guineense?
Aquele que promete explodir bombas?
É hora de boca iam?
Jamais teremos medo de Generais que se matam!
Talvez o nosso porte físico seja neutralizado pelo vosso químico tiro
Mas a nossa resistência é imortal. Temos herdeiros!
É hora de tiro à idéia contrária
O nosso projeto é alvo de tiro: Didinho
Que adversários covardes!
Ao regressar à mãe Guiné
Alguém teve idéia de levar porta blindada para a sua residência
Eu levarei corpo blindado, trajes, sapatos e bonés blindados
Obs. Escrito em homenagem ao Didinho.
Recife, 18/06/2009
POEMA É MEU CONSOLO
Nunca sonhei lagrimar poema
Era uma voz de um amigo
É hora de poetizar
Eita! Que bom ter amigo!
Longe de poema
Como me poderia desabafar?
Como poderia implorar o bem da mãe Guiné?
É hora de poetizar
Quando é hora melancólica
Aí vem amigo poema me abraçando
Consolando-me: hão de chegar os dias ditosos!
Quando é hora de pensar em paraíso sem querer morrer
Aí bate em mim a voz do profeta poesia
Calma amigão! O paraíso vem após a morte
Recife, 19/06/2009
HERÓIS SÃO CRIANÇAS AFRICANAS
Hipócrita mundo ocidental
Oportunista primeiro mundo
Somos do terceiro, quarto, quinto,... e do infinito mundo
Não queremos + armamentos (fonte da vossa riqueza)
Não queremos + dólares (fonte da nossa corrupção e matança)
Meu caro Ocidente!
Traga canetas e livros para as nossas crianças
Olhe para moleques morrendo de fome
Elas querem o seu direito: escola, saúde, lazer e djanta ku cia
Elas querem aprender a dizer A, B, C, D, ...
Elas querem aprender tabuada
Olhe para seus olhares de tristeza
Olhe nas caras delas
Não são olhares de melancolia?
Não são olhares de socorro?
Olhe os corpos delas
Elas não estão desnutridas?
Olhe as barrigas delas
Elas não tão com fome?
Ê ta cume son um tiru
Elas são crianças heróis
Trabalham como papai e mamãe
São grandes comerciantes
Pois, ao aurorescer o dia
Lá vão elas com pães, bananas, mancaras e milhos
Lá vão elas com donetis, sorvetis, cuscus e panguetis.
Em troca de grana
Grana para compra de arruz
Arroz para bianda na família
Viva! Viva crianças africanas!
Vocês são moleques heróis
Heróis no seu parquinho lixeiro
Heróis no bosque de chefes velhacos
É Guiné sem diamantes
É Guiné sem petróleos
Se tivesse tudo isso
Lá estaria a base militar ocidental
Força de paz para resolução de conflitos
Cedo teríamos padrinho ocidental
Caro Primeiro Mundo!
Não traga armamentos
Armamentos que matam crianças
Traga medicamentos
Traga alimentos
Alimentos para Lázaros crianças africanas
Tem gente morrendo de fome!
Tem gente morrendo de fome!
Tem gente morrendo de fome!
Aonde?
No terceiro mundo
Quantas delas?
Mais de um bilhão!
Recife, 18/06/2009
OLHAR DE OLHOS FECHADOS
Já vi olhos fechados enxergando
Não apenas as margens da natureza
Os raios dos seus olhos enxergam a beleza do horizonte
É doloroso viver sem amigo sábio
Sem olhos que enxerguem os nossos defeitos
Saudade da sua melodia poética
Saudade da sua lábia adoçante
Que gostoso passar na sua escola de prudência
Que gostoso escutar a melodia do seu conselho
Era energia do meu cansaço
A minha peregrinação está cheia de companheiros
Poucos amigos na minha peregrinação
Entre poucos nessa senda peregrina
Acredite que é um dos mais valiosos
Aliás, melhor dos melhores amigos
Pouco que aprendi na sua escola de vida
É tão precioso quanto um diamante
Está guardado no cofre do meu coração
Só não é teu próximo o homem apaixonado do mundo
Que não descobre o valor da sua pobreza física
Que não descobre o tesouro da sua sabedoria
Poema de vida está em sua lábia
Em cima da sua asa poética
Quero viajar até ao paraíso
Que as nossas mãos mantenham-se unidas
O meu juramento é ser fiel às suas líricas
Nas quais aprendi a trovar versos sobre versos
Nas quais aprendi a ser humilde
Da sua sobrancelha para cima
No íntimo da sua cachola
Lá está o segredo da sabedoria
Recife, 17/12/2005
VAMOS CONTINUAR A TRABALHAR!
Projecto Guiné-Bissau: CONTRIBUTO