A GUINÉ-BISSAU PELA REFERÊNCIA DOS SEUS FILHOS

Por: Fernando Casimiro (Didinho)
16.09.2007
Hoje, tenho a honra e o prazer de vos apresentar o Professor Mamadu Lamarana Bari, um guineense que foi bolseiro no Brasil a partir de 1981, tendo por lá ficado por razões que ele próprio explica no seu Memorial. Razões fortes, muito fortes e que estão, igualmente, na base de muitos outros casos de guineenses que não regressaram ao país após os seus percursos de formação no estrangeiro.
A Guiné-Bissau, pelos sucessivos governos, nunca soube valorizar o seu potencial humano; a sua maior riqueza e, mais do que isso, nunca conseguiu criar um clima de liberdade de pensamento e de acção para os seus filhos na sua própria terra.
Semeou-se e tem-se colhido frutos da ditadura, sendo que formamos quadros que ao invés de servirem o nosso país, servem países que lhes dão garantias de evolução na carreira, estabilidade a todos os níveis e Paz!
Continuamos a perder, remando contra a maré, teimando nos velhos e bárbaros métodos de intimidação e perseguição dos nossos irmãos que pensam diferente, esquecendo-nos que com todos os seus filhos unidos na mesma causa, a Guiné-Bissau hoje poderia estar entre os mais bem posicionados do grupo de países africanos, na lista do índice de desenvolvimento humano, ou temos dúvidas sobre isso?!
A sequência de apresentação de referências nacionais vai continuar, não só por uma questão de orgulho nacional, mas, igualmente e, acima de tudo, para incentivar mais guineenses a deixarem a indiferença de lado e a participarem com as suas ideias e opiniões no processo de mudança que deve merecer o quinhão de todos nós!
Juntos podemos mudar positivamente a Guiné-Bissau!
Vamos continuar a trabalhar!
|
Meu caro Compatriota Didinho, Mantenhas para quem luta. Parabenizo o seu trabalho e a sua divulgação sobre a Guiné-Bissau. É claro que a verdade dói, mas devemos encará-la com honra e coragem. Isso é salutar porque faz parte da luta de contrários. É a partir dela que se constrói algo de bom. A democracia é boa porque precisamente nasce do oposto pensar. Nós não somos donos de uma verdade única. Há verdades. Por isso eu digo e continuo afirmar que precisamos ter coragem para aceitar ideias contrárias. O contrário não significa inimizade, mas desafio para provar que também queremos ajudar a construir ainda que a nosso modo. A sua luta é nos esclarecer os fatos que acontecem nos bastidores políticos e sociais. Informar é acima de tudo libertar o homem da desinformação e de todas as formas que escravizam a mente. É, também um ato cultural. Nesta base, estou prestando um serviço cultural a este prestigiado site. Um abraço Mamadu Lamarana Bari 13.09.2007 |
"Tenho clara minha vontade de não ser apenas profissional da reflexão ou agente burocrata do saber, mas de buscar na reflexão, no conhecimento, formas de reorientação de minha vida prática".
Prof. Dr. Mamadu Lamarana Bari
![]() |
Nascido em Bolama em 15 de maio de 1952. Fez seus estudos primários em Bissau e Bolama. Formou-se Professor na antiga Escola de Habilitação de Professores de Posto de Bolama. Concluiu os estudos Liceais no Liceu nacional Kawame N'Krumah. Professor e Diretor de várias Escolas Primárias em Bafatá e em Bissau, entre 1971 e 1978. Assessor Técnico e Chefe de Setor da Direção-Geral de Relações Econômicas Internacionais do Ministério da Economia da Guiné-Bissau entre 1978 e 1981. Graduado em Economia pela Universidade Católica do Salvador-UCSal em 1985; Mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia-UFBA em 1991; Doutor em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa-UFV-MG em 1997. Atualmente é Professor Tiular e Diretor do Centro de Pós-Graduação e Pesquisa Visconde de Cairu e Presidente da 4a. Região da Academia Brasileira de Ciências Econômicas, Políticas e Sociais
"A nossa vida é constituída de fatos passados que marcam o presente e nos faz vislumbrar o futuro, por isso o Poeta tem razão ao dizer que tudo vale a pena se a alma não é pequena".
|
|
Sede do Comité de Estado da Região de Bolama - Imagem Agosto de 2007 © Guiné-Bissau: CONTRIBUTO
"A tinta de um sábio é muito melhor que o sangue de um mártir. A sabedoria é a luz. É nesse sentido que toda a minha vida foi pautada nesses ensinamentos, herança dos meus avôs e pais. É nessa base que pretendo contribuir para a formação de professores e pesquisadores".
PRECISA-SE ALGO DIFERENTE
Precisa-se algo diferente Que da diferença Implante algo Nas terras com nascentes Do sonhado País resplandecente
A Guiné terra de Djagrás[1] A Guiné terra de Príncipes dos Impérios Mandingas Ainda que rapidamente, mas também de Clãs Intelectualizados dos Reinos de Futa-Jalon A Guiné do sonho Paigciano
Precisa-se fazer algo diferente pela Guiné Que nos braços do mar adentro disfarçados de rios Possam adentrar ventos de mudanças Rumo ao progresso e desenvolvimento.
Precisa-se fazer algo nas terras da Guiné A Guiné, Portuguesa, de outrora Que mal dos braços do Morfeu saíra Se tornara enclaves: Enclave Linguístico Enclave Político Enclave Territorial Enclave Econômico
Precisa-se realmente fazer algo diferente Para que a Guiné volte a brilhar resplandecente Como a lua prateada Na mansidão das águas de Bolama-Bijagós Bolama Capital, Bolama berço Encontro de culturas e de interesses econômicos Em antigamente Ulisses Grant que o diga.
Bolama que nascera portuguesa Mas de repente se vira inglesa Confiada à sorte de uma madrinha Leoa. Bolama que mal acordara do Pesadelo de ter que responder a Quem não conhecia sobre o que não sabia Fora esquecida sob vãs promessas.
Guiné, a sorte da mãe solteira Se assemelhara a da filha Bolama Abandonada à sua sorte. Guiné e Bolama, mãe e filha em busca de sonhos Outrora sonhados em dias que pareciam de sorte. Na verdade algo de diferente precisa-se. Será que esse algo ainda está longe de chegar?
Guiné-Bissau, N´dei san[2], quantos dos teus filhos Vistes partir do canal de Geba Em busca de dias melhores, Ou de Bissalanca Em busca de uma Europa promissora.
Guiné Paigciana Quantos dos teus filhos Se embrenharam nas matas Sob promessas de luta Para autodeterminação e independência
Chegou esse dia. Mas valeu a pena? Ainda que se dissesse Tudo vale a pena quando a alma não é pequena Olhar para trás não trouxe recompensa. É só constatar o presente Onde estão os teus filhos? Intelectuais, Professores Universitários, Empresários, Altos Executivos dos Organismos Internacionais etc.
Ah! Guiné, quantas vidas Foram ceifadas no teu chão Ontem e hoje sob vãs promessas Da ideologia de libertação: Libertação política Libertação de preconceitos Libertação contra as injustiças sociais
Frustrações ou ainda há esperanças Apesar de tudo, contudo Precisa-se fazer algo pela Guiné Para os que de costas viradas estão Possam voltar E de cabeça erguida Possam ajudar a erguer as esperanças perdidas E, a partir delas possam soerguer A Guiné, social, política e economicamente.
A reconstituição deste tecido político e social é de todos nós Portanto, queiramos esquecer as indiferenças E fazer das nossas diferenças a síntese Da nossa aproximação, do nosso entendimento E do nosso Progresso. Não importa o grau de divergências político-ideológicas A Guiné tem que ser Guiné e nós somos guineenses
Só assim algo novo estará feito.
Vivam todos Viva a Guiné
Salvador-BA, 20 de Setembro de 2005
Mamadu Lamarana Bari Membro da Academia Brasileira de Ciências Econômicas, Políticas e Sociais. Titular da Cátedra nº 335.
|
|
|
Cine-Bolama - Imagem Agosto de 2007 © Guiné-Bissau: CONTRIBUTO
MEMORIAL
Mamadu Lamarana Bari
Apresentado ao Departamento de Ciências Sociais Aplicadas a Agronomia da Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia em Cruz das Almas/BA, para o Concurso Público de Títulos e Provas para o provimento de Cargo de Professor Titular, em Ciências Humanas e Sociais.
1999
A ALLAH,
pela força espiritual que sempre recebi Dele.
A meus pais, Mamadu Bari e Mariama Djaló,
pelo amor e pelo apoio que sempre me deram.
A Iara, Raiana e Lamin, pelo amor, pela dedicação
e por tudo que representam para mim.
À Guiné-Bissau e ao Brasil, pelo reforço da amizade
e da cooperação técnica e cultural
que une os dois países.
![]() |
página
1. Memórias/memorial: a busca da interseção 5
2. Memórias/memorial: das origens ao horizonte do ser 7
2.1. Os meus primeiros tempos: da infância a adolescência 9
2.2. O tempo de aprendizado para a tarefa mais nobre do saber:
o magistério 13
2.3. A vida político-militar 15
2.4. A experiência nova num país novo 17
3. Os meus primeiros passos na academia: da graduação ao
pós-graduação 20
4. Pesquisa: marcas de uma trajetória 23
4.1. A pesquisa de doutoramento 23
4.2. Os desdobramentos esperados da tese de doutoramento 27
4.3. Pesquisa individual e em colaboração 28
5. A experiência profissional 33
6. Tempo de magistério Superior: um reencontro com a velha
militância nos idos de 70 35
7. Congressos e seminários 37
7. Títulos do memorial
8. Curriculum vitae
1. Memórias/memorial: a busca da interseção
“...Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Fernando Pessoa.
Pela primeira vez em minha carreira escrevo um memorial. Desafio nada fácil. As etapas da minha vida estão circunscritas nas fases por que passam e passaram o meu país - Guiné-Bissau – na sua busca de autodeterminação e independência. Como encontrar pontos de interseção entre memórias, expressão viva de minhas vivências e um memorial, prova documental sobre a qual serei argüido? Entrego-me a essa tarefa com maior prazer do que simples escrever ou produzir textos científicos sem minimizar estas outras atividades porque este documento nada mais é que um relato vivencial de tudo que fui e sou. Não chega a ser a obra prima de D. Pablo Neruda “Confesso que Vivi”, mas um relato dos tempos da minha vida. Lembro-me da minha declaração pública aos meus pais sobre o que pretendia ser no futuro. “... vou estudar até tirar o curso de Salazar”. A liberdade de ser e de fazer sempre foi o maior dos meus desejos não só por fazer parte dos princípios da educação do Africano - auto-estima, arte de criar etc. - mas também por conviver com a situação que nascia dos apelos das forças democráticas no mundo. Liberdade, liberdade..., direito de ser, de pensar e de conduzir o próprio destino. Essas são as razões que me ligam à vida acadêmica. É na academia que sinto essa liberdade, a liberdade de pensar e de gerar conhecimentos. Razão por que eu abandonei a promissória carreira política na Guiné-Bissau depois da independência. É nesse sentido que escrever o memorial faz-me (re)nascer a esperança, talvez pela possibilidade que vislumbro de fazer o concurso de titular e ter maior liberdade de pensar e de criar.
Liberdade de poder desvencilhar-me pelo menos parcialmente, da estafante burocracia que amordaça o cotidiano universitário. Liberdade de poder dedicar-me mais e melhor aos meus orientandos e as minhas pesquisas. Liberdade de viver mais intensamente a memória - sonho, sem vê-la como ameaça ou como séria competidora da memória-trabalho.
Impossível ser narrador à distância da minha própria trajetória intelectual. Descartada qualquer pretensão de objetividade imparcial, sinto que o maior desafio está em como falar de uma história heterogênea e muitas vezes complexa, como um linear arrolamento de participações, projetos, auxílios. Furto as palavras de Vera Botta Ferrante que em seu memorial de livre docência apresentado à FCL, Unesp cita: “O tempo que perpassa o fazer acadêmico não é, certamente, uma linha homogênea e vazia”. Persiste uma certa tensão na tarefa de lembrar/repor meus diferentes tempos. Explicável, porque não tomo como elementos estruturantes desse memorial conceitos ou categorias analíticas de um exercício teórico. Ele é literalmente produto de vontade de ser e de fazer expressão de emoções, e de vivência. Sem temer o convívio com os meus desejos e irrealizações, entrego-me com maior tranqüilidade à tarefa de falar da interseção entre minhas memórias e o presente memorial.
Escrever sempre foi para mim um imenso prazer. Provas orais, exposição pública de meus pensamentos, entrevistas, foram desafios que em alguns momentos na minha vida tive que enfrentar. Medo de tropeçar nas palavras e na minha ansiedade. Mas a convivência nas salas de aulas e apresentação de trabalhos nos congressos ajudaram a superar esse medo.
Nesse reencontro com minha memória, é como se eu entrasse em mim sem pedir licença, e sem medo de evidenciar os pontos pouco desvendados da minha trajetória, buscando ultrapassar o espaço do trabalho e falando de outras dimensões de minha vida.
Escrevo esse memorial ao final de mais uma etapa da minha vida, sem sentir-me em um circuito fechado.
2. Memórias/memorial: das origens ao horizonte do ser
Um memorial pode se reduzir a elencar feitos memoráveis do ponto de vista acadêmico. No entanto, torna-se impossível dissociá-lo de uma outra história, de uma outra memória, reaparição do feito e do ido, das marcas às vezes inconscientes que o cercam. Trabalho de reflexão sobre a experiência vivida. Escolho o relato de fatos que me foram significativos. A nossa vida é constituída de fatos passados que marcam o presente e nos faz vislumbrar o futuro, por isso o Poeta tem razão ao dizer que tudo vale a pena se a alma não é pequena. Em alguns momentos, senti necessidade de individualizar os fragmentos da memória, em outros de falar da minha vivência na Guiné-Bissau e no Brasil, dos meus passos acadêmicos. Na análise retrospectiva de minhas pesquisas dos últimos anos, de um lado, busco satisfazer meu lado “objetivista”, mas reconheço que o mesmo não está isento de crivos individuais e da minha própria concepção de como pensar a relação universidade/pesquisa.
Escrever um memorial é sair em busca de informações presentes e passadas, algumas dessas informações muitas vezes são esquecidas no tempo, por isso a tarefa exige muito, implica na nossa exposição interior. Sem o trabalho de localização de documentos, atestados, papéis esparsos e até perdidos, talvez o memorial nem pudesse completar-se. Nesse garimpo de papéis, é como se estivéssemos burilando, lapidando o tempo. Os documentos são resgatados sob o comando da memória do trabalho. Em muitos casos, não há propriamente escolha. Elenca-se tudo o que foi completado e feito em um amplo leque de atividades didáticas, de pesquisa, de orientação, de assessoria. Entretanto, a maneira escolhida para falar desses dados é singular, faz parte do meu universo de lembranças.
O balanço que faço de minha relação com o meu país – Guiné-Bissau - não é repassado de nostalgia, revolta, descaracterização de sua importância em minha vida. Sinto saudades e ternura dos tempos que vivi nesse país, assim como sinto saudades dos meus companheiros de infância e da luta para a sobrevivência política e intelectual. Havia em nós o germe de uma plenitude a se realizar, uma força latente. Não havia o constrangimento dos limites.
Lembrar dos meus primeiros tempos na Guiné-Bissau, tempo político, de estudante e profissional é lembrar-me da minha primeira aula de Corão, dos olhares de admiração dos meus colegas que ansiavam esse momento e dos membros da comunidade islâmica que aprovavam a atitude do meu pai de caminhar o seu primogênito para o seio dos alunados da escola corânica. Tudo acompanhado com pompas e cerimônias religiosas. Também implicam lembrar da primeira alfabetização em português, os primeiros contatos com fonemas da cartilha maternal João de Deus[1]. Lembrança do período da inconfidência, das fugas para as florestas do país para mobilização e preparação da população para a revolução. Lembranças de prisões, torturas e da chegada maciça dos contingentes militares portugueses. Esse período despertou em mim a conscientização e a politização sobre a ocupação estrangeira no país. A revolução e a militarização da Guiné-Bissau marcam o período da transumância forçada da população guineense para fugir dos flagelos da guerra que se alastrava por todo o país. Ainda encerram em mim as lembranças do tempo do curso de magistério primário, o tempo de ser professor, as tentativas de aceitar as teorias pedagógicas do dominador em detrimento do pensamento crítico do dominado sobre o seu existencialismo enquanto homem, cidadão que sempre fora negado pelo colonialismo.
O tempo pós-independência representa o período marcado pela ascendência profissional e também pelas frustrações políticas. O tempo de vida acadêmica no Brasil da graduação a pós-graduação representa para mim o período de concretização dos sonhos vividos desde a minha primeira declaração de que iria estudar até tirar o curso de Salazar[2]. O tempo de ser professor universitário e pesquisador marca um novo ciclo entre o sonho e a realidade. Tenho o sentimento gratificante de ter investido em mim e de ter respaldado a minha formação profissional na eterna busca de conhecimento. Segundo os Hadices[3] o Profeta Maomé (saw) dizia que o conhecimento devia ser procurado mesmo que fosse na China e para isso tivesse que se viajar no lombo de um jumento. A tinta de um sábio é muito melhor que o sangue de um mártir. A sabedoria é a luz. É nesse sentido que toda a minha vida foi pautada nesses ensinamentos, herança dos meus avôs e pais. É nessa base que pretendo contribuir para a formação de professores e pesquisadores.
2.1. Os meus primeiros tempos: da infância a adolescência
Nasci na Guiné-Bissau, na cidade de Bolama, a primeira capital do país, no ano de 1952. Durante os primeiros seis anos de vida fui submetido à vida errante entre Bolama e Bissau pelos meus pais que estavam residindo em Bissau, mas sem se afastarem da antiga capital. Bissau se tornara capital por razões político-militares e administrativas uma vez que a Guiné tem sido sempre o palco de resistência dos nativos inconformados com a ocupação colonial.
Aos seis anos de idade, por decisão dos meus pais, fui matriculado na escola corânica. Nessa escola, de acordo com a tradição islâmica africana, o indivíduo era educado não só para aprender os preceitos religiosos, mas também para aprofundar o seu conhecimento nas áreas de letras e ciências, preparando-se assim para se integrar a sociedade dos letrados muçulmanos.
A decisão dos meus pais preferirem inicialmente a escola corânica em vez da escola portuguesa (ocidental) vem das frustrações políticas e morais que a sociedade ocidental colonialista passava para a sociedade africana, sobretudo a islamizada, essas frustrações constituíam por assim dizer os choques culturais. Essa decisão também era respaldada no conceito que se tem sobre o aprendizado e o modo como a cultura ocidental era passada aos povos colonizados. Ë importante fazer um pequeno parêntese para lembrar que antes dos colonizadores europeus chegarem à África os árabes já tinham passado por aquele continente, onde em contato com alguns impérios poderosos, nomeadamente o de Mali e o de Ghana, fundaram vários centros de estudos teológicos e de Letras, entre eles os da cidade de Timbocutu, hoje situada na fronteira de Níger e Mali, dois países africanos subsaharianos. Os povos africanos islamizados já tinham contatos com os ideais da liberdade, igualdade e fraternidade, ideais esses inspirados nos ensinamentos islâmicos. Por essas razões passam a haver choques quando os novos ideais, confrontados com os antigos, estiverem dissociados dos princípios mais sublimes de uma sociedade democrática sustentada no tripé, liberdade, igualdade e fraternidade. A colonização nega esses princípios por estarem em contradição com os objetivos da expansão das influências culturais, comerciais e militares da Europa com relação aos povos do além-mar. A religião cristã que acompanhou a expansão colonial portuguesa na África deixou-se trair pelas vãs promessas dos políticos e empreendedores portugueses de levarem a civilização e a Fé para os pagãos do além-mar. É nesse sentido que a igreja se viu forçada a abdicar dos ensinamentos de Cristo para defender a nobreza portuguesa e os empreendedores das viagens marítimas. Essa abdicação aprofundou a dissociação entre os ensinamentos dos Evangelhos e os interesses coloniais na África.
Meu pai, mesmo ciente dos choques existentes entre as duas culturas, achava que a minha geração e a geração vindoura necessitariam ampliar o horizonte do conhecimento. Ainda hoje me lembro das palavras proféticas do velho Bari. Um dia, deitado numa rede sob uma frondosa Coleira[4] disse: “... chegará um dia em que as gerações se unirão em torno de um ideal. Nessa ocasião, só terão vez àqueles que entenderem ontem que o mundo amanhã será a integração de ideais e de interesses, se não prepararmos os nossos filhos para essa ocasião, eles sentirão na pele os reflexos da mudança e nos culparão do descuido”. O velho não conhecia o fenômeno globalização nos termos em que hoje se apresenta, mas já antevia que a evolução das sociedades levaria à conjugação de esforços para minimizarem as perdas a fim de que os ganhos pudessem continuar do lado dos favorecidos. Tudo é um jogo, tem que se saber jogar. Nesse contexto, após ter concluído o primeiro grau da escola corânica pude ser matriculado na escola portuguesa em Janeiro de 1962. Foi uma experiência agradável. Lembro-me que logo no primeiro dia eu saí correndo pelo bairro, soletrando o abecedário e dizendo para todo o mundo que já sabia ler em português. Esse período não só me marcou culturalmente, como também politicamente. Foi o período das mobilizações políticas para a autodeterminação e independência. As rádios dos países vizinhos independentes, na ocasião, (Senegal e República da Guiné ex-francesa) transmitiam as palavras de ordem e discursos políticos dos principais expoentes da política africana da época, exaltando a liberdade, a união africana e a independência econômica. Os discursos eram intercalados de músicas tradicionais africanas, cujas melodias arrancavam do fundo da alma os sentimentos da liberdade e do nacionalismo aos radiouvintes. Naquele momento o sentimento de nacionalismo sobrepunha a quaisquer outras vozes interiores. As reuniões entre jovens e velhos eram freqüentes, de dia e de noite, nas partidas disfarçadas de futebol entre bairros ou jogos de baralhos. Essas eram estratégias para despistar a polícia política portuguesa, a PIDE – Polícia Internacional da Defesa do Estado. Era uma das polícias mais temidas da Europa, estruturada durante o regime Salazar nos moldes do SS da Terceira Reich. Éramos designados a ficar de vigilância e prontos para avisar através de códigos a aproximação de qualquer veículo ou pessoas suspeitas na vizinhança. A minha militância à luta de libertação tinha começado a partir daí. Nessa altura a mobilização de pessoas para a luta de libertação estava muito acelerada. Os jovens entre 15 e 20 anos eram cada vez menos vistos na cidade, porque a maioria tinha fugido para integrar as fileiras do PAIGC – Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde. Eu tinha nesse tempo 10 anos de idade. Havia um medo grande dos meus pais para que eu não seguisse o mesmo caminho, por isso todos os recursos foram usados para me desencorajar. Tive que ficar em Bissau amargando as saudades dos colegas que foram engrossar as fileiras do PAIGC. Apesar de todos esses fatos, tive um avanço considerável na escola. A minha trajetória foi marcada por esse período. As conquistas, crédito aos conhecimentos adquiridos na escola corânica, uma vez que há muita influência do alfabeto árabe na língua portuguesa. No segundo ano da minha entrada à escola portuguesa já estava na segunda série primária. Em 1963, fui matriculado na 3ª série na escola missionária de Bissau. Esse ano foi o mais duro da minha vida. Com o eclodir da guerra de libertação, a minha família ficou separada. O meu pai estava no interior sem poder regressar a casa, a minha mãe que tinha acompanhado minha avó em tratamento de saúde no Senegal, ficou também por lá. Fui entregue à sorte em mãos de outros familiares. Mesmo assim consegui passar de classe, de 3ª para a 4ª série. A partir da 4ª série marquei o passo durante dois anos. Sozinho, sem os meus pais, perdi o estímulo. Em 1965, o meu pai conseguiu sair do lugar onde se encontrava e foi para a cidade de Bolama, quando soube do meu paradeiro mandou-me buscar. A partir daquela fase tive condições de retomar os meus estudos primários, assim em 1966 consegui concluir a 4ª série primária.
A guerra fez o meu pai perder todo os seus bens, e nesse sentido foi obrigado a mudar de atividade, de comerciante para a atividade agrícola plantando pequenas roças de milho, arroz de sequeiro, mandioca e feijão, atividades preservadas até a data presente apesar do peso da idade ( 94 anos ). Foi a partir dessa dura fase que iniciei o meu contato com a vida rural. A minha vida passou então a ser um misto de roceiro, estudante e feirante, situação atípica para aqueles que não acreditam que a vida não comporta limosidades.
2.2. O tempo de aprendizado para a tarefa mais nobre do saber: o magistério
Um ano após ter concluído o ciclo primário, em 1967, consegui ingressar na Escola de Magistério Primário de Bolama através do exame de seleção. Essa decisão minha e do meu pai foi a solução alternativa encontrada para superar a dificuldade de dar continuidade os estudos secundários em Bissau, uma vez que não tinha condições financeiras para me manter naquela cidade e nem familiares que pudessem me alojar. O dilema de tudo isso era só na capital que se dispunha de escolas secundárias. Para se ter a idéia, na capital da Província da Guiné, havia apenas um Liceu e uma Escola Técnica. Em cada sede do Conselho Administrativo (município) havia apenas uma escola oficial para os filhos dos funcionários da administração colonial, dos comerciantes e dos assimilados, e uma escola missionária para o grosso da população. O que parecia ser solução alternativa acabou se transformando em solução definitiva. Estava selada o meu compromisso com a educação.
Os primeiros dois anos do curso de magistério primário transcorreram como se fossem apenas uma etapa de novos estudos. Só a partir do terceiro ano é que se começou a vislumbrar o horizonte esperado, isto é, o contato com o alunado através de práticas de didática. O último ano de curso se resumiu à elaboração de planos de aulas. Os quatro anos que levei para cursar o magistério foram combinados entre os estudos e trabalho nas férias. Durante as férias eu procurava sempre o que fazer para ganhar uns trocadinhos a fim de comprar os meus pertences (livros e roupas). Não escolhia o tipo de trabalho, contanto que ganhasse algum trocado que desse para satisfazer o meu desejo. Foi nessa base que trabalhei como boia-fria no campo experimental agrícola de Bolama; trabalhei como gari da Câmara Municipal de Bolama. Em Bissau, em outra ocasião, trabalhei durante as férias como estivador no porto de Bissau, como copeiro e garçom no restaurante Pelicano da propriedade de um português Sr. Marques.
Em 1971 conclui o Curso de Magistério Primário tendo sido um dos primeiros colocados no curso. Devido esse fato fui agraciado com uma viagem de estudo para Portugal por 60 dias. Essa foi a minha primeira viagem para o exterior. Após o meu regresso, ainda em 1971, fui nomeado professor para a cidade de Bafatá, a segunda cidade da Guiné-Bissau onde trabalhei durante dois anos na Escola 12 de Setembro. Durante os anos que trabalhei nessa escola pude sentir pela primeira vez a amizade que o mestre recebe dos seus alunos. Essa amizade eu pude percebê-la através do carinho e do assédio que recebia deles. Até hoje guardo comigo as fotografias tiradas com os meus alunos da alfabetização e da primeira série.
A minha atitude com os meus alunos refletia no rompimento que pretendia fazer entre o aprender apanhando e o aprender com base no carinho e na compreensão. O meu aprendizado foi baseado em cima de uma pedagogia opressora (castigos etc.), esse período ajudou-me a refletir bastante sobre o modelo de ensino a que estávamos submetidos enquanto colonizados. Ainda assim, eu pensava num modelo alternativo que deveria ser seguido, apesar termos sido colonizados. Foi nesse sentido que procurava trabalhar com as crianças sob a forma de jogos infantis e histórias contadas, uma vez que na África Negra a vivência das pessoas é conduzida na base de contos proverbiais e de tradição oral, isto é, o conto memorial dos clãs de cada família, transmitido de geração em geração. Como esse método lhes interessava diretamente então tudo para eles passou a ser mais fácil de assimilar.
2.3. A vida político-militar
Em 1973 fui mobilizado pelo exército português e cumpri o serviço militar no Grupo de Artilharia 7 – GA7. Mais uma vez tive que lutar contra o meu destino, porque não aceitava a idéia de fazer parte da tropa de elite para lutar contra os meus compatriotas, mas também não podia deixar transparecer a minha situação de militância no Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde - PAIGC sob a pena de ser preso e ser forçado a confessar segredos sobre minha história e de meus companheiros e, além disso, seria considerado crime de alta traição à pátria o que poderia me render à prisão perpétua em um dos fortes portugueses. Felizmente, antes de ser mandado à frente do combate fui chamado de volta para o Serviço da Educação Nacional para assumir o cargo da diretoria na Escola 8 de Março. Essa chamada adiou a minha decisão de desertar das fileiras do exército português para me juntar aos meus compatriotas. Durante o período que passei nessa escola procurei trabalhar com os alunos nos mesmos moldes que fazia em Bafatá, só que havia uma vantagem nisso, os alunos da Escola 8 de Março já eram mais crescidos e também estudavam a última série primária. Nesse contexto, procurava trabalhar com eles na base de conscientização sobre o futuro que lhes esperava.
Em 25 de abril de 1974 deu-se a revolução dos cravos em Portugal. Os sonhos da independência se acenderam e a população da capital e de algumas cidades do interior do país sublevaram-se prometendo quebra-quebra. Com receio de que essa atitude piorasse a situação que já estava tensa e com isso levasse ao massacre das populações indefesas pelas tropas portuguesas na Guiné, ainda sem orientação e sem rumo, um grupo de jovens se organizou saindo às ruas para impedir as justiças com as próprias mãos, exaltando para a população a busca da paz e tranqüilidade e que confiassem no PAIGC que naquele momento estava negociando com o governo português o cessar fogo e a retirada das tropas portuguesas no país. Eu estava entre esse grupo de jovens, a nossa organização denominava-se CJUP – Comissão da Juventude para Unidade e Progresso. Fizemos saber à direção do PAIGC de que não se tratava de um partido de manobra criado no último momento para dificultar o processo da transição na Guiné-Bissau. Essa decisão foi confirmada e permitiu a infiltração de alguns militares do PAIGC nas áreas até então controladas pelo governo português. A primeira missão de contato enviada para se inteirar do nosso trabalho foi chefiada por Maximiano que posteriormente ocupou cargo de primeiro secretário da Embaixada da Guiné-Bissau em Portugal. Do nosso lado faziam parte Francisco José Fadul, atual Primeiro Ministro do Governo da transição na Guiné-Bissau, Aliu Bari, Idrissa Djalló, Armando Condon, Rui Davis, Leopoldo Cordeiro, eu e mais outros companheiros, muitos dos quais vieram a ocupar cargos no governo.
2.4. A experiência nova num país novo
Após a independência, fui chamado para ocupar cargos da direção de algumas escolas em Bissau entre as quais: Escola 8 de Março, Escola Revolução de Outubro, Escola Patríce Lumumba. Também fiz parte do Conselho Pedagógico e Inspetor Escolar para a região de Bissau. Em cada uma dessas escolas, as minhas atividades se resumiam além da direção, também da orientação pedagógica. Por essa razão fui convidado para desempenhar o cargo de inspetor escolar na região de Bissau.
Em 1975, um ano após a independência da Guiné-Bissau, foi realizado o I Seminário Internacional da Educação dos Países Africanos de Expressão Oficial Portuguesa. Mais uma vez eu figurava entre os delegados designados ao seminário para representar a Guiné-Bissau. Foi uma experiência ímpar na minha vida, porque na flor da idade pude opinar em busca de solução para os novos desafios da educação num país que acabara de nascer. Difícil romper com as amarras do passado, a educação moldada aos modos de produção colonial: serviência, ignorância e medo de crescer.
Em 1977, participei de um Curso de Lingüistica promovido pela UNESCO em colaboração com o Departamento de Lingüista Aplicada da Faculdade de Letras da Universidade de Dakar – Senegal. O objetivo desse curso era identificar os fonemas das línguas nativas faladas na Guiné-Bissau para verificar as suas aproximações com os fonemas do alfabeto português. A preocupação central era tentar superar as lacunas deixadas na alfabetização e no ensino da língua portuguesa aos guineenses. A critica que se fazia era de que se fazia passar a língua portuguesa nas escolas como se fosse o idioma materno, o que não correspondia à realidade dos guineenses porque de volta aos seus lares cada um falava o seu idioma nativo. A identificação e o contorno do problema transformaria num grande subsídio para a aceleração e aperfeiçoamento das técnicas de alfabetização, principalmente dos adultos. Diga-se de passagem, o índice de analfabetismo na Guiné-Bissau na altura da independência era de cerca de 90%.
Em 1977, freqüentei um curso de aperfeiçoamento para os professores do ensino secundário. Após a conclusão do curso fui convidado para assumir o cargo de Inspetor Escolar, cargo que desempenhei em conjunto com o de Diretor da Escola Primária Patrice Lumumba.
Em 1978, conclui o Segundo Grau, nessa altura solicitei a bolsa de estudos para continuar a minha formação no exterior. O Ministro da Educação mandou-me chamar para comunicar que eu era uma peça importante na educação e que não podia me liberar para o exterior a fim de continuar os estudos universitários. Eu deveria me conscientizar de que estava fazendo parte das pedras sacrificadas em nome do país. Ouvi pacientemente o senhor ministro e pedi a palavra para manifestar o meu agradecimento aos elogios tecidos a meu respeito, mas também, demonstrei a minha discordância sobre o ponto de vista por ele apresentado. Após um mês da nossa conversa pedi a demissão e fui para o Ministério da Economia sob a indicação do Professor Ladislau Dowbor que era meu Professor de Geografia Econômica no Liceu Nacional Dr. Kawame N’Krumah. O Professor Dowbor ocupa hoje o cargo de docente na PUC-São Paulo e foi Assessor para Assuntos Internacionais na administração de Luiza Erundina, ex-Prefeita de S. Paulo.
Um ano após a minha admissão no Ministério da Economia (1979) já era o chefe do setor de finanças na Direção-Geral das Relações Econômicas Internacionais e administrador dos fundos de financiamentos para a Assistência Técnica e Programas de Compras. Entre 1978 a 1979, fiz cursos de aperfeiçoamento no País e em Portugal: cursos de Elaboração e Avaliação de Projetos de Investimentos patrocinados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Junta Central de Planejamento do Ministério das Finanças de Portugal e Ministério da Educação Nacional da Guiné-Bissau. Em 1979 sob a coordenação do Professor Ladislau Dowbor, um grupo de 7 jovens, contando comigo, saídos dos bancos do Liceu, transformou partes das pesquisas realizadas no Ministério do Planejamento em capítulos do livro intitulado “Geografia Econômica da Guiné-Bissau”. Foi a minha primeira experiência de participação em trabalhos científicos. O trabalho repercutiu favoravelmente nos meios intelectuais do país ao ponto de sentirmos encorajados a fazer a sua reedição ampliada. Nesse contexto convidamos um dos maiores geógrafos do mundo, o Baiano, Professor Milton Santos para um trabalho de consultoria na Guiné-Bissau. Foi nesse tempo que recebi informações sobre o Brasil, sobretudo a Bahia, de uma maneira mais completa e verdadeira. O meu interesse em conhecer e estudar no Brasil aumentou a partir daí.
Em 1980 fui convidado para fazer parte do gabinete do Ministro da Economia com a autorização de despachar e encaminhar as correspondências para os procedimentos cabíveis. Nesse mesmo ano participei do Seminário Internacional sobre a Política de Desenvolvimento para os Países em Desenvolvimento em Varna-Bulgária. Nesse mesmo período ainda, sob a designação do Ministro de Economia e aprovação do Presidente da República participei como membro da Delegação do Governo da Guiné-Bissau em viagens de negócios à Itália. Após o retorno dessa viagem fui nomeado o relator e tive, portanto, a chance de ser convidado pelo Presidente Luís Cabral para apresentar o relatório dos Acordos de Cooperação assinados na Itália em companhia do Chefe da Delegação, o então Presidente da Câmara Municipal de Bissau, Senhor Juvêncio Gomes.
Entretanto o sonho de se ver galgando os degraus da administração pública foi abortado na noite do dia 14 de Novembro de 1980, quando se deu o golpe de Estado. A partir desse momento eu pensei que havia chegado a hora de retomar o antigo anseio que era dar continuidade à minha carreira acadêmica. Fiz uma profunda reflexão. Cheguei à conclusão de que o tempo de tarefas administrativas, de intermináveis horas gastas no preenchimento de relatórios e de formulários teria os dias contados com uma nova situação político-administrativo que o país iria atravessar após a mudança do regime político. Portanto, não gostaria de continuar gastando boa parte de minha vida nesse “ofício” burocrático. Tenho clara minha vontade de não ser apenas profissional da reflexão ou agente burocrata do saber, mas de buscar na reflexão, no conhecimento, formas de reorientação de minha vida prática.
Foi nessa base que em 1981 concorri à bolsa de estudo para continuar os meus ideais acadêmicos no Brasil. No caminho para a concretização do sonho manifestado na infância, de ser Bacharel e Professor de Economia.
A minha vinda para a Bahia em 1981 foi por coincidência, porque houve troca de passagens aéreas por engano, o colega que era para vir para Bahia ficou no Rio de Janeiro e eu que estava denominado para estudar no Rio, vim para a Bahia. Só foi notado o engano na hora da matricula, mas eu decidi ficar neste último endereço, a partir daquele momento eu tinha escolhido a Bahia como a minha segunda terra natal. O meu destino estava selado por esta linda e maravilhosa terra. Terra dos meus ancestrais africanos
3. Os meus primeiros passos na academia: da graduação ao pós-graduação.
Iniciei os meus estudos de Economia na Universidade Católica do Salvador (UCsal) em 1981. Os quatro anos e meio que se seguiram ao meu ingresso na UCsal foram de expectativa e de muito esforço para sobreviver, porque a bolsa que eu recebia não dava para me sustentar e sustentar a minha esposa e minha filha recém nascida. Então, a alternativa encontrada foi recorrer a estágios remunerados na Caixa Econômica Federal, na Oxiteno Industria e Comércio e na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia. Não foi difícil combinar estudo/trabalho, uma vez que tem sido essa a dicotomia da minha vida na Guiné-Bissau.
Em 1985 conclui o curso de graduação com êxito. Para a Guiné-Bissau, naquele momento, o curso de graduação preenchia as necessidades, mas projetei o meu pensamento para o futuro e achei que a minha formação não estava completa. Fiz então, o concurso da ANPEC – Associação Nacional de Pós-Graduação em Economia onde logrei a aprovação para o Cursar o Mestrado em Economia na Universidade Federal da Bahia - UFBA.
Em 1991 conclui o Curso do Mestrado apresentando a dissertação sob o titulo “Efeitos da Política de Estabilização Econômica e Financeira da Guiné-Bissau no setor Agrícola”. O meu interesse para a área agrícola, como pesquisador, começou a ser delineado a partir daí. Findo essa etapa eu poderia ter voltado para o meu país, mas dada a situação político-social difícil que o país vivia culminando com as prisões e fuzilamentos, inclusive de alguns quadros de formação universitária como por exemplo o Engenheiro Agrônomo Mando Fati, Procurador-Geral da República Viriato Pam etc. cheguei à conclusão de que os meus objetivos de pesquisador iriam de encontro aos interesses constituídos naquele país. Tive a clara idéia de que não era aquele país que sempre sonhei ver desenvolvido. País onde não se vive a cidadania e a liberdade de expressão e de pensamento, a carta magna que expressa a vontade da Nação passa a ser elemento de manipulação do suposto dono do país ao seu bel prazer. Por essa razão cheguei à conclusão que o meu exercício de pensar e de produção acadêmica não teria vez naquele país, lamentavelmente. Foi nessa base, que em 1993 concorri novamente à vaga de doutoramento em Economia Rural na Universidade Federal de Viçosa. Havia vários motivos que me levaram a tomar essa atitude de pleitear fazer meu mais alto grau acadêmico na área agrícola: primeiro, pelo fascínio que eu tenho pela agricultura; segundo, pensando ainda na possível contribuição que poderia dar para a solução do problema alimentar mundial, sobretudo no continente africano, onde vários países, inclusive a Guiné-Bissau, procuram alternativas do desenvolvimento no setor agrícola; terceiro, eu quis dar seqüência à minha dissertação do mestrado, que foi orientada para a área agrícola. Motivos que me levaram a reviver tempos em que ajudei meu pai na atividade agrícola.
Em 1995 conclui os créditos do curso de doutorado no primeiro semestre, logo no segundo semestre submeti-me ao Exame de Habilitação (este exame constitui uma prova preliminar ao Exame de Qualificação). No primeiro exame, o doutorando é submetido ao teste do amadurecimento intelectual para então, ser autorizado a elaborar o projeto que será apresentado e avaliado no Exame de Qualificação). Em Março de 1997 realizei o tão esperado e comentado Exame de Qualificação no Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa – UFV, logrei a aprovação. A partir daí desenvolvi a minha pesquisa final que culminou com a redação da Tese de Doutorado. A Tese foi concluída em Novembro de 1997 e logo em seguida, no dia 17 de Dezembro do corrente ano, foi apresentada em defesa pública. O tema da tese é “Análise Econômico-Financeira do Crédito Fundiário no Brasil”.
Essa etapa constitui a concretização do sonho. Não via a hora de apresentar os meus três diplomas ao meu pai para lhe dizer que o prometido foi cumprido.
Apesar de ter me licenciado da Faculdade para prosseguir os estudos de pós-graduação, nível doutorado, as minhas atividades de docência e de pesquisa nunca foram deixadas de lado, elas foram desenvolvidas concomitantemente com os cursos de pós-graduação realizados ao longo desses anos.
4. Pesquisa: marcas de uma trajetória
As marcas da minha trajetória de pesquisa não expressam uma coerência permanente. Revelam, talvez, a persistência de pensar a pesquisa como um campo de conhecimento e de compromisso, no qual os sujeitos de investigação, sem ser tratados como objetos, mas como pessoas, têm me mostrado, de diferentes maneiras que, na prática, vale a pena contrariar a cientificidade pensada de forma desinteressada e neutra. Revelam igualmente que o movimento de autocrítica que tem me acompanhado em toda trajetória da pesquisa tem me permitido um bom convívio com as dúvidas e inquietações do saber.
4.1. A pesquisa de doutoramento
Em princípio, eu pensei desenvolver a tese do doutorado nos moldes dos modelos das políticas macroeconômicas aplicadas à agricultura.
Cheguei a esboçar um projeto de pesquisa, mas devido a inúmeras teses desenvolvidas nessa área, pensei que não teria nenhuma contribuição a dar, ela poderia vir a fazer parte de mais uma tese a se juntar a tantas outras da mesma série. Por isso resolvi elaborar um novo projeto de pesquisa que discute um dos principais problemas do campo e da agricultura brasileira - Reforma Agrária. A partir desse momento, alguns pontos controversos sobre o sentido da reforma agrária se afloraram na minha pesquisa e, era necessário definir o rumo da pesquisa evitando-se assim, das incertezas que costumam acompanhar o pesquisador na tomada de decisão. O cerne da questão residia nas discussões que se travavam entre os economistas agrícolas e os cientistas sociais sobre a necessidade de se fazer a reforma agrária. Para os economistas agrícolas não era necessário fazer a reforma agrária com vista ao aumento da produção e da produtividade, porque a agricultura com o advento da modernização e da aplicação em massa de tecnologia química provou que podia crescer e atingir a produtividade desejada com o pouco espaço de terra. Nesse sentido, as reivindicações pelo acesso à terra só poderiam ser entendidas como a necessidade de se fazer a justiça social, ou seja, o resgate da dívida do governo federal para com a população expulsa no campo a partir da “solução” capitalista da agricultura.
O debate sobre a reforma agrária ganha o corpo no cenário nacional e internacional, surgem vários movimentos sociais de apoio à reforma agrária, entre eles o MST – Movimento dos Sem-Terra, os pastorais de terra da igreja católica, CONTAG – Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura, as ONG’S. O reforço político dessas organizações sociais citadas incentivam as ocupações das terras sob a liderança do MST, sob a alegação do descaso do governo na condução da política da distribuição de terras.
Em face a essa real situação tinha que se pensar na forma alternativa de propor a distribuição de terras. É nesse contexto, que apresentei a minha proposta que se transformou em um estudo baseado numa forma diferente de se pensar a reforma agrária, ou seja, a distribuição de terras a partir de uma solução capitalista. Essa proposta trata-se do Crédito Fundiário. O crédito fundiário já foi menção no Estatuto da Terra de 1964, publicado pelo governo militar, como a resolução, em parte, dos conflitos da terra. O crédito fundiário e a implementação do ITR – Imposto Territorial e Rural seriam duas formas alternativas adicionais de implementação da reforma agrária. Estas duas formas de intervenção econômica poderão, em certas condições e dentro de determinadas restrições permitir a ampliação da oferta de terras. Ademais, a implementação da cobrança do ITR poderá contribuir, adicionalmente, para coibir atitudes especulativas no mercado de terras.
A hipótese defendida neste trabalho funda-se na implementação de uma linha de crédito para financiar a compra de terras (crédito fundiário), a juros subsidiados em um prazo de amortização de 20 anos para as famílias dos Sem-Terra devidamente cadastradas no MST e Organizações sociais de apoio à reforma agrária. Esta parece constituir-se numa alternativa razoável, e mais que isso, viável para assegurar o rápido acesso à terra pelos beneficiários de reforma agrária.
A primeira e a segunda fase da pesquisa se resumiram em viagens para levantamentos de dados ao campo através de entrevistas com os principais lideres do MST e responsáveis das ONG’s em Brasília, São Paulo e Salvador. Feitas as entrevistas deu-se por encerrada estas duas fases. O objetivo era para tornar consistente o referencial teórico montado para a análise do crédito fundiário.
A terceira fase constituiu-se da coleta de dados secundários tendo em vista os objetivos específicos:
a) Determinar as taxas de juros que tornariam viáveis o programa do crédito fundiário;
b) Analisar os efeitos de variação do crédito fundiário sobre a produção e sobre o nível de renda;
c) Avaliar os efeitos de mudanças no tamanho do módulo sobre a viabilidade econômico-financeira do uso do crédito fundiário;
d) Determinar o prêmio de risco associado à situação dos produtores sem e com crédito fundiário.
Foi possível atender os objetivos delineados através dos dados obtidos do I Censo da Reforma Agrária em 1996 organizados pelo PRODATA/UNB, pelo convênio INCRA/universidades. Em seis estados selecionados que representaram três regiões do país (Sul, Sudeste e Nordeste), a seleção dos produtores utilizou o critério de amostragem sem reposição. O período de análise considerado foi de 1995/96, data-limite que refletiu o resultado das safras agrícolas realizadas nos assentamentos, nesse período. A compatibilização dos dados foi feita por meio das informações obtidas dos técnicos das EMATERs, dos Estados selecionados e também dos manuais de pesquisas obtidas das instituições agrícolas.
A realização da pesquisa obedeceu às seguintes etapas: de 1995 a Março de 1996 – elaboração, coleta de material empírico e bibliográfico, e realização do trabalho de campo; Março de 1997 – realização da defesa do projeto apresentado no Exame de Qualificação; de Maio de 1997 a Junho de 1997 – tabulação dos dados coletados e sistematização do material; Julho de 1997 – redação final da tese de doutoramento. Defesa da tese em 17/12/97. Titulo da tese – Análise Econômico – Financeira do Crédito Fundiário no Brasil.
Para a realização dessa pesquisa obtive financiamento da CAPES. Convém salientar que a pesquisa e a sistematização do material foram feitas dentro do prazo estabelecido pela CAPES para a concessão da bolsa de estudo para o doutorado.
Nessa pesquisa, assumi claramente a discussão da resolução dos conflitos de terras no Brasil via soluções econômicas. “...Essa nova realidade, criada a partir das “soluções econômicas”, isto é, a modernização agrícola, acabou gerando novos problemas para os centros-urbanos industriais - a concentração populacional, o desemprego, a marginalidade, enfim a crise social urbana. Os movimentos sociais pela luta de direitos da cidadania têm, recentemente, defendido a tese de que a solução dos problemas da cidade está no campo. Nesse sentido, assiste-se ao crescimento dos movimentos dos trabalhadores sem terra em direção ao campo. Entretanto, as possibilidades de solução dessa questão, no Brasil, têm sistematicamente, esbarrado, na indisponibilidade de acesso aos meios de produção (terras).
A dificuldade de acesso à terra tem sido a causa fundamental da mobilização dos Sem-Terras para reivindicar esse direito junto ao governo, e se transformou em alvo de atenção da mídia nacional e da sociedade brasileira. Esta luta pela democratização do acesso à terra tem-se transformado em demanda de uma pequena área de terra para muitos contra a existência de grandes extensões de terras em mãos de poucos. Nesse contexto, a importância deste estudo está, sobretudo, no fato de investigar alternativas adicionais aos processos de desapropriação para fins de reforma agrária, alternativas estas, que possam contribuir efetivamente para agilizar o acesso a terra, sem comprometer a sustentabilidade dos novos agricultores.
O crédito fundiário, ressalvadas as restrições indicadas nesse estudo, poderá ser um desses instrumentos de aceleração do processo de reforma agrária. Até porque, a reforma agrária, da forma como vem sendo implementada, via desapropriação, tem representado um custo elevado”.[5]
4.2. Os desdobramentos esperados da tese de doutoramento
Defendida a tese, vários desafios me apareceram pela frente: refazê-la para publicação dado o seu caráter acadêmico e sua extensão; incorporar a contribuição acadêmica e sócio-econômica que o trabalho trouxe ao cenário da reforma agrária; aprofundar as reflexões teóricas sobre atitudes dos produtores assentados em face ao risco. Está em negociação com o Departamento de Economia Rural da Universidade Federal de Viçosa através do meu orientador a publicação da tese. Dois artigos extraídos de alguns capítulos da tese já estão prontos para a publicação na Revista de Economia e Sociologia Rural e também, serão apresentados no Congresso da SOBER em Foz de Iguaçu na primeira semana de Agosto de 1999. Como resultado do anseio demonstrado para a extensão do estudo começado com a tese foram apresentadas algumas palestras sobre o tema da tese aos alunos da Faculdade Católica de Ciências Econômicas da Bahia e aos alunos do Curso do Mestrado em Contabilidade da Fundação Visconde de Cairu.
Os artigos publicáveis são os seguintes:
. A Questão Agrária no Brasil: abordagens e controvérsias;
. Crédito Fundiário no Brasil: atitudes dos produtores em face ao
risco.
No momento atual está-se estruturando um projeto de pesquisa na área da política agrícola cujo tema é “A Política para o Meio Rural”. Esta decisão justifica-se pelo trabalho que estou desenvolvendo junto ao Curso de Mestrado em Ciências Agrárias da Escola de Agronomia de Cruz das Almas da Universidade Federal da Bahia como Professor Visitante.
4.3. Pesquisa individual e em colaboração
Após a conclusão do meu doutoramento fiquei contaminado pelo gosto de escrever e publicar. A experiência da intensa atividade de pesquisa da minha Tese de um lado, e do incentivo à produção literária e científica proporcionado pelo meu Centro de Pós-Graduação em Viçosa de outro, foram os grandes estímulos que me levaram a continuar a produção acadêmica e científica posteriormente. Nesse âmbito elaborei um projeto preliminar para a implantação de um Parque Temático na região metropolitana do Salvador. Esse parque seria alusivo aos 500 anos de Descobrimento do Brasil. Entre as justificativas dadas sobre a criação do parque temático ficou reforçada de que projeção do referido parque nos arredores do Complexo Industrial de Aratu - CIA Aeroporto seria de extrema importância não só do ponto de vista histórico-cutural, por se situar próxima às regiões onde no passado se viu florescer a vida econômica da colônia (grandes plantações de cana-de-açúcar e de fumo), mas também por estar situado na região que ainda constitui uma das poucas reservas da mata atlântica do Salvador.
Nesse contexto, a localização do Parque Temático nessa área constituía um reforço, senão um meio de defesa e de conscientização para a preservação da flora e da fauna da região. A área em questão está localizada no eixo da Rodovia BR-324, a principal porta de entrada para Salvador por terra e, do Aeroporto Internacional Luis Eduardo Magalhães por ar. Por outro lado, essa região tem um grande potencial para o desenvolvimento do turismo ecológico.
Esse projeto poderia entre outros benefícios, também, proporcionar ingressos de divisas para a instituição financiadora, para os municípios envolvidos e para o Estado da Bahia devido ao grande fluxo de turistas que o empreendimento desse porte poderia receber. Isso certamente, contribuiria para torná-lo viável economicamente sob o ponto de vista do retorno do capital investido. Por outro lado também poderia despertar grande interesse na área acadêmica para a elaboração de monografias e teses sobre os temas econômicos e ambientais.
O projeto é de iniciativa conjunta da Faculdade de Ciências Econômicas da Bahia – FACCEBA e do Senhor Moacir, um empresário ligado ao setor imobiliário. Moacir entrou com as terras e a FACCEBA com as infraestruturas educacionais. A parte complementar dos recursos financeiros seria captada das agências financeiras nacionais e internacionais. A iniciativa ainda não saiu do papel, devidos aos problemas de ordem financeira e institucional.
A pedido do Diretor da FACCEBA elaborei um outro projeto desenvolvendo as Normas para a Elaboração de Monografias nessa instituição de ensino. Nesse contexto foi desenvolvido um regulamento modelo para a disciplina de Monografia, do Curso de Graduação em Ciências Econômicas da FACCEBA.
O objetivo desse trabalho é disciplinar os procedimentos envolvidos na elaboração da monografia tendo em conta a temática, o desenvolvimento da temática do projeto da monografia propriamente dita, o cronograma, a coordenação da monografia e a nomeação da Banca Examinadora.
Em 1997 fui contratado pela Fundação Visconde de Cairu – FVC para fazer parte do corpo de docentes do Mestrado em Contabilidade participando na elaboração de projetos de pesquisa na área econômica e contábil. Nesse contexto elaborei um projeto para a criação do Curso de Pós-Graduação “lato sensu” em Engenharia Econômica de Negócios. O projeto foi aprovado pelo DMEC em Salvador e já está em pleno funcionamento. O curso iniciou com 18 alunos, mas dada a natureza do seu conteúdo os alunos que não conseguiram se adaptar foram desistindo, digamos assim, que foi uma seleção natural. Em Maio próximo estará concluindo o curso a primeira turma dos doze alunos. Já foram abertas as inscrições para a segunda turma.
O Curso de Especialização em Engenharia Econômica de Negócios proposto pela Fundação Visconde de Cairu é basicamente um curso novo. Ele é constituído das seguintes áreas: Economia, Administração de Empresas, Ciências Contábeis, Matemática Financeira e Informática. Estas áreas afins fazem parte do dia a dia, em todas as esferas da produção e dos negócios, de uma economia. Por isso, elas constituem a chave do segredo para os Negócios no próximo milênio.
A proposta do Centro de Pós-Graduação e Pesquisa Visconde de Cairu - CEPPEV é oferecer aos candidatos um curso que lhes proporcione uma visão mais clara sobre o mundo de negócios. Foi nessa base que se propôs a criação do Curso de Pós-graduação “lato sensu” em Engenharia Econômica de Negócios com objetivo de oferecer a especialização sólida aos executivos e profissionais que queiram diversificar a sua visão sobre os problemas econômicos internos e externos. Atualmente sou coordenador desse curso e o projeto se mantém em execução.
Além dessas atividades, estou envolvido com a criação de um setor de pesquisa na FVC para calcular os indicadores sócio-econômico e financeiros para a Bahia e principalmente para o centro financeiro de Salvador. Entendo que a cidade de Salvador está bastante desenvolvida e os negócios precisam acompanhar esse desenvolvimento, para isso precisa-se de dispositivos que informem as pessoas sobre o termômetro dos negócios.
Numa sociedade moderna da economia de mercado há uma incessante busca de equilíbrio entre os recursos disponíveis e as necessidades sempre crescentes. Podemos tomar como exemplo: a demanda e a oferta de bens de consumo; do emprego; do número de vagas do leito hospitalar; do número de vagas em escolas etc. Torna-se quase impossível planejar o uso racional dos recursos ou quantificar o grau de bem-estar de uma sociedade sem estar de posse de informações que mostram a variação relativa de determinadas quantidades, em determinado espaço de tempo. Essas quantidades podem ser inflação, correção monetária, correção cambial, reajuste salarial, produção industrial, nível de emprego, preços, índice de escolaridade, índice migração, natalidade e mortalidade etc.
A proposta do projeto é criar uma Revista na qual possam ser publicados periodicamente os indicadores econômicos e financeiros ligados a essas áreas, bem como a análise dos fatos econômicos e financeiros relevantes sob condições de riscos e incertezas no mundo de negócios.
Salvador com cerca de 3 milhões de habitantes, possui um dos mais importantes centros financeiros, comerciais e industriais do Norte-Nordeste. Portanto, a existência de informações estatísticas que objetivem quantificar o grau de qualidade de vida da população desta cidade, bem como a elaboração de um conjunto de dados estatísticos capazes de dar uma idéia do estado de uma economia em determinado período ou data é de extrema importância não só do ponto de vista acadêmico mas também do ponto de vista de prestação de serviços às empresas.
Os índices que geralmente se publicam nos jornais e principais revistas estatísticas do país, e que servem de base para o cálculo de preços para se resguardar de possíveis perdas caso haja mudanças na política econômica do governo e nos contratos de prestações de serviços ou de compra e venda de bens de serviços, não refletem a realidade do custo de vida na cidade do Salvador. É nesse contexto que se propôs, a criação desse setor para elaborar os referidos índices.
Aguarda-se a alocação de infraestruturas na FVC para dar início à execução do projeto. Tudo indica que a sua concretização será no início do segundo semestre de 1999.
Além desses projetos individuais, partilho também a pesquisa com uma equipe da graduação da FVC desenvolvendo o projeto da criação do Núcleo de Assessoria as Entidades Públicas e Privadas – NAEP.
A criação do NAEP, além de serviços técnicos que se propõe prestar às entidades públicas e privadas, é importante na medida em que procura preencher a lacuna que é considerada o ponto nevrálgico das atuais Instituições do Ensino Superior - a dissociação da teoria com a prática, ou seja, o divórcio do conhecimento teórico com o conhecimento prático. Entre outras justificativas a criação do NAEP propõe:
a) superar a dificuldade enfrentada pelo candidato em sua adaptação profissional ao mercado de trabalho;
b) proporcionar a formação prática e real que complemente a formação acadêmica do estudante;
c) estabelecer uma ponte sólida entre a Cairu e as empresas, para que se consiga trazer para esta referida instituição a realidade do mundo empresarial.
A importância deste proje